17 de agosto de 2026

A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele mostra que ao adquirir mais conhecimento, cultura, e à medida que se lê mais, nos tornamos mais exigentes com nossas relações sociais.

Para o historiador, essa mesma inteligência adquirida não representa uma vida mais feliz, pois muitos dos grandes nomes da nossa sociedade eram atormentados e sozinhos. Abaixo deixamos um pequeno trecho adaptado da fala de Karnal onde ele discorre sobre o assunto:

Diz Leandro Karnal: “ao ler livros como Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, e Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, eu reconheci que havia mentes muito privilegiadas sobre as quais eu poderia pensar discorrer e me aprofundar, mas eu não faria a mesma coisa. Então tive que achar um nicho na humanidade, que foi ser professor: cabe ao grande intelectual, ou seja, alguém do mesmo porte de Clarice Lispector, criar ideias, e cabe a um professor ensiná-las”.

Continua o mestre Karnal: “e por intelectual estou me referindo a pessoas que um dia olham para o espaço sideral e têm aquela intuição que, entre 1906 e 1907, Pablo Picasso teve ao pintar Les Demoiselles d’Avignon, criando então o cubismo como linguagem, que olham para algumas gravuras japonesas e criam uma explosão de pinturas, como Vincent Van Gogh fez entre 1889 e 1890”.

Para me consolar em relação ao meu estágio intermediário de inteligência lendo Leandro Karnal eu pensei: Van Gogh se matou. Clarice Lispector era uma pessoa atormentadíssima, segundo sua biografia feita por Benjamin Moser, pois, dotada de sua capacidade de visão, ela tinha uma dificuldade extrema de convívio com as pessoas, já que, para conviver bem com as pessoas, é necessário estar mais ou menos no mesmo plano civilizacional que elas. Por isso as pessoas simples são muito sociáveis; estas pessoas ficam muito felizes com experiências singelas de conversas.

Não é um conselho, mas uma advertência de uma experiência que tive lendo Leandro Karnal: à medida que vamos lendo mais e mais vamos ficando mais exigentes com as pessoas. Orações absolutas como: Tá quente hoje, né? O tempo tá maluco! E na política só tem ladrão! Enunciam o mundo como ele é. Mas à medida que eu leio “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, eu acabo me lembrando do filme, inspirado nesse livro, “Apocalypse Now”, e minha cabeça dá dez voltas enquanto alguém me diz: Nossa! Que calor! Isso me torna mais feliz? Provavelmente não.

Portanto, intelectuais e pessoas muito versadas raramente são muito felizes. A universidