Em
um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a
relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele mostra que ao
adquirir mais conhecimento, cultura, e à medida que se lê mais, nos tornamos mais
exigentes com nossas relações sociais.
Para
o historiador, essa mesma inteligência adquirida não representa uma vida mais
feliz, pois muitos dos grandes nomes da nossa sociedade eram atormentados e
sozinhos. Abaixo deixamos um pequeno trecho adaptado da fala de Karnal onde ele
discorre sobre o assunto:
Diz
Leandro Karnal: “ao ler livros como Dom
Quixote, de Miguel de Cervantes, e Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, eu
reconheci que havia mentes muito privilegiadas sobre as quais eu poderia pensar
discorrer e me aprofundar, mas eu não faria a mesma coisa. Então tive que achar
um nicho na humanidade, que foi ser professor: cabe ao grande intelectual, ou
seja, alguém do mesmo porte de Clarice Lispector, criar ideias, e cabe a um
professor ensiná-las”.
Continua
o mestre Karnal: “e por intelectual estou
me referindo a pessoas que um dia olham para o espaço sideral e têm aquela
intuição que, entre 1906 e 1907, Pablo Picasso teve ao pintar Les Demoiselles
d’Avignon, criando então o cubismo como linguagem, que olham para algumas
gravuras japonesas e criam uma explosão de pinturas, como Vincent Van Gogh fez
entre 1889 e 1890”.
Para
me consolar em relação ao meu estágio intermediário de inteligência lendo
Leandro Karnal eu pensei: Van Gogh se matou. Clarice Lispector era uma pessoa
atormentadíssima, segundo sua biografia feita por Benjamin Moser, pois, dotada
de sua capacidade de visão, ela tinha uma dificuldade extrema de convívio com
as pessoas, já que, para conviver bem com as pessoas, é necessário estar mais
ou menos no mesmo plano civilizacional que elas. Por isso as pessoas simples
são muito sociáveis; estas pessoas ficam muito felizes com experiências
singelas de conversas.
Não
é um conselho, mas uma advertência de uma experiência que tive lendo Leandro Karnal:
à medida que vamos lendo mais e mais vamos ficando mais exigentes com as pessoas.
Orações absolutas como: Tá quente hoje, né? O tempo tá maluco! E na política só
tem ladrão! Enunciam o mundo como ele é. Mas à medida que eu leio “Coração das
Trevas”, de Joseph Conrad, eu acabo me lembrando do filme, inspirado nesse
livro, “Apocalypse Now”, e minha cabeça dá dez voltas enquanto alguém me diz:
Nossa! Que calor! Isso me torna mais feliz? Provavelmente não.
Portanto,
intelectuais e pessoas muito versadas raramente são muito felizes. A
universidade não é um local de felicidade intensa – uma reunião de departamento
não é uma reunião de pessoas que flutuam no espaço das ideias, iluminadas pela
luz da razão. Uma reunião de qualquer departamento é quase sempre idêntica a
uma reunião de pessoas não formadas, só variando o vocabulário. O
ressentimento, a inveja, a fofoca e a detração são iguais entre pessoas que
vendem balas no mercado de Campinas e entre pessoas que estão nos
departamentos, especialmente nos da área de humanas.