28 de outubro de 2014

NA CAMA REPOUSA O AMOR

Na cama repousa o amor é uma metáfora, pois, quando encontro o outro, posso estar encontrando o meu oxigênio, se ambos estão encantados pode-se dizer que vai haver um banquete de amor. Naturalmente, vai acontecer um mergulho na essência da vida. Significa que encontramos nossa parte perdida. Para o dramaturgo grego, considerado o maior representante da comédia antiga, Aristófanes (447-386 a. C.), cada um de nós é um ser pela metade. De um passaram a ser dois, disso resulta à procura de todos pela sua metade complementar.

Um dos sentidos da vida, para Aristófanes é unir-se ao objeto amado e com ele fundir-se, para formarem um único ser. A razão disso é que, primitivamente, nossa natureza era assim, nós formávamos um todo homogêneo. A saudade desse todo e o empenho de restabelecê-lo é o que Aristófanes chama de amor.

Para ele, a nossa espécie só poderá ser feliz quando realizarmos plenamente a finalidade do amor e cada um de nós encontrarmos o seu verdadeiro amor, retornando, assim à sua verdadeira natureza.   Repousar é descansar na cama do deus Eros. O deus do amor. Afinal, qual o nosso conceito de amor? Para ilustrar, conto uma história de uma criança que não sabia o que era o amor.

Em uma sala de aula havia várias crianças. Quando uma delas perguntou à professora: - Professora, o que é o amor? A professora sentiu que a criança merecia uma resposta à altura da pergunta inteligente que a fizera. Como já estava na hora do recreio, pediu para que cada aluno desse uma volta pelo pátio da escola e que trouxesse o que mais despertasse nele o sentimento de amor.

As crianças saíram apressadas e, ao voltarem, a professora disse: - Quero que cada um mostre o que trouxe consigo. A primeira criança disse: - Eu trouxe esta flor, não é linda? A segunda criança falou: - Eu trouxe esta borboleta. Veja o colorido de suas asas, vou colocá-la em minha coleção. A terceira criança completou: - Eu trouxe este filhote de passarinho. Ele havia caído do ninho junto com outro irmão. Ele não é bonitinho? E assim as crianças foram se colocando.

Terminada a exposição, a professora notou que havia uma criança que tinha ficado quieta o tempo todo. Ela estava vermelha de vergonha, pois nada havia trazido. A professora se dirigiu a ela e perguntou: - Minha querida, por que você nada trouxe? E a criança, timidamente, respondeu: - Desculpe professora. Vi a flor e senti o seu perfume, pensei em arrancá-la, mas preferi deixá-la para que seu perfume exalasse por mais tempo no seu habitat. Vi a borboleta, leve, colorida! Ela parecia tão feliz que não tive coragem de aprisioná-la. Vi também o passarinho caído entre as folhas, mas ao subir na árvore notei o olhar triste de sua mãe e preferi devolvê-lo ao ninho. Portanto, professora, trago comigo o perfume da flor, a sensação de liberdade da borboleta e a gratidão que senti nos olhos da mãe do passarinho. Então, como posso mostrar o que trouxe? A professora agradeceu, pois, essa aluna foi à única criança que percebera que só podemos trazer o amor no coração.

Num dado momento da vida, vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco. Uma metade de alguém que será guiada por nós e o nosso coração passará a bater por conta desse outro coração. Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com certeza haverá instantes, milhares de instantes de alegria. Baterá descompassado muitas vezes e sabe por que? Faltará a metade dele que ainda não está junto de nós. Até que um dia, cansado de estar dividido ao meio, esse coração chamará a sua outra parte e alguém por vontade própria, sem que precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará a metade que faltava.

Na concepção dos gregos antigos, o amor não devia tornar-se prisioneiro do corpo, mas elevar-se gradativamente, até o cimo, onde ficam as essências absolutas: a verdade, o belo e o bem. Essa passagem do corpo ao espírito é a expressão da dialética ascendente de Platão. Na parte inferior havia o mundo das sombras, produtor de ilusões, e os objetos sensíveis. No outro extremo, o mundo inteligível. Todo processo de conhecimento dá-se em uma ascensão do mundo obscuro, das sombras, ao luminoso mundo das ideias. Para Platão, o amor é a busca da beleza, da elevação em todos os níveis, o que não exclui a dimensão do corpo. Amor é o nível ou grau de responsabilidade, utilidade e prazer com que lidamos com as pessoas que amamos.

Quando percebemos que o outro é um ser humano e não a personificação de nossas fantasias, nos ressentimos e reagimos como se tivesse ocorrido uma desgraça. Geralmente culpamos o outro. O que ninguém pensa é que somos nós que precisamos modificar nossas próprias atitudes. Mas sempre que encontramos alguém disposto, capaz de por fim ao nosso desamparo, viramos as costas, muitas vezes por medo, dúvidas ou por desconfiança. Criamos um escudo invisível, uma espécie de blindagem. Sempre que alguém se propõe, nos acovardamos, esperando que um dia o grande amor venha ao nosso encontro. Estamos todos mais ou menos envenenados. Temos medo da solidão, assim, como também temos medo da entrega. Afinal, o que buscamos nas relações afetivas? Parece que passamos a maior parte da vida adulta tentando recuperar algo que perdemos com o nascimento, em vez de irmos atrás da construção de nossa história que nem sequer começou. Todavia, quando estamos diante de alguém que nos desperta emoção, o coração acelera, penso estar aí à gênese do amor, somos tomados por uma ternura que nos convida para uma fusão. Começa brando, suave e macio e aos poucos vai contaminando todo o nosso ser, da cabeça aos pés.

O amor tem duas funções que quase se confundem, mas podemos descrevê-las como se realmente fossem duas. A primeira é levar-nos à descoberta de nós mesmos enquanto pessoas que somos e capazes de amar. A segunda é pôr-nos em contato com a divindade, a eternidade, o infinito ou o ilimitado. Isto só se dá entre duas pessoas que se proponham a viver um romance ou um caso amoroso.

O amor nos ensina que há infinito em nós, mas que não somos infinitos. Esse infinito faz parte da criatura humana, mas o meu eu não é infinito. O amor capaz de nos ensinar estas duas lições é certamente um amor abençoado. Quando este amor, além de sentimento e compreensão se faz também contato como: aconchego, trocas calorosas, muita carícia e contato físico, podemos dizer que temos aqui um amor perfeito. Talvez por isso o amor seja triste. Ele nos acena, ele nos afirma e ele nos ensina que não há limites para vivermos essa realização plena e integral.

Portanto, quero acordar ao lado da amada, com o lençol bagunçado, tomar o café na cama, as cortinas bem abertas. Quero abraço apertado, mordidinha na bochecha, beijo de língua demorado. Quero banco do passageiro ocupado, cinema à tarde, tempo para nós dois. Quero seu riso estampado, seu cheiro espalhado, nossa música na rádio. Quero pintar nossa casa da mesma cor do nosso laço, colar você no meu abraço, fazer amor. Quero sussurrar no teu ouvido, ouvir seu pior ruído, que você seja meu livro mais lido. Quero acima disso tudo, você numa sexta feira à tarde sem preocupação, nós a sós, dividindo nossas vidas em uma só cama. Só quero amar, não sei se quero acordar.

9 de outubro de 2014

DO BANQUETE A CAMA

No seu diálogo O Banquete, Platão define o amor como a junção de duas partes que se completam, constituindo um ser andrógino que, em seu caminhar giratório, perpetua a existência humana. Esse ser, que só existe no mundo das ideias platônico, confere à sua natureza e forma uma espécie peculiar de beleza. A beleza da completude, do todo indissociável, e não uma beleza que simplesmente imita a natureza. Assim, temos em Platão, uma concepção de belo que se afasta da interferência e da participação do juízo humano, ou seja, o homem tem uma atuação passiva no que concerne ao conceito de belo. Todavia, não está sob sua responsabilidade o julgamento do que é ou não é belo. No entanto, a dialética de Platão aponta para duas direção. O mundo das ideias, que habita num plano superior o do conhecimento, que é, ao mesmo tempo, absoluto e estático. Porém, na outra direção segue o mundo das coisas, dos humanos, o mundo sensível. Este mundo de aparência sensível é constituído pela imitação de um ideal concebido no mundo das ideias, portanto, num processo de cópia.

Todos nós teorizamos sobre a felicidade que o amor nos trará. A maioria faz da busca pelo amor a meta da sua vida. Mas o amor é um tema sobre o qual a filosofia não costuma falar muito. Um ou outro filósofo toca neste assunto. Como amor é uma das experiências da vida mais transformadoras e importantes, seria plausível imaginar que a filosofia fosse levar o amor muito mais a sério. Mas, de maneira geral, isso não acontece. Basicamente, o tema é deixado para os poetas, romancista e apresentadores de programas vespertinos de TV. Mas houve um filósofo que levou o amor a sério, e que o via como uma de nossas preocupações centrais. Que foi o filósofo alemão do século XIX Arthur Schopenhauer (1788-1860).

Entretanto, Schopenhauer foi um filósofo que parecia entender a intensidade do que sentimos quando nos apaixonamos. Ele achava que estávamos certos de viver em função do amor, e que não havia outra coisa mais importante. Nosso erro segundo ele é achar que a felicidade tem algo a ver com isso. Ele dizia que quando duas pessoas se casam, acabam fazendo de tudo para se detestar. Depois de alguns anos de idas e vindas, o relacionamento acaba. Para Schopenhauer o amor não é um assunto banal que não devemos vê-lo como um dos assuntos mais sério ou adulto. Não é por acaso que se trata de um sentimento tão avassalador, capaz de tomar conta de nossa vida e de todos os momentos de nosso dia. Ele diz que não devemos nos culpar tanto pelo estado de desespero e obsessão em que entramos se o amor fracassa. Ficar surpreso com a dor da rejeição é ignorar o quanto de entrega à aceitação exigiria.

Criamos histórias de amor para nós mesmo, imaginamos que nos apaixonaremos por um parceiro que nos fará felizes. Mas Schopenhauer via isso de maneira diferente. Para ele, nós nos submetemos a telefonemas ansiosos e jantares caríssimos, a luz de velas por uma única razão, que é nutrir o impulso biológico para perpetuar a espécie. Ele o chamava de “impulso de vida”. “Nada na vida é mais importante que o amor, porque o que está em jogo é a sobrevivência da espécie”. O amor é uma tática da natureza para nos levar a ter filhos. Por mais que gostemos de nos imaginar como seres românticos, somos todos, basicamente, escravos do impulso de vida.

O fundamental na tese de Schopenhauer é que o impulso de vida pode atuar de forma bastante inconsciente. Conscientemente, as pessoas podem querer ir a uma festa, mas inconscientemente o que as movem é a necessidade de se reproduzirem ou simplesmente de contato físico com alguém interessante. Ele precisa ser inconsciente para ser eficaz, porque ninguém assumiria conscientemente o fardo da perpetuação. No instante em que duas pessoas se sentem atraídas uma pela outra deve ser considerado o nascimento de um novo indivíduo ou um novo projeto de vida a dois. Sua tese explica a intensidade dessa atração.

Mas por que nos sentimos atraídos por uma determinada pessoa e não por outra? Um dos maiores mistérios do amor é por que a gente se apaixona? No entanto, inúmeras pessoas não provocam qualquer reação em nós, mesmo sendo, em tese, nossos pares ideais e contudo, acabamos nos apaixonando por outras com quem a convivência pode ser difícil. Mas, Schopenhauer tinha uma resposta convincente. Apaixonamos por uma pessoa quando sentimos inconscientemente que ela pode nos ajudar a produzir herdeiros saudáveis ou nos fazer felizes num novo projeto de vida. O amor é apenas nosso impulso de vida, descobrindo alguém que ele considere o ideal para cada um.

Todavia, apaixonar-se é inevitável, que a biologia é mais forte que a razão, pode ser. Sendo assim, não somos infelizes por mero acidente, essencialmente somos iguais a todos, porque temos as duas faculdades, espiritual e animal. Sentimo-nos impelidos a encontrar um parceiro, a gerar filhos e criá-los e somente uma força poderosa como o amor seria capaz de nos motivar para isso. Se acharmos que o relacionamento ou casamento não vai bem, podemos aprender com nossos amigos irracionais. Eles não fazem isso por felicidade, mas porque precisam, por causa do impulso da vida. A felicidade para nós é consequência desse amor que nos impulsiona. Talvez pela dimensão e a importância que o amor tem para nós racionais.

Schopenhauer tem mais uma ideia a respeito do amor que pode nos ajudar quando somos rejeitados, muitas vezes, não entendemos porque o parceiro quis romper e nos sentimos rejeitados. Ele diz que quem termina o namoro não está rejeitando o parceiro. Não sou eu que não mereço o amor, mas é o impulso de vida de minha parceira que considerou que ela poderá ter um relacionamento mais saudáveis com outro! É como se fala por aí, encontrei o parceiro ideal, mesmo que seja apenas por uma questão de equilíbrio ou de valores. O DNA de ambos poderá ser rejeitado no momento do encontro, pela própria força da natureza. Talvez você estivesse feliz com a pessoa que o rejeitou, mas a natureza não estava. Sendo assim, como pode continuar não estando satisfeito com esse novo relacionamento? Por isso, vai ter que aprender a se desapegar. Numa visão tradicional, dizemos que um casal será feliz para sempre. Num olhar mais realista e franco, veremos que estão condenados a discussões e ao divórcio precoce.

Portanto, considerar que a felicidade não está em questão e que a nossa sobrevivência não depende dessa felicidade é um ponto de vista. Não ficar deprimido é humanamente impossível, mas, nos libertar das expectativas que pode acabar gerando frustrações, isto sim é possível. Às vezes, os pensadores mais pessimistas, paradoxalmente, podem ser os que nos oferecem mais consolo. Não se ama alguém por razões lógicas, por ser moreno ou claro gordo ou magro. Simplesmente, e de uma forma espantosa, olha-se para uma pessoa e se tem certeza de que vai precisar da companhia dela. A sua presença mexe com a mente, com o coração e com a sexualidade de quem a olhou. Entra em ação uma energia misteriosa que vem de regiões profundas do nosso eu cósmico, que nós mesmos não a conhecemos. Quando se começa um relacionamento amoroso, experimenta-se certa sensação de medo e terror, como se forças desconhecidas e que escapam nosso controle nos ameaçassem. Contudo, fica patente como via de regras, que do banquete a cama está o impulso de vida, o combustível que nos mantem ativos e amorosos. São essas razões inconscientes e biológicas que ativa o Amor e que nos move na direção do outro.  

3 de outubro de 2014

O BANQUETE DO AMOR

O Banquete é um livro que discute o amor, através dos diálogos de Platão (427-347 a.C.) atribuído a ele mesmo e não a Sócrates, seu mestre. O pano de fundo são os sete discursos acerca do deus Eros, o deus do amor. Diz-se que depois de muitas festas, com bebidas em excesso, resolveram dar uma trégua à orgia e instituiu um encontro filosófico sobre o elogio ao deus Eros.

O Eros como um dos mais antigos deuses, que surgiram depois do caos da terra. Pelo fato de ser antigo, traz diversas fontes de bem, que é o amor de um amante. De tudo o que o ser humano pode ter, além dos vínculos de sangue, dignidade e riquezas, nada no mundo pode, como Eros, fazer nascer à beleza. É o Eros que insufla os homens a grandes brios. O amor passa a ser o amor por algo de que se carece, o que gera o desejo de se ter o que não se possui ou de permanecer possuindo o que já se tem. Isto também se aplica a outros bens.

O amor possibilita àqueles por quem é tocado a inspiração para a poesia, mesmo que antes este não seja afeito às musas. Esse jovem e feliz deus dá aos homens familiaridade com tudo quanto lhes seja próximo. É a nossa busca pela outra metade complementar o que se denomina amor e uma vez encontrada, levaria aos amantes reconstituídos em sua quase inteireza a um estado de extraordinária afeição, intimidade e felicidade. Buscamos por meio do amor a unidade perdida, a totalidade que se rompeu com a separação. O que fazemos, no momento da sedução, senão buscar no outro a nossa identidade?  

Por sua origem bela, o amor seria responsável pelo direcionamento dos homens ao que seja belo, podendo então gerar belas obras, afastar-se do que seja feio e inclinar-se à honra. O amor é um dom que emana naturalmente dos amantes, capacitando-os aos maiores sacrifícios (mesmo capitais) por seus amados. Esses sacrifícios poderiam ser recompensados até com a ressureição do reino de Hades. Que é o deus do mundo inferior e dos mortos.

O amor não é um só, mas dois, tal como há duas pessoas envolvidas. Desse modo, é belo o amor que se direciona ao belo e leva ao amante a amar belamente. Característica do amor celestial.  O amor popular é próprio aos homens vulgares, uma vez que amam mais ao corpo, que é perecível e mutável do que a alma que é eterna.

O amor celestial ama somente ao macho, por sua força (quando jovem) e por sua inteligência (quando velho); ao passo que o amor popular ama a objetos perecíveis, tais como a beleza do corpo, ou o prestígio e fortuna do amado. O amor regrado pela decência, que é o amor celestial, gera a produção de virtudes para os amantes, aliada a uma disciplina que os torna mais sábios.

O amor é algo desejado, mas este objeto do amor só pode ser desejado quando lhe falta e não quando possui, pois ninguém deseja aquilo de que não precisa mais. Segundo Platão, o que se ama é somente "aquilo" que não se tem. E se alguém ama a si mesmo, ama o que não é. O "objeto" do amor sempre está ausente, mas sempre é solicitado. A verdade é algo que está sempre mais além, sempre que pensamos tê-la atingido, ela se escapa entre os dedos.

Portanto, podemos afirmar que o amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte. Só os que amam sabem morrer um pelo outro.

(é uma trilogia: "O Banquete do Amor" - "Do Banquete a Cama" - "Na Cama Repousa o Amor")

27 de julho de 2014

É POSSÍVEL AMAR INCONDICIONALMENTE?

Invariavelmente, as juras de amor são acompanhadas do desejo e da exigência de ser amado. O amor pressupõe reciprocidade. O amor exige amar e cuidar recíproco. Claro, há o amor não correspondido, mas ainda que sobreviva à ausência do ser amado, mesmo que seja chamado de amor, o nome mais propício é sofrimento. Na paixão, de fato, também há sempre um sofrer. Como afirma meu amigo o Professor Antônio Ozaí da Silva da Universidade Estadual de Maringá: posso continuar a amar, e neste sentido é incondicional. Mas a recusa do amor ou a impossibilidade de realizar-se o transforma em sofrer, angústia e dor. Pois o amor exige materializar-se reciprocamente.

Por outro lado, o amor condicional é possessivo. É típico daquele amor que quer sempre mais, aspirar a uma fusão total que lhe escapa. Esse amor caminha mergulhado no egoísmo, impulsionado pelo o ciúme, o desejo de exclusividade. O ciúme pede, como o antigo Deus de Israel: não terás outro Deus além de mim. O sentimento exacerbado de posse desconfia de tudo, é fruto da insegurança. Daí a necessidade de controle. Como argumenta Ozaí: há amores possessivos, amores angustiados, que se reduz quase que exclusivamente ao controle físico e mental do outro. Há amores-ódio, amores-poder em que o amante é o carcereiro do amado, preocupado apenas com que ele possa evadir-se da prisão. O carcereiro teme os amigos porque estes são janelas por onde o prisioneiro vê a liberdade, e por onde pode escapar. Começa, então, uma sutil luta contra a amizade. O amor-paixão é êxtase, mas também pode ser cárcere. O amor condicional requer algum tipo de troca, é finito. O amor é dado apenas com base em determinadas condições satisfeitas pelo parceiro, ao contrário do amor incondicional. Que ama simplesmente sem nada esperar em troca.

Entretanto, no relacionamento entre um casal, quem tem amor incondicional ama sem ter razões ou pré-requisitos. Dedica-se totalmente à relação, transformando o amor em uma ação praticada a todo instante, de variadas formas. O conceito é semelhante ao amor verdadeiro. Cuide para que não queiras receber mais do que tens a oferecer, por que há coisas que exigem extrema reciprocidade para que sejam possíveis. Pauta esse sentimento na confiança e no respeito.

Para que um litro de água preencha um vaso, é preciso que este vaso tenha espaço para aquele um litro de água, pois se ele não tiver espaço suficiente, ele transbordará e a água sofrerá. De modo semelhante, a água precisa estar na medida certa que o vaso comporta, ou deixará espaço vazio, e aí será o vaso que sofrerá. Com nosso próximo é preciso proceder da mesma forma; se quer viver um imenso amor, é preciso que cultives um espaço imenso em teu coração. E, se mais que isso, deseja um amor incondicional, o teu amor precisa ser incondicional primeiro – sempre, e sobre todas as coisas, ou ele deixará de ser incondicional.

Portanto, o amor verdadeiro, maduro, é livre, é incondicional, sabe ceder e perder com serenidade para o bem da pessoa amada; sabe viver quando tem o bem e também quando não tem; sabe dialogar e chegar a conclusões maduras e sensatas. O amor não nasce pronto, de uma vez, tem que haver vibração tem que ser harmônico. Amar é comprometer-se, como um amigo, companheiro, nas horas felizes e tristes, é ser honesto, sincero, confiante, verdadeiro em palavras e atitudes. O amor é como uma rosa, mas para que essa rosa exista, é preciso que existam também espinhos. Mas mesmo assim, o amor ainda é a maior força que existe em nós, é só o amor que nos transforma que nos amadurece. Se não aceitarmos de coração aberto à dinâmica transformadora do amor, estaremos definitivamente negando a crescer e permanecer sempre infantil. Hoje posso dizer: o que eu sou é o que me faz viver.

26 de julho de 2014

DEUSAS DO AMOR INCONDICIONAL

Amor incondicional significa amor pleno, completo, absoluto, que não impõe condições ou limites para se amar. Quem ama de forma incondicional não espera nada em troca. O amor está em primeiro lugar. O amor incondicional é generoso, altruísta e infinito. É o típico “amor de mãe”, que é dado livremente, independente do que recebe de volta.

Quero apresentar nesta reflexão duas grandes mulheres que deram plena demonstração de amor incondicional pelos seus filhos. Começo pela minha mãe que escolheu ter um filho adotivo. Talvez seja esse o maior exemplo de amor incondicional por um filho que não carrega seu DNA. Sou filho do coração e fruto da compaixão dela. Tive o privilégio de conviver com essa mulher durante cinquenta e nove anos de minha vida. Dona Lazinha como era conhecida em Rubião Junior, distrito de Botucatu interior de São Paulo. Hoje existe neste lugarejo, uma rua que leva o seu nome.

Ser mãe é assumir de Deus o dom da criação, da doação e do amor incondicional. Ser mãe é encarnar a divindade na terra. Amar alguém incondicionalmente é não nos preocuparmos com o que essa pessoa é ou faz. O amor de mãe por seu filho é diferente de qualquer outra coisa no mundo. Ele não obedece às leis do homem, ele ousa todas as coisas e extermina sem remorso tudo o que ficar em seu caminho. A mãe compreende até o que os filhos não dizem.

A segunda mulher que tive o prazer de conhecer, a qual admiro muito, teve dez filhos e os amavam com toda a sua força, tinha o mesmo cuidado de uma leoa por sua cria. Dona Leonor Galhardi, uma mulher sofrida que educou basicamente sozinha seus dez filhos. Hoje todos adultos e bem sucedidos nas suas profissões. Alguns próximos e outros distantes. No entanto, a sua preocupação e seu amor incondicional continua com os netos e bis netos. São duas grandes mulheres, uma não está mais entre nós e a outra permanece firme e muito viva, com a mesma doçura de mãe zelosa, por isso a vejo como uma dádiva da vida. No meu coração mora essas duas divindades que aprendi amar.  

Tudo é incerto neste mundo hediondo, mas não o amor dessas duas mães. Aprendi com elas que mãe é amor sincero sem exagero. Maior que o teu amor, só o amor de Deus. Aprendi que é uma árvore fecunda, que germina um novo ser. Teus filhos, mais que frutos, são extensões de sua vida. Aprendi com elas que são capazes de doar a própria vida para salva-los. E muito desses filhos não dão valor. Quando crescem, esquecem que tiveram uma mãe. São poucos, os filhos que reconhecem. Mas, Deus nunca lhe esquecerá. E abençoará tudo que fizerdes aos seus filhos. Peço ao Pai Criador que abençoe todas as mães conscientes do seu dom de trazer ao mundo vidas.

Entretanto, um filho precisa ver o risco que é ser mãe. Tudo é cirurgia, mas ela aceita com alegria. O filho que vai nascer. Obrigado é muito pouco, presente não é tudo. Mas, o reconhecimento, isso sim, é pra sempre. Meus sinceros agradecimentos por este momento. Maio, mês referente às mães, embora seja bom lembrar. Dia das mães, que alegria é todo dia. Dona Lazinha que hoje mora no céu e Dona Leonor que mora na terra. Entre o céu e a terra está o nosso coração, que habita essas duas deusas do amor incondicional.         

Portanto, para os cristãos, Deus teve um amor incondicional pela humanidade quando entregou Jesus Cristo, o seu único filho, para ser sacrificado. Deus ama de forma incondicional porque ama a todos. De acordo com a passagem da Bíblia em 1 Coríntios 13:4-7, "o amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. 

21 de julho de 2014

VERDADES SÃO DESNECESSÁRIAS?

Este é o tema que não quer calar e pode gerar muitas e muitas discussões. Mentir é o oposto da verdade. Mentir geralmente envolve dizer uma falsidade a alguém que tem o direito de saber a verdade, e fazer isso com a intenção de enganar ou prejudicar a este ou a outro.  Já o omitir é esconder fatos ou coisas que aconteceram ou estão acontecendo. Quantas vezes precisamos mentir ou omitir algo nas nossas relações, desde aquele telefonema da colega da faculdade ou o e-mail do colega de trabalho, marcando um chopps à noite. Omissões e mentiras acompanham a vida de muitos casais, pessoas que mentem não querem ser julgadas pelo mau caráter, mas muitas vezes por salvar uma relação de amor.

Saiba o que terá de enfrentar ao escolher entre contar tudo sobre um deslize, mentir ou omitir. Quando uma verdade a seu respeito parece dolorida demais para o seu parceiro, você pode seguir por três caminhos: feri-lo, mas contar tudo o que aconteceu ou omitir algo para o impacto ser menor ou até mentir para poupá-lo – e poupar-se. Para ajudar a escolher a melhor trilha, Rosana Braga, autora do livro Faça o Amor Valer a Pena (Ed. Gente) e a psicóloga Olga Tessari, autora do livro Dirija a Sua Vida sem Medo (Ed Letras Jurídicas), ambas de São Paulo. Eis o que elas aconselham: Tá na berlinda? Se você fez algo condenável ou polêmico e ainda não sabe como contar, restam-lhe três alternativas – e suas prováveis consequências:

1) Mentira: Se a relação é legal, isso não será preciso. "A mentira está ligada à baixa autoestima", diz Olga Tessari, salientando que uma história mal contada sempre leva à outra e à outra. Consequência: "Não existe mentira perfeita", assinala a especialista. E também não há regras para a reação do parceiro, que pode ir do perdão irrestrito ao rompimento. "Isso vai depender da importância da pessoa na vida do outro".

2) Omissão: Rosana Braga é taxativa. Segundo ela, alguns fatos não acrescentam nada à relação, especialmente os que só machucam sem contribuir para a evolução da parceria. Consequência: Se o namorado descobrir a omissão, ele pode se sentir traído. Mas, nesse caso, como não foi criada nenhuma história, será mais fácil explicar.

3) Verdade: A verdade é sempre melhor, diz Olga Tessari. Rosana alerta: "Só tome cuidado para não achar que deve contar absolutamente tudo e perder a individualidade na relação." Consequência: Depende de cada um e do estágio da relação do casal, mas pode ir desde o fortalecimento da relação até o fim da história entre os dois.

Portanto, a maior consequência da mentira ou omissão, vem do ciúme dos parceiros. O ciúme é uma emoção agressiva e não amorosa. O ciúme é o pior sentimento humano, porque ele impede a generalização do amor. A vítima do ciumento fica permanentemente prevenida e desconfiada, isto é, significa que uma parede se estabeleceu entre ambos. Começa a se reduzir toda possibilidade de intimidade, de confiança e de entrega. Contudo, se alguém disser que seu ciúme é sinal de amor, fuja desse amor, porque ele vai te consumir. Contudo, hoje compreendo que poetas são todos aqueles que amam e sentem as grandes verdades e as dizem: a grande verdade das verdades é o amor

20 de julho de 2014

AMOR O AVESSO DA VIDA

Algum tempo venho pensado muito sobre o que é viver e se o amor tem alguma relação com a vida. Depois de viver muito e experimentar no corpo e na alma esse sentimento, cheguei a seguinte conclusão: A vida explora e o amor é explorado. São antagônicos, incompatíveis, mortais inimigos. No dia e na hora em que isto compreender, melancolia profunda te envolverá a alma e angústia imensa te invadirá o coração. Procurarás fugir deste mundo imperfeito e paradoxal, porque não podes amar sem viver, nem queres viver sem amar.

Entretanto, viver é lutar e amar é ser imolado. Para conquistar o espaço vital, é necessário matar o vizinho e para amar é necessário deixar-se matar. Nós temos uma lei e segundo a lei ele deve morrer! Crucifica o Cristo e solta o ladrão Barrabás! Crucifica o amor e põe em liberdade o explorador.

A vida é violenta, cruel, sem coração; afirma-se à custa da força, da violência física e moral o crepitarem da metralhadora ao furor mortífero das palavras afiadas e cortante, que detona o espírito mais generoso e benevolente. A luta pela existência elimina impiedosamente o que é fraco e conserva o que é forte, sendo que o mundo material possa envolver-se conservando os mais fortes.

O amor ampara o que é frágil, abraça o que é imperfeito, acolhe o serzinho enjeitado, agasalha o órfão anônimo, enxuga as lágrimas da viúva, pensa as chagas do leproso, oscula os farrapos do mendigo, volta às costas ao que é forte e feliz e busca sempre o que é fraco e infeliz. O amor é o avesso da vida. É a face noturna dessa vida que folga aos fulgores da zona diurna. É a fuga do zênite e a demanda do nadir da existência humana.

A vida mata para não morrer. O amor se deixa matar para que o outro possa viver. O amor cede ao outro o seu lugar ao sol e submerge nas sombras dele mesmo. Só pode ter amor o homem que se libertou da escravidão da matéria. Independência ou morte! Ou proclamar a soberania do espírito sobre a brutalidade da matéria ou então o amor assassinado pelo egoísmo da vida. O amor é a mais poderosa afirmação do espírito. É uma antecipação da suposta vida eterna, onde será absoluto o domínio do espírito.

Portanto, quando terminar esta vida mortal, sucederá à atual desarmonia para reinar a mais perfeita harmonia entre o amor e a vida que já não existe mais. Mas, ficará na lembrança a memória do amor que desafiou a vida. Não haverá mais explorador e nem explorado. Celebrarão o amor e a vida um tratado de paz e cantarão a sinfonia da grande e imperturbável felicidade. Se a vida for eterna. O amor será imortal.

A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele m...