21 de junho de 2011

A CORRUPÇÃO ESCOLAR

É curioso trazer esse tema, ainda mais ligado às escolas já que, na verdade, parecem existir para formar cidadãos de bem. Nós sabemos o que é ser educador atualmente no Brasil: preparar-se durante anos numa faculdade, para ser reconhecido no mercado educacional. Como um intelectual que trabalha com o mundo das ideias e da cultura, que lida com o saber e com o conhecimento, que lê, escreve, ensina e está rodeado de livros, pode ser corrompido por um sistema chamado de progressão continuada ou aprovação automática. Os técnicos em educação desenvolveram métodos de avaliar a aprendizagem e, a partir dos seus resultados, classificam os alunos. A educação fascinada pelo conhecimento do mundo, esqueceu-se de que a vocação é despertar o potencial único que está adormecido em cada estudante. Daí o paradoxo com o qual sempre nos defrontamos: a corrupção na escola.
O que a corrupção tem a ver com a escola? O pior é que tem tudo a ver. A corrupção evoca as artimanhas, manipulação dolosas, fraude, engano, roubo, suborno, tráfico de influência, coação, mentira, evasão, desvio de recursos, abuso de poder, falta de ética e de moral. Embora sendo um mal generalizado em nossos dias, a corrupção tem uma longa trajetória no mundo. Entretanto, é um tema de adultos, a corrupção não é uma prática improvisada só na vida adulta, mas uma aptidão que se cultiva sistematicamente desde a infância. O aparelho escolar, sutil e aberto, cotidiano e imperceptivelmente, compactua com a cumplicidade de autoridades, educadores e pais de família que promovem entre as crianças valores e comportamentos que fazem o jogo da corrupção. Manda-se fazer um trabalho em grupo. Apenas um faz o trabalho, os demais colocam o nome. Toda a classe sabe quem trabalhou e quem não. Em geral, os pais e os educadores também. Mas ninguém diz e nem faz nada. Semente para o futuro aproveitador do trabalho alheio, para o explorador, o cínico e o oportunista que a escola está cultivando. Quem copia pode receber nota igual e até mais alta do que aquele que faz sozinho e com suas próprias ideias. Ambos aprendem que o próprio esforço, a originalidade, o próprio critério, não valem nada.
Tão corrupto é o funcionário público que vende favores e cargos, como o professor que vende notas e aprovação no ano letivo, e o pai ou a mãe de família que se prestam a isso. Tão corrupto é o intelectual que plagia uma obra alheia, como a criança que copia a lição do colega ou leva a lição feita pelo pai e a apresenta como sendo sua. Tão corrupto é o político que encobre os maus comportamentos de seus colegas de partidos, como a mãe que encobre a cola de seu filho durante as provas.
Os corruptos adultos começam na infância, mais precisamente na escola, apropriando-se da lição de outros, mentindo ao professor, colando na prova, enganando os pais. Todavia, essa situação parece ser pequena, quase irrelevante, mas tem poderosas repercussões na vida adulta. As mensagens que o sistema educacional passam são que ser honesto é o mesmo que ser tolo, que a verdade e a franqueza é motivo de castigo, enquanto mentir e enganar só dão lucro.
Por outro lado, aquele que delata o colega que chegou tarde, que jogou o aviãozinho, que disse um palavrão, que não trouxe o livro, esse é cumprimentado e recompensado e é até colocado como exemplo diante dos demais. Dessa maneira, desestimulam-se valores como cooperação, lealdade, solidariedade. Não deixa de ser estimulante para o futuro delator, o futuro traidor, para aquele que sobe na vida à custa de subserviência e de mecanismo clientelares.
São bem vistas as crianças e os pais que não reclamam, não falam o que pensam, calam. São malvistos os que opinam, discordam, propõem, participam com iniciativas próprias. Assim se aprende que é melhor ser passivo, conformista, acrítico, indolente. Contudo, estamos formando um futuro hipócrita, o futuro dissimulado que, certamente, para se dar bem entrará para o rol dos corruptos, o gancho que precisa para a sua ascensão e seu bem estar pessoal. No entanto, é na escola que se forma esse cidadão.
Portanto a formação da cidadania se faz, antes de mais nada, pelo seu exercício. A escola possui condição especial para essa tarefa e o professor de filosofia tem um papel diferenciado por tratar de assuntos diretamente vinculados à realidade e seus problemas. Contudo, se a escola negar aos alunos a possibilidade de exercerem essa capacidade de exercitarem a arte do pensamento sistemático estará, ao contrário, ensinando a passividade, a indiferença, a obediência cega e formando corruptos. Somos o que pensamos, portanto, teremos sempre a chance de sermos melhores a partir de uma escola mais consciente do seu papel dentro sociedade.

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