20 de julho de 2017

PASSARINHO ENGAIOLADO

Este texto aborda o sentimento de liberdade do ser humano, contado pelo filósofo e educador Rubem Alves (1933-2014). Já nos parágrafos iniciais, ele destaca claramente o desejo de tranquilidade e segurança que nós humanos buscamos. Ele conta na sua estorinha, que vivia dentro de uma linda gaiola um passarinho. Sua vida era segura e tranquila, assim como são a vida das pessoas bem casadas e dos funcionários públicos. Era monótona, é verdade. Mas monotonia é o preço que se paga pela segurança. Não há muito que fazer dentro dos limites de uma gaiola, seja ela feita com arames de ferro ou de deveres. Os sonhos aparecem, mas logo morrem, por não haver espaço para baterem suas asas. Só fica um grande buraco na alma, que cada um enche como pode. Assim restava ao passarinho ficar pulando de um poleiro para outro, comer, beber, dormir e cantar. O seu canto era o preço que pagava ao seu dono pelo gozo da segurança da gaiola.

Ah! Se aquela maldita porta se abrisse. Pois não é que, para surpresa do passarinho, um dia o seu dono a esqueceu aberta. Ele poderia agora realizar todos os seus sonhos. Estava livre, livre, livre! Saiu. Voou para o galho mais próximo. Olhou para baixo. Puxa! Como era alto. Sentiu um pouco de tontura. Estava acostumado com o chão da gaiola bem pertinho. Teve medo de cair. Agachou-se no galho, para ter mais firmeza. Viu outra árvore mais distante. Teve vontade de ir até lá. Perguntou-se se suas asas aguentariam. Elas não estavam acostumadas. O melhor seria não abusar, logo no primeiro dia. Agarrou-se mais firmemente ainda. Neste momento um inseto passou voando bem na frente do seu bico. Chegara a hora. Esticou o pescoço o mais que pode, mas o inseto não era bobo. Sumiu mostrando a língua.

- Ei, você! – era uma passarinha – Vamos voar juntos até o quintal do vizinho. Há uma linda pimenteira, carregadinha de pimentas vermelhas. Deliciosas. Apenas é preciso prestar atenção no gato, que anda por lá... Só o nome gato lhe deu um arrepio. Disse para a passarinha que não gostava de pimentas. A passarinha procurou outro companheiro. Ele preferiu ficar com fome. Chegou o fim da tarde e, com ele a tristeza do crepúsculo. A noite se aproximava. Onde iria dormir? Lembrou-se do prego amigo, na parede da cozinha, onde sua gaiola ficava dependurada. Teve saudades dele. Teria de dormir num galho de árvore, sem proteção. Gatos sobem em árvores? Eles enxergam no escuro? E era preciso não esquecer os gambás. E tinha de pensar nos meninos com seus estilingues, no dia seguinte.

Tremeu de medo. Nunca imaginara que a liberdade fosse tão complicada. Somente podem gozar a liberdade àqueles que têm coragem. O passarinho não tinha. Teve saudades da gaiola. Voltou. Felizmente a porta ainda estava aberta. Neste momento chegou o dono. Vendo a porta aberta disse: - passarinho bobo. Não viu que a porta estava aberta. Deve estar meio cego. Pois passarinho de verdade não fica em gaiola. Gosta mesmo é de voar.

Portanto, essa tal segurança que temos em torno de nós, dentro das grades de nossa vida (casamento e família), realmente existe? Comumente, ouvimos falar de pessoas que morreram em casa praticamente sozinhas, sem nem mesmo saber por quê. O grande problema da sociedade atual é acreditar que a segurança existe para os que não saem de suas gaiolas. O ser humano deve entender que não se pode fazer o que o passarinho da estória do nosso saudoso mestre Rubem Alves, narra. Voltar para a gaiola achando que estará seguro. A segurança está em suas atitudes. Afinal, a vida é uma dádiva que devemos aproveitar. Devemos curtir cada minuto que temos. Devemos respirar o ar puro e sentir cada segundo a liberdade que realmente temos que é: fazer a nossa vida valer a pena! Porque, para morrer de verdade é uma vez só. Para viver de verdade se morre muitas vezes. 

14 de julho de 2017

CATIVAR É CRIAR LAÇOS

Afetividade vem de afetar alguém, porém, quem tem o dom do afeto, cativa e cria vínculo duradouro. Guimarães Rosa (1908-1967) diz que as pessoas não morrem, ficam encantadas. Nós humanos somos felizes por termos essa possibilidade de nos maravilharmos pelas pessoas e pelo criador. Muitas vezes, temos medo de uma relação mais profunda, por saber que tudo na vida é efêmero. Segundo o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), somos seres voltados para a morte, e essa certeza torna angustiante, os nossos projetos e relacionamentos. É difícil uma atitude de desapego. Para o outro filósofo alemão Schopenhauer (1788-1860), viver é sofrer. Posso afirmar essa premissa.

Entretanto, mesmo que não consideremos a presença de Deus, parto em busca de uma atitude que eternize os seres ao meu redor. No filme de Hal Ashby: “Ensina-me a Viver”, o rapaz de vinte anos apaixona-se por uma senhora de setenta e nove anos. Quando o jovem a presenteia com um colar de prata, ela fica vislumbrada com o presente, beija, aperta junto ao peito, beija de novo e depois lança ao rio. Sem entender, o jovem pergunta se ela não tinha gostado do presente. Ela diz que, ao contrário, gostou muito, mas se ficasse com ele guardado, com o tempo perderia. Agora daquele jeito nunca mais ficaria sem ele, pois sempre saberia que estava naquele rio.

Não precisamos explicar o que é uma rosa, ela simplesmente é. Assim acontece com o amor, não se explica ele é. Alguns filósofos tentam explicar o amor, outros se convenceram de que o amor se intui. Que o amor é a medida de todas as coisas. É bem na verdade, que o plano do sentimento não se contrapõe à realidade, não nos remete, necessariamente, ao mundo da lua. Mostra que, diferente dos outros animais, só a nós o criador deu o poder de amar. Para ilustrar trago a fábula do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), que no Pequeno Príncipe e a Raposa. Ele conta que quando apareceu à raposa, começa um diálogo com o principezinho:

Bom dia, disse a raposa. Bom dia, respondeu palidamente o principezinho que se voltou, mas não viu nada. Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira. Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita. Sou uma raposa. Então propôs o principezinho; vem brincar comigo, estou tão triste. Não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda. Ah! Desculpa, disse o principezinho. Após uma reflexão, perguntou: O que quer dizer cativar? É uma coisa muito esquecida, que significa criar laços, disse a raposa. Criar laços? Exatamente, tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Será para mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo.

Disse a raposa: minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas, se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música. E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram de coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo. Depois deste argumento, a raposa calou-se e considerou por algum momento o príncipe. Dizendo: por favor, cative-me! Bem quisera disse o príncipe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.

A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. E continua argumentando a raposa: os homens não têm tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me! E então conclui a raposa: os homens esqueceram o valor de um amigo, mas tu não o deves esquecer. E lembre-se: tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Portanto, com a minha experiência e a consciência que tenho da vida, hoje entendo que somos instantes e num instante não somos mais nada.

27 de junho de 2017

A OFENSA É UM FRACASSO PESSOAL

A quem pertence a nossa paz? De quem é a nossa tranquilidade de espírito? Se for nossa, quem pode tirar? Quem pode me ofender? Como se explica o ressentimento pelo qual algumas pessoas são afetadas? Uma verdade fundamental que ilumina a nossa vida e deixar os ressentimentos para trás, é exercitar o poder espiritual sobre nossa vida. Pois, ninguém tem esse poder de ofender o outro sem que o permita. A menos que passe uma procuração para ser ofendido e julgado. O que Jesus perguntou aos seus algoz: “Querem me condenar?” Ele percebeu o clima pesado. Não respondeu nada, passou no meio do povo e foi embora. Jesus não ficou pedindo: “Por favor me entenda, pelo amor de Deus não façam isso. Sou filho de Deus e vim para salvá-los”. Imagina que ele iria se humilhar a tanto. Tem pessoas que não adianta ficar pedindo compreensão. São portas fechadas e não estão preparadas para tamanha grandeza. São incapazes de gestos nobres, de generosidade. Gestos que se dispõe a sacrificar os próprios interesses em benefício do outro; magnanimidade. São bons para julgar e condenar, sem pensar no amanhã.  

O ensinamento budista tem um argumento muito interessante sobre a ofensa. Diz a filosofia budista que: “a ofensa é uma brasa que você atira na pessoa para queimá-la, como um fogo na mão que você quer queimar a pessoa o máximo possível, e talvez você consiga. Mas, em cem por cento dos casos, você queima a mão primeiro”. Quem ofende, revela insegurança e fraqueza de espírito. A questão é que sempre vamos encontrar alguém que aponte o dedo para nos execrar em nome da honra e da verdade. Que verdade? Quem pode dizer que conhece toda a verdade? Mas, tem pessoas que são convictas porque vivem de opiniões. Não adianta querer explicar, elas estão surdas e cegas. Só escutam a elas mesmas e muito mal. O próprio Jesus disse: “Pai perdoa, eles não sabem o que dizem, são ignorantes”. Geralmente, são pessoas amargas e mal resolvidas na sua subjetividade. Como dizia o saudoso Padre Léo: “Não adianta dar banho em porcos, o lugar deles é na lama”.

Entretanto, temos que pensar comparativamente, quem pode me ofender? Unicamente a quem eu der esse poder. Sendo assim, a ofensa torna-se um fracasso pessoal. Os Estoicos ensinam que não devemos se alterar diante das coisas que sejam desimportantes. Há poucas brigas muito importantes na nossa vida. Sendo a maioria por motivos fútil e banais. Contudo, existem pessoas rancorosas que nasceram para apontar os erros nos outros, e se esquecem dos próprios, os chamados falsos moralistas ressentidos. Alguns vivem dentro de igrejas e até praticam o ministério eucarístico cristão em suas comunidades. Não passa de uma representação social. Quando assumo o comando da minha vida, estou crescendo em Deus, de modo que a mentira é uma visão distorcida da realidade.

Portanto, todo ponto de vista é visto de um ponto. Somente vemos um pedaço da realidade e não a realidade toda. Se quer ser uma pessoa de coração bom, mergulhe no ágape da vida. Ninguém é bom o suficiente, enquanto não superar o mau que cresce dentro de si. Aquelas pessoas pequena por dentro é que se fazem fortes por fora, quando sabem que nos machucam. Quando começarmos a enxergar o nosso semelhante por um outro ângulo, começamos a enxergá-lo de um jeito novo e mais humano. Nesse momento recebemos uma graça linda de Deus, começamos a enxergar o outro com os olhos da esperança. Porque amar o outro é esperar em Deus.  

21 de junho de 2017

O HOMEM É PARA SARTRE O INFERNO DO OUTRO

Na peça escrita pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980): “Entre Quatro Paredes”, três personagens muito diferentes morrem e vão para o inferno. Lá não encontram o capeta, nem fogo, nem dor, nada do que imaginamos ou prega algumas religiões, ser um inferno. O castigo será a convivência entre eles, por toda a eternidade. Um detalhe interessante é saber que lá não existe espelho, dessa forma o outro será meu reflexo e minha identificação.

Quer situação mais infernal que esta? Pois tem! É saber que estamos nesse inferno, diariamente. Em nome da chamada relações humanas, abrimos mão de nossa verdadeira felicidade para viver em função de algo, e agimos por aparências. Muitas vezes, deixamos de fazer o que realmente nosso interior pede, por achar que vamos ferir convenções e costumes. Realmente, não machucamos os costumes, mas nos ferimos profundamente, principalmente por saber que aqueles que nos impõem seus olhares reprovadores também possuem as mesmas angústias existenciais que a nossa. Fui notando que, por não terem a liberdade e força para lutarem por suas felicidades, imputavam-nos o castigo de não sermos felizes, como deseja a nossa divindade.

Ao entregar nossa vida para que o outro nos comande, estamos nos coisificando, perdendo a razão do nosso existir. Esse sentimento de lutar por nossa liberdade, para que nossa vida tenha um sentido, sempre aparece quando morre alguma pessoa próxima, querida por nós. Sempre falamos que, a partir daquele instante, vamos viver de forma diferente, vamos fazer tudo o que for possível para ser feliz. Essa é uma postura existencialista. Para o existencialismo, não somos nada por definição, vamos nos fazendo na medida que vamos construindo no presente o que queremos para o nosso futuro. Dessa maneira nos diferenciamos das coisas, pois as coisas estão concebidas e nós, humanos, nos lançamos na caminhada do viver.

