8 de março de 2016

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Tudo começou no dia 8 de março de 1857 quando um grupo de mulheres entrou em greve numa fabrica têxtil em Nova Yorque. Ocuparam a fabrica para reivindicar a redução de 16 horas de trabalho por dia, para uma jornada de 10 horas. Estas operárias guerreiras, que recebiam menos de um terço de salário dos homens pelas 16 horas trabalhadas. Mas, infelizmente a manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fabrica que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente covarde e desumano. No ano de 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o dia 8 de março passaria a ser o “dia internacional da mulher”, em homenagem as mulheres que morreram na fabrica em 1857.

Tal situação contra a mulher não parou por aí. Convém recordar, que foi em 1862 durante as eleições municipais que as mulheres puderam votar pela primeira vez na Suécia. A partir de 1871 a Princesa Isabel, foi a ultima princesa imperial do Brasil e regente do Império por três ocasiões. Conhecida por acabar com a escravidão no Brasil. Em 1925 Margaret Thatcher, a dama de ferro, foi à primeira mulher a dirigir uma democracia moderna, eleita primeira ministra do Reino Unido. Em 1951 foi aprovado pela Organização Internacional do Trabalho a “igualdade” de remuneração entre trabalho masculino e feminino. Em 1975 através de um decreto, a data do dia 8 de março, foi oficializada pela ONU (Organização das Nações Unidas). Outra grande mulher brasileira, a biofarmacêutica Maria da Penha (1945), que lutou para que seu agressor viesse a ser condenado. Hoje ela é líder de movimentos de defesa dos direitos da mulher, em sua homenagem foi criada a “Lei Maria da Penha”. Em 2010 Dilma Rousseff é eleita a primeira Presidente mulher do Brasil. As mulheres vêm conquistando o mundo, através de protestos. Depois de tanta exploração estão dando a volta por cima. Estão mostrando que são fortes o suficiente para enfrentar o mundo.

Entretanto, com a segunda Guerra Mundial (1939-1945), o parque industrial foi atingido e a mulher entrou definitivamente para o mercado de trabalho. Teve acesso a esta fonte de poder e possibilidade da sua emancipação. Deve-se dizer que durante séculos, a mulher foi privada do orgasmo por ele não estar vinculado à procriação. Só mais tarde o orgasmo feminino passou a ser admitido como fonte de prazer. A mulher que atingia o orgasmo sem o amor correspondente por um homem, era vista como prostituta ou ninfomaníaca, era tratada como uma mulher ordinária. Muitas mulheres ainda hoje acreditam que compete aos homens orientá-las com relação à sua iniciação sexual e se frustram quando percebem que os homens pouco ou quase nada sabem a respeito do corpo feminino ou de como conseguir levá-la até a uma situação de excitação e orgasmo. Mesmo a descoberta da sexualidade através da masturbação é frustrante, limitada, tênue, empobrecida, rápida e carregada de ansiedade para a mulher.

Por outro lado, a mulher também está se tornando livre do ponto de vista profissional. Uma mulher moderna, razoavelmente bem sucedida na vida, independente, bonito e inteligente, de certo modo assusta os homens. Porque a maioria deles não tem tanta competência assim e nem maturidade para tanto. O machão latino, não tem coragem de se propor ou de casar com mulher que ele sente que é superiora. Ainda hoje conheço mulheres com grande potencial intelectual que casaram, não digo com homens incompetentes, mas, homens mais comuns com pouca formação escolar e muito autoritários. Elas submeteram-se inteiramente para que eles não sentissem feridos no seu amor próprio. Talvez esteja aqui, o começo de todas as loucuras humanas e preconceitos, que ainda hoje em pleno século vinte um atenta contra a mulher. Deixar de ser ela mesma, para ser o que o outro quer, é viver uma vida de obrigação e culpa. Vida de obrigação causa doenças psicossomáticas. Vale lembrar, que viver com medo é viver pela metade.

A mulher é um efeito deslumbrante da natureza. Deus fez a mulher em tudo encantadora e linda, como a mais consciente obra prima da natureza. Admiro a mulher, mas, o que mais fascina é sua garra e coragem diante de tantas discriminações que sofreu e ainda sofre. Tendo em vista, que o primeiro sinal de vida humana brotou do ventre de uma mulher, suas primeiras palavras foram transformadas em gestos de amor. Seus lábios nos tocaram, como um afago inundado de carícias e acolhimento. Nossa primeira lágrima logo foi extinta por ela, juntamente com o nosso suspiro, frequentemente exalados no ouvido da mulher mãe. Porque o nascimento não é somente um ato, e sim um processo, que a mulher mãe acolhe em seu coração para sempre.

Portanto, a mulher é por natureza consagrada a “deusa do amor”, pelo encanto e a beleza dos gestos que traduz sua sensibilidade sedutora. Essa mulher que sorri sofrendo e carrega em seu ventre o fruto do amor. Seus olhos brilham mais que o sol nascente. Não sei se há palavras suficientes para descrever a importância da mulher, essa figura tão nobre que a natureza a sofisticou. O que seria de nós homens e do mundo sem a mulher? O sol de saudade morreria e a lua de tristeza haveria de se esconder. O planeta não sobreviveria. Pela mulher qualquer homem consciente, daria sua vida, lutaria bravamente até a morte. A mulher é emoção incontida, disposta a todo o momento entregar seu coração palpitante e sua alma generosa. Vale lembrar, que todo homem tem uma mulher especial em sua vida. Olhando para essa mulher, singela e pura paixão, às vezes com lágrimas deslizando em seu rosto, seria de bom tom, que todos os homens escutassem seus corações falando baixinho, “estou feliz por você existir”. E no mesmo tom agradecesse a Deus por nos dar esse presente. Pois, é através da mulher que chegamos ao mundo. Foi por causa dessa combinação de genes, que estou aqui escrevendo, para você mulher, menina dos meus olhos.

Parabéns a todas as mulheres de todas as idades, de todos os credos, raça ou cor, vocês merecem todo o nosso respeito, falo na qualidade de homem, como um representante da categoria masculina. Em particular dedico esta reflexão a quatro mulheres especiais, que detém da cópia original do meu coração. Com elas aprendo sempre as coisas do coração e da alma feminina: Maria Eduarda, Danielle Morais, Vera Galhardi e Lazinha (esta ultima – in memóriam). 

5 de março de 2016

DESEJO DE AMAR JUNTOS

Abro o mês de março citando três datas especiais, que para mim denota amor, poesia e inspiração. Sendo a primeira o “dia internacional da mulher”, depois o aniversário “in memoriam” da mulher que me deu o direito e a dignidade a vida, que havia sido negado quando nasci por ignorância e hipocrisia de falsos moralistas. Não se abandona uma criança recém-nascida em nome dos costumes sociais que tanto endeusamos. E a terceira data, coincidentemente cairá no dia da Páscoa, onde pretendo prestar uma homenagem a essa pessoa especial, que me ensinou o verdadeiro sentido do caminhar e amar juntos. Com ela aprendi que não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho. Sendo assim, para dar uma conotação mais poética a esta reflexão, reporto-me ao poeta e dramaturgo francês Victor Hugo (1802-1885), que é referência bibliográfica de pesquisa no meu projeto na Unicamp, que tem como tema: “poesia e literatura na educação”.   

Para melhor compreender essa relação que envolve desejo, sedução e amor, tanto no homem como na mulher. Porém, teoricamente seria simples de explicar, mas, na vivência só os poetas são capazes de revelar aquilo que todos nós sabemos sentir, mas, quase nunca sabemos expressar. Por que será que o olhar da sedução é tão fascinante a ponto de despertar inesperadamente o desabrochar da paixão? Aqui está um enigma para os amantes pensar. No amor, ninguém pode dizer que foi, pois, quando se ama verdadeiramente, quem foi sempre será. Cito novamente o poeta francês Victor Hugo, quem melhor traduziu na integra esse sentimento do qual degusto como um bom vinho, pois, a essa altura da vida já estou embriagado ao ponto de parafrasear o poeta:

Desejo primeiro que você ame e que amando, também seja amado. E que se não for, seja breve em esquecer. E que esquecendo, não guarde mágoa. Desejo, pois, que não seja assim. Mas se for, saiba ser sem se desesperar. Desejo também que tenha amigos. Que mesmo maus e inconsequentes, sejam corajosos e fiéis. E que pelo menos em um deles você possa confiar sem duvidar. E porque a vida é assim. Desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos, nem poucos. Mas, na medida exata para que algumas vezes você se interpele a respeito de suas próprias certezas. E que entre eles haja pelo menos um que seja justo. Desejo depois, que você seja útil, mas não insubstituível. E que nos maus momentos quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente, para manter você de pé. Desejo ainda que você seja tolerante. Não com os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com os que erram muito e irremediavelmente. E que fazendo bom uso dessa tolerância você sirva de exemplo aos outros. Desejo que você, sendo jovem, não amadureça depressa demais. E que sendo maduro não insista em rejuvenescer. E que sendo velho, não se dedique ao desespero, porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor. Desejo, por sinal, que você seja triste, não o ano todo, mas apenas um dia e que nesse dia descubra que o riso diário é bom. O riso habitual é insosso e o riso constante é insano. Desejo que você descubra, com o máximo de urgência, acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos, injustiçados e infelizes. E que estão bem à sua volta. Desejo ainda que você afague um gato, alimente um cuco e ouça o joão-de-barro erguer triunfante o seu canto matinal porque assim, você se sentirá bem por nada. Desejo também que você plante uma semente, por menor que seja e acompanhe o seu crescimento, para que você saiba de quantas muitas vidas são feitas uma árvore. Desejo, igualmente, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano coloque um pouco dele na sua frente e diga: “isso é meu”. Só para que fique bem claro quem é o dono de quem. Desejo também que nenhum de seus afetos morra por eles e por você, mas, que se morrer você possa chorar sem se lamentar e sofrer sem se culpar. Desejo por fim que você sendo homem, tenha uma boa mulher e que sendo mulher, tenha um bom homem. Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes e quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda haja amor pra recomeçar. E se tudo isso acontecer, não tenho mais nada a lhe desejar.”

Portanto, o sol está dentro de cada um de nós. Sorrir para a vida é acreditar em si e poder dizer que bom estar aqui, que bom estar vivo, que bom ser eu. Esse é o caminho para alcançar a luz e o brilho que irradia da própria existência e acalentar a crença em nós mesmos. Acreditamos no próprio sol, ele mora no “Eu cósmico” que ilumina tudo e a todos. Contudo, existe uma coisa maior que o mar, que é o céu. Existe um espetáculo maior que o céu, que é o interior de uma alma.  

2 de março de 2016

EDUCAÇÃO DEFORMADA AMOR SUBLIMADO

Nossa educação é feita para quebrar qualquer personalidade, menos para educar. No entanto, repetimos a educação que recebemos, na certeza de que estamos dando o melhor de nós aos nossos filhos. Continuamos perpetuando os mesmos erros e nada mais. Podemos citar como exemplos, pessoas que surgem e brilham intensamente em nossas vidas e passam rápido, deixando marcas profundas em nosso ser. Uns se instalam em nossos corações de forma que jamais os esquecemos. Outros caminham conosco, dividindo momentos de alegria e tristeza, outros ainda partem e nunca mais os encontramos. Entretanto, em todos os encontros nenhum ocorre por simples e mero acaso, de modo que cada pessoa deixa sua marca registrada em nossa memória, no mural do espaço sagrado da saudade. A questão é que não sabemos compartilhar esses nobres sentimentos. Gostamos de receber, mas, não aprendemos a cultivar. A única maneira de se ter um amigo é ser um.

A vida é um grande mistério, uma aventura extraordinária. Tendo em vista, que nada acontece por acaso e todos os encontros deixam registros em nossa memória, se houve algum encontro íntimo e de boa qualidade esse registro fica no DNA. Como um carimbo, difícil de ser apagado. Porém, o que torna realmente a vida bela e faz tudo valer a pena, resume-se em uma simples palavra que poucos compreendem o seu significado: “amor”. Todavia, confundimos amor com sentimento de posse, apego e paixão, mas, ainda estamos distante do real significado desse sentimento sublimado. Nesse sentido, o amor verdadeiro é sublime, nada exige em troca, nada espera, não condena e é capaz de renúncias grandiosas. Afinal, o que leva uma pessoa a ser egoísta? Por que da dificuldade em dar e receber amor? Por que desconfiamos e duvidamos do amor? Nossa natureza reclama a falta desse contato interpessoal e essencial para nossa sobrevivência.  

Entretanto, esses conflitos afetivos que trazemos não os herdaram por acaso. Nessas condições, todos os fatores educativos têm sua origem na tera idade, ou seja, na infância. Criar circunstâncias favoráveis ao desenvolvimento em família não é uma questão simples, diante da educação deformada que herdamos. Pais que tem autoridade frente à família, não precisa fazer valer a sua dignidade, pois é capaz de tolerar opiniões contrárias à sua, permite que os membros da prole expressem uma vontade própria, colocando-o após isso, em discussão autêntica e racional a questão em pauta. Parafraseando o psiquiatra e educador Içame Tiba (1942-2015): “Quem ama educa com limite. Quem cria da tudo sem limite”. Aquele que tem autoridade não precisa parecer diante do outro como um Deus, infalível, mas pode se apresentar como adulto passivo de erros. Não precisa apelar para a punição ou ofensas para mostrar que está certo ou que tem autoridade. Obediência fundamentada no medo não tem duração.

Todavia, há uma gama imensa de possibilidades de erros na educação de criança que podem ser cometido pelos pais e educadores. Em muitos casos pode haver uma relação bastante estreita de amor entre pais e filhos. Mas como os pais também tiveram uma educação inadequada e, muitas vezes, são ignorantes, os filhos naturalmente, sofrerão as consequências nas futuras relações. Os estudos vêm mostrando nos últimos anos o aumento de pessoas desorientadas e desajustadas psicologicamente, que não são capazes de amar. Essa deformação no mínimo começa na família. Crianças que cresceram em atmosfera desprovida de amor, que não se sentiram amadas nem pelas próprias mães, têm a tendência a se sentir durante toda a vida como pessoas aptas a receber amor. Estarão sempre à procura daquela pessoa que será capaz de dar-lhes aquilo que foi negado na infância. Vivem como se fosse obrigação dos outros a amarem. Ninguém da o que nunca teve?

Portanto, inconscientemente agirão sempre como criança, que necessitam da ternura da mãe ou do pai e que desesperadamente procuram ser amadas, sendo, contudo, incapazes de amar e dar amor. São essas relações doentias do tipo egoísta que está muito mais propenso em cobrar atenção e amor do que dar carinho e amar quando estão tomados de amor. Amor não é uma coisa que aparece a todo o momento em nossas vidas. E quando aparece jogamos no lixo, por insegurança ou medo de não ser feliz. Qual a garantia do amor senão vivê-lo? Contudo, a mais sublime prova de amor que o Nosso Pai Maior nos deixou foi na cruz: “Senhor perdoa-os porque não sabem o que fazem”. Esse é o amor desvelado, sublimado, em sua essência mais pura, que perdoa incondicionalmente, que compreende sem exigências, serve sem apego e ama com desprendimento. Um dia, todos comungarão na sintonia do amor sublimado e vivenciado por Jesus. Devemos perdoar nossos pais por sofrerem do mesmo mal que sofremos hoje. Vamos repensar a nossa educação para não estragar as futuras gerações. O amor é o símbolo da nossa própria existência.

27 de fevereiro de 2016

DECADÊNCIA E INSATISFAÇÃO HUMANA

Só o que for capaz de se converter tornar-se-á sábio. O que se endurece permanecerá eternamente errado.” Abro esta reflexão citando a epigrafe do poeta inglês William Blake (1757-1827), para fundamentar a insatisfação humana em pleno apogeu da tecnologia que tanto a endeusamos que foi planejada e programada para mecanização humana. Não sabemos mais quem somos. Há uma insatisfação coletiva. Justamente o homem de hoje, muitas vezes excluído da ordem divina orientadora, se acha exposto ao perigo de sucumbir ante a problemática da sua existência. Apesar de todos os esforços do conhecimento racional, como argumenta o filósofo francês René Descartes (1596-1650): “Muitas coisas que eu achava que fossem verdadeiras, descubro hoje que são falsas. Não me acho, portanto, em condições de admitir mais alguma coisa como certa. Talvez tudo aquilo que apreendo e creio seja falso. O que é verdadeiro? O que é certo?”  

Pautamos nossas vidas em opiniões, julgamos e condenamos tudo que achamos ser errado e falso. Não paramos para ouvir a voz da consciência. Agimos como se fosse acéfalo. Eis a confissão de Santo Agostinho (354-430) diante dessa pergunta de Pilatos: “Perambulei pelas ruas e praças deste mundo, à tua procura, e não te encontrei. Procurei em vão, pois estavas dentro de mim mesmo.” É a exigência da inscrição do Oráculo de Delfos que se apresenta ante os nossos olhos: “Conhece-te a ti mesmo”! Isso exprime a possibilidade de atingirmos por esse caminho o mistério da vida, mostrando da mesma forma que a nova ordem vital deve começar na própria pessoa.

Nada mais estranho que um mandamento que obrigue a amar. A sua característica não é do dever, mas a da virtude. Amar é um dom que poucos conhecem. A racionalidade da justiça é insuficiente e o que parece suficiente não pode ser posto como imperativo. Temos continuamente, diante dos olhos a miséria do nosso tempo. Ela agarra o homem por fora, aninha-se no seu interior e procura envenenar-lhe o coração. Miséria habitacional e desemprego, encarecimento do pão nosso de cada dia e cuidado relativo a ele, condições insalubres de vida e doença, tudo isso se lança como demônios sobre cada um e sobre as famílias, sendo, muitas vezes, baldados todos os esforços para se livrar de semelhante condição. Temos deveres, mas, ninguém lembra que temos direitos.

Portanto, pior que tudo isso, é a falta de amor do homem, o qual se encontra por toda parte. Ele congela os corações e promove a dúvida. Ante um mundo tão hostil, muitos se voltam para si mesmos e se consomem numa solidão infinita. Eles se fecham contra essa falta de amor e erguem um muro ao seu redor; muro de isolamento, atrás do qual mora o desespero que vai lhe consumindo. Olhamos o mundo através das viseiras do medo e das grades da desconfiança. Toda comunidade está fadada a se converter num cárcere ou num inferno, se todos os seus membros não estiverem dispostos a colocar o seu “Eu” no estandarte da compaixão. Contudo, está decretada a decadência e a falência humana do chamado mundo moderno da tecnologia.

17 de fevereiro de 2016

EXTRAIR DA RELIGIÃO O QUE NELA COLOCAMOS

A religião sempre desempenhou o papel fundamental na história do homem. A filosofia não tem a função de negar ou ridicularizar esse grande fato humano que é a religião. Mas, na filosofia tem uma coisa que a religião não tem que é a necessidade de certo “ateísmo metodológico”. O que isto quer dizer? Que o filósofo tem que ser alguém que não pode ter crenças dentro da pesquisa filosófica. Ainda que se tratasse de Deus, porque para a filosofia Deus não é “impossível” ele é “improvável”. Isto significa que a filosofia não nega e nem afirma a existência de Deus. Porque Deus não é impossível para o filósofo afirmar a sua não existência. Para isto, o filósofo teria que provar que Deus não existe. Isto não é possível. Então, como negar o que não posso provar? Na verdade o homem põe as suas qualidades, as suas aspirações e os seus desejos fora de si, afasta-se, aliena-se e constrói a sua divindade. Portanto, a religião está no relacionar-se do homem com sua própria essência. Ela é a projeção da essência do homem. Mas, por que o homem constrói a divindade sem se reconhecer nela?

O filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872) responde: “porque o homem encontra uma natureza insensível aos seus sofrimentos, porque tem segredos que o sufocam; e na religião, alivia o seu próprio coração oprimido”. Por isso o homem foge da natureza, das coisas visíveis, refugiando-se no seu próprio intimo, para encontrar quem escute o seu próprio sofrimento. É aqui que ele expressa os segredos que o sufocam, é aqui que ele alivia o seu próprio coração oprimido. Isto é Deus. Em outras palavras, Deus é uma lágrima de amor derramada no mais profundo segredo sobre a miséria humana. Parece que a intenção humanista de Feuerbach é de transformar os homens de amigo de Deus em amigos dos homens. Homens que creem no pensamento humano e no amor como o único meio de salvação da humanidade.

Na verdade as pessoas de um modo geral desejam acreditar em Deus, conforme-lhes foi ensinado. Desejam acreditar que Deus é bom e que esta no controle das coisas. E quando acontece algum mal, logo vem à pergunta: “Deus, por que fizeste isso comigo?” Feuerbach, tem uma explicação para os dogmas cristãos do Deus encarnado: “Não é Deus que cria o homem, mas sim o homem que cria Deus. Portanto, Deus é a mais alta subjetividade do homem, abstraída de si mesmo". Todo estudante de filosofia pura durante a graduação, tem uma disciplina chamada “Teodiceia”, vocábulo criado pelo filosofo e matemático alemão G.W. Leibniz (1646-1716), do grego; Théos = Deus; e díke = justificação – visto que Leibniz tencionava; a “justificação de Deus” tencionava, mediante esse tratado, a tentativa racional da compreensão simbólica do Absoluto denominado Deus.

O nome Teodiceia é menos adequado, porque a teologia natural não tem propriamente a finalidade apologética, mas antes visa penetrar no conceito de Deus o mais profundo possível para fundamentar a fé. É, aliás, a teologia natural que fornece á fé a primeira de suas bases naturais. A teologia natural o ápice de toda a reflexão metafísica, considera a ultima ou suprema razão de ser de todas as coisas; vem a ser o auge de todo o saber humano. É também a fonte indispensável da ética, apontando a finalidade suprema de todo o agir do homem e da sociedade. Tomás de Aquino (1225-1274), um dos mais influentes teólogos dominicanos do cristianismo na tradição conhecida como Escolástica, elaborou um tratado filosófico contendo cinco argumentos na tentativa de harmonizar a “” e a “razão”. Queria provar a existência de Deus e até hoje estes argumentos são ruminados pelos estudantes de teologia nos seminários. São Tomás de Aquino, já no final da sua vida, depois de uma revelação transcendental, ele nunca mais escreveu nada, e, perguntado pela razão do seu silencio respondeu: “Tudo que escrevi é palha, sem importância”.

Portanto, buscamos a experiência de nos sentirmos vivos, de tal forma que nossa experiência no nível puramente físico tenha ressonâncias internas nos mais profundo do nosso ser e da nossa realidade. Sendo assim, chegamos a sentir realmente o êxtase de estarmos vivos. Contudo, os mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana. Se quisermos pensar em Deus podemos extrair da religião ou recorrer aos mitos. Porque Deus é na verdade um pensamento, um nome, uma ideia abstrata ou conceito, que se refere a algo que transcende qualquer pensamento. O mistério supremo do ser está além de toda categoria de pensamento. Como argumenta o historiador da arte indiana Heinrich Zimmer (1890-1943): “As melhores coisas não podem ser ditas por que elas transcendem o pensamento. A segunda melhor coisa é mal compreendida, pois são pensamentos que se referem ao que não pode ser pensado. E ficamos presos com os pensamentos. A terceira melhor coisa é as que nós falamos”. 

7 de fevereiro de 2016

SABE POR QUE VIVES?

O homem não necessita senão de um mínimo de conforto na vida quando a sua vida tem uma finalidade nitidamente consciente, isto é, quando ele sabe por que vive, trabalha e sofre. Uma causa grande e digna, claramente apreendida e entusiasticamente abraçada, torna-se grandiosamente fascinante e bela a mais humilde das existências. O homem sem ideal rasteja penosamente pelas tediosas baixadas da vida. O homem empolgado por uma grande causa cria asas e voa jubilosamente por cima de todos os obstáculos. Refiro-me aqui ao homem enquanto gênero humano, capaz de justificar sua utilidade no mundo de dor e amor. Quem aprende com a dor, ensina com amor.

Entretanto, é necessário saber sonhar! Não esses sonhos quiméricos, ocos, mas os grandes sonhos do mundo das excelsas realidades ainda não realizadas, porém, realizáveis pelos audaciosos aventureiros do infinito. O mais duro da vida torna-se suave quando o homem tem plena certeza por que vive e conhece o caminho que trilha. Vida enfadonha e intolerável é somente uma vida sem ideal e sem finalidade. Convém recordar o ditado popular, que o seguro morre de velho. Mas, o aventureiro vive na perpétua juventude. Como argumenta o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955): “Quem, em nome da liberdade, renuncia a ser aquilo que deveria ser já se matou em vida: é um suicida de pé. A sua existência consistirá numa perpétua fuga da única realidade que era possível”.

Portanto, se eu tivesse cem por cento de segurança, mas não tivesse a liberdade de sonhar os sonhos pelas infindas regiões do além. De que me serviria toda essa tediosa segurança? Basta-me um mínimo de segurança, pois tenho necessidade de muita liberdade de sonhar. A excessiva segurança me faz envelhecer em plena juventude. A vasta liberdade me garante a mocidade em plena velhice. Prefiro ser um velho jovem a ser um jovem velho. Sabe, pois, meus amigos leitores por que vives? Se compreender a razão profunda de sua existência, saberás viver intensamente. Só chegamos a ser uma parte mínima do que poderíamos ser. Um dia olharás para trás, e dirá a si mesmo! Contudo, valeu a pena aprender com a dor, porque hoje ensino com amor.

3 de fevereiro de 2016

SENTIR-SE LIVRE PARA AMAR

Segundo o médico, alquimista e astrólogo suiço-alemão Paracelso (1493-1541), dizia: “Quem nada conhece nada ama. Quem nada pode fazer nada compreende. Quem nada compreende nada vale. Mas quem compreende também ama, observa e vê. Quanto mais conhecimento houver inerente numa coisa, tanto maior o amor. Aquele que imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas, nada sabe a respeito das uvas”. Amar é simples, difícil é encontrar a pessoa certa para amar ou pelo qual ser amado. Tendo em vista, que a maior necessidade do homem é evitar a angustia da separação, abandonar o sentimento de solidão e isolamento. No entanto, a falência absoluta em alcançar esse alvo significa loucura, porque o pânico do isolamento completo, só pode ser ultrapassado por um afastamento do mundo exterior, de tal modo radical que o sentimento da separação desapareça. Porque o mundo exterior, de que se está separado, também desapareceu. Então, como sentir-se livre para experimentar o amor?

Analisando o amor sob a ótica de Erich Fromm, fica claro para nós mortais, que o amor é a única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana. É o amor uma arte ou só uma sensação agradável? Se o amor é uma arte, exige conhecimento e esforço. Porque toda arte demanda interpretação e conhecimento. Sendo o amor só uma sensação agradável, como aquela experimentada ao acaso nos encontros casuais nas noites de happy hour (em português = hora feliz). Isto é, uma sensação de prazer facilmente confundida com a paixão, que passa rápido. Sendo assim, como posso ser livre para sentir o que sinto? É comum entre homens e mulheres, procurar desenvolver maneiras agradáveis e gentis, conversas interessantes, serem prestativos, modestos e inofensivos. Ou seja, os mesmos modos usados para conseguir sucesso, fazer amigos ou influenciar pessoas. Enfim, o que se considera comumente ser amável é uma mistura de ser popular e possuir certos dotes de sedução para impressionar o outro.

Entretanto, a partir do momento em que não se sente livre para sentir o que se sente, fica-se à mercê de doenças psicossomáticas. Significa a negação das emoções. É não se aceitar na sua totalidade. Só que o fato de negarmos o que sentimos não resolve, pois há em nós energia emocional continua procurando uma forma de ser liberada. Se formos proibidos de expressar o amor que sentimos, podemos acumular raiva, mágoas, ressentimentos ou desenvolver sintomas físicos. Veja o absurdo disso, posso sentir, porém não posso expressar. Por medo da felicidade que bate em nossa porta. Pois, viver com medo é viver pela metade. Isto contém um grau muito limitado de liberdade. A pessoa tem permissão para sentir, mas não para deixar claro esse sentimento. O que vão pensar de mim se mostrar isto? Ou então, ela se permite sentir, falar, mas não agir em função do que sente. Seu sentimento fica dissociado da conduta, muitas vezes por não ter aprendido a tomar decisões baseadas em suas emoções.

Agir no impulso da emoção, sem controle é típico de quem coleciona determinadas emoções segundo a psicóloga e educadora Ana Maria Cohen, que acrescenta. “Pode-se trocá-las por explosões, brigas, vingança ou mesmo homicídio e suicídio”. No caso do amor essas emoções reprimidas, quando explode desencadeia nos chamados crimes passionais. A ação baseada no impulso, embora caracterize uma liberdade maior, não é isenta de problemas. Se tiver raiva contida, explode, não importando onde ou com quem. Se tiver medo, paralisa ou foge, agindo impulsivamente. Isso já é um indicador que a pessoa tem um problema de fato.

Portanto, sentir, verbalizar e agir quando conveniente, respeitando a si e ao outro, é o próximo passo na direção da liberdade emocional. E acontece quando, ao sentir e poder verbalizar, a pessoa resolve se é conveniente ou não manifestar a emoção e qual a melhor forma de fazê-lo. Contudo, existe uma relação de magnetismo entre as pessoas, uma atração instintiva e pontual, pela qual somos tomados por um desejo enorme de prazer em estar com os outros. É através desse impulso instintivo que nasce o amor, no mais profundo recôndito do nosso inconsciente onde a razão e a reflexão não têm absolutamente nenhum acesso. Por conseguinte, se as famílias e a sociedade em geral negar essa vontade de vida e de viver, no amor instintivo essa vontade é afirmada perante os humanos. Sendo o amor à manifestação viva dessa vontade de viver.

A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele m...