Entretanto, o grande mistério da vida é perceber que não existe um projeto de vida estabelecido para nós. Somos nós que criamos o existir. O que serviu para minha mãe ou para meus filhos, pode não servir para mim. A grande descoberta da vida é saber estar com quem a gente ama e que não somos robôs, fabricados em uma mesma forma, mas ao contrário somos criados para a liberdade que só o amor nos traz.

Portanto, a angústia surge quando esse sentimento de liberdade bate de frente com o outro que tenta nos formatar. Liberdade é escolha e amar é sentimento inato. Podemos fingir que aceitamos tudo pronto e assumir o papel que foi escrito para nós, ou tomar o comando de nossa existência e tentar escrever a nossa própria história. Um bom exemplo a ser seguido é o de Jesus, que não se deixava levar por aqueles que queriam lhe apedrejar e muito menos por aqueles que queriam coroá-lo. Na maioria das vezes a gente diz que ama, quem na verdade, a gente gosta. São duas coisas distintas. Gostar é querer estar junto, do latim = "gustare", sentir o sabor, provar, ou seja, fazer coisas juntos como: passear, dançar, estar numa roda de prosa ao lado de boas companhias. Ao contrário de amar. Amar é morrer pelo outro. Noventa por cento do mundo não sabe o que é amar e também não quer amar. Basta olhar para Jesus Cristo pregado na cruz, para entender o que é amar. Contudo, Sartre captou essa indiferença do ser humano pelo seu semelhante e construiu seu pensamento sobre o inferno criado pelo homem.  

17 de junho de 2017

O QUE UM PAI MAIS DESEJA?

Para ser um bom pai, o que é necessário? Ser pai é, antes de tudo, ser alguém aberto ao mundo da criança. Para ser pai é fundamental ter a consciência de que não é um super homem ou um semideus. O que um pais mais deseja é a felicidade dos filhos. Vê-los estudando, encaminhando-se para a vida profissional, de forma natural e serena. Para o filósofo Joseph Campbell, a maior autoridade no campo da mitologia, argumenta que nas epopeias, frequentemente, quando o herói nasce, o pai já morreu ou está em algum outro lugar, então o herói tem que partir à procura do pai. Pois ele precisa encontrar esse pai para resgatar sua identidade. Por conseguinte, no colégio que leciono filosofia no ensino fundamental II, juntamente com minhas colegas professoras, trouxemos os pais separados para dançar quadrilha com seus filhos. Todos estão levando a sério os preparativos para esta grande festa junina no colégio. Será um encontro de caráter familiar, onde o pai é o protagonista ao lado da filha amada.

Mas, em que momento da vida é formado o caráter de uma criança? Caráter é um termo usado na psicologia como sinônimo de personalidade. Caráter, em sua definição mais simples, resume-se em índole ou firmeza de vontade. É um tema básico na mitologia, o filho que sai a procura do pai através dos séculos, este por sua vez simboliza a lei, a censura, o responsável pela formação do caráter do filho. De modo que, na história de Jesus, o seu pai era o Pai do céu, que é um termo simbólico aceito pelos cristãos. Quando é colocado na cruz, Jesus está a caminho do Pai, deixando a mãe para trás. Para Campbell, a cruz que simboliza a terra é, na verdade, o símbolo da mãe. Assim, na cruz Jesus deixa o seu corpo sobre a mãe, de quem ele o havia herdado e, vai para o Pai, a suprema fonte transcendente do mistério. É no Pai que ele vai encontrar a sua verdadeira identidade.

Quem quer ser pai deveria, antes de ter filhos, olhar para o espelho e dizer: “não sou Deus, portanto, o que vier como filho não poderá ser alterado por mim, e terei não só de aceitar, mas também de amar”. Muitos pais não percebem que o filho é uma pessoa singular, que precisa seguir um caminho único, dele próprio. Ninguém quer um filho no caminho do crime ou das drogas, muito menos da prostituição. Até nessa situação extrema, uma boa parte dos pais aprende a amar os filhos. Uma boa parte dos pais percebe, às vezes tardiamente, que, na diferença dos filhos, eles são muito iguais aos pais.

Portanto, nasce aqui o amor de poder viver e passar pela experiência que só os vivos é dado a conhecer. Quando um filho sai para o mundo é algo de corajoso, pois o desconhecido se abre: “o que acontecerá comigo? Serei menosprezado? Terei dificuldades na escola e no emprego?” Sabe que poderá não suportar e em dado momento, terminar como outros colegas seus: no suicídio. O pai pode ser o primeiro a jamais deixar isso acontecer. O pai dá a vida por meio do espermatozoide; deveria mantê-la, nunca tirá-la. Contudo, conheci pais vindo da roça, completamente brutalizado pela vida e analfabeto, mas com muito orgulho dos seus filhos, mesmo aqueles filhos drogados, gays e prostitutas. Como conheci também pais escolarizados, colocando sob tortura, filhos com esses adjetivos. Enfim a figura do pai serve como modelo de comportamento para o menino e também permite que a menina conheça e compreenda o universo masculino. 

26 de maio de 2017

QUAL É O SEU DEUS?

Certa vez um jornalista ao entrevistar o filósofo e educador Rubem Alves, fez a seguinte pergunta: “Qual é o seu Deus?”. Eis que prontamente responde o filósofo Rubem Alves: “É o Deus de todos os poetas: a beleza”. Também comungo com esse pensamento. De modo que quando contemplo a beleza, ou quando ouço a beleza, estou em comunhão com o mistério da vida. Não gosto muito de usar a palavra Deus porque as pessoas vão identificá-lo como o Deus delas. Para mim a beleza está na natureza das coisas, isto é, a beleza é a face visível de Deus. E ela está estampada na natureza de tudo aquilo que apreciamos como Belo.

Penso que assim não precisamos fazer longas peregrinações para encontrar Deus. Como argumenta Rubem Alves, um tomate redondo, vermelho, um caqui maduro, as centenas ou milhares de minúsculos gominhos em uma laranja cortada, uma cebola, que o poeta e escritor Pablo Neruda chamava de “rosa de água”, com escamas de cristal. O reflexo do sol nas águas de um charco, tudo isso me deixa assombrado. Quando essas coisas acontece na minha vida fico agradecido por viver num mundo tão fantástico. Posso afirmar com segurança que o problema das pessoas beatas é que elas estão sempre olhando para baixo e para dentro de si mesma.

Acho que o inconsciente e a alma são a mesma coisa. Penso que a alma é o lugar onde vivem os sonhos. Dizia Shakespeare: “somos feitos de sonhos”. Não gosto daquelas perguntas boba que se faz por aí: “você aceita Jesus?” O que faz essas pessoas acreditar que nunca o aceitei? Talvez  o meu modo de ver Deus seja diferente das beatas. Mas é isso que somos, professor, médico, engenheiro, advogado, consultor imobiliário, etc. Somos o que fazemos com amor e profissionalismo. Somos os sonhos que sonhamos. Dostoievski disse que as pessoas não têm o menor interesse em Deus. O que elas querem é o milagre, um Deus máquina que faz o milagre de acordo com seus pedidos. Porém, um Deus que não faz milagre não lhes interessa. Elas pedem milagres porque estão cega para o milagre que é o universo, a terra, a nossa vida. O poeta e ensaísta americano Walt Whitlmann dizia que para ele, tudo era milagre, basta olhar para a natureza, é assombroso. Perdemos a capacidade de nos assombrar com o nosso mundo.  

Portanto, dizia o grande poeta brasileiro Vinicius de Moraes: “para isso fomos feitos, para lembrar e ser lembrados, para chorar e fazer chorar, para enterrar os nossos mortos. Por isso temos braços longos para os adeuses, mãos para colher o que foi dado e dedos para cavar a terra. Assim será a nossa vida: uma tarde sempre a esquecer, uma estrela a se apagar na treva, um caminho entre dois túmulos. Por isso precisamos velar, falar baixo, pisar leve, ver a noite sumir no silêncio”. Vale à pena ler esse Poema de Natal. Contudo trago mais uma vez Rubem Alves para encerrar nossa reflexão: “Sou um construtor de altares. Construo meus altares à beira de um abismo. Eu os construo com poesia e beleza. Os fogos que acendo sobre eles iluminam o meu rosto e aquecem o meu corpo. Mas o abismo continua escuro e silencioso”.  

13 de maio de 2017

UMA HISTÓRIA DE FÉ QUE MUDOU O MUNDO

Estamos no mês de maio, chamado popularmente pelos comerciantes como o mês das noivas. Mas não podemos esquecer que é também o mês de Maria, mês das mães. Isso porque no segundo domingo de maio comemoramos o dia das mães e no dia 13 de maio celebramos o dia de Nossa Senhora de Fátima. Tendo em vista, que no dia 5 de maio de 1917, durante a primeira guerra mundial, o papa Bento XV, convidou os católicos do mundo inteiro para se unirem em uma cruzada de orações para obter a paz com a intercessão de Nossa Senhora. Oito dias depois a Beatíssima Virgem dava aos homens a sua resposta, aparecendo a 13 de maio a três pastorinhos portugueses, Lúcia de 10 anos, Francisco de 9 e Jacinta de 7 anos.

Nossa Senhora de Fátima marcou com eles encontro para o dia 13 de todo mês, naquele mesmo lugar, por ser um lugar espaçoso e descampado denominado “Cova da Iria”. Lúcia, a maiorzinha, recomendou aos priminhos para não contarem nada em casa. Mas Jacinta não soube guardar o segredo e no dia 13 de junho, os três pastorinhos não estavam mais sozinhos no encontro. No dia 13 de julho Lúcia hesitou em ir ao encontro porque os pais a haviam maltratado, mas depois se deixou convencer por Jacinta e foi precisamente durante a terceira aparição que Nossa Senhora de Fátima prometeu um milagre para que o povo acreditasse na história das três crianças.

De modo que, a 13 de agosto os três videntes, fechados no cárcere, não puderam ir à Cova da Iria. Foi em 13 de outubro o último encontro, com mais de setenta mil pessoas lotando o lugar das aparições, tiveram a oportunidade de presenciar o maior fenômeno físico do mundo, desafiando todas as leis físicas da natureza. Num mesmo ambiente, três, ou no máximo quatro pessoas, por um contágio psíquico podem ter a mesma alucinação, podem ver o mesmo fenômeno, no caso em pauta, viram “o sol girar no céu”, como se estivesse para destacar-se do firmamento, crescendo entre as chamas multicores. É claro que o sol não girou, foi uma alucinação coletiva que a psicologia não explica. Diz que isso não acontece em circunstâncias normais. Todos verem o mesmo fenômeno! Por que o restante do mundo não viu? Mais de setenta mil pessoas viram o sol girar e isto só aconteceu naquele local. Por quê? Como se explica?

Segundo relato dos próprios pastorinhos, a visão era de uma “Senhora mais brilhante que o Sol”, e em suas mãos pendia um Rosário. Serena e tranquila disse às crianças: “Vim para pedir que venhais aqui seis meses seguidos, sempre no dia 13, a esta mesma hora, pontualmente ao meio-dia. Depois vos direi quem sou e o que quero. Em seguida, voltarei aqui ainda uma sétima vez”. E as aparições aconteceram sete meses seguintes conforme o prometido. Antes de ir embora, Nossa Senhora de Fátima ainda ressaltou: “Rezem o terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo, e o fim da guerra”.

Portanto, ao constatar-se o fato da segunda guerra mundial os cristãos lembraram-se da mensagem de Fátima. Em 1946, na presença do cardeal e no meio de uma multidão de oitocentos mil peregrinos, houve a coroação da estátua de Nossa Senhora de Fátima. E em 1951, o papa Pio XII estabeleceu que o encerramento do “ano santo” fosse celebrado no Santuário de Fátima. Ao celebrar 50 anos das aparições de Nossa Senhora, no dia 13 de maio de 1967 o papa Paulo VI chegou a Fátima, onde o aguardava, juntamente com um milhão de peregrinos, que haviam passado a noite ao relento com Lúcia, a vidente. Neste sábado dia 13 de maio de 2017 é o papa Francisco que chegará ao Santuário de Fátima para canonizar os irmãos Jacinta e Francisco Marto e participará do centenário das aparições da Virgem aos pastorinhos. Contudo, um dos milagres alegados para a canonização dos dois pastores aconteceu com um menino brasileiro. (História que vou contar em outra oportunidade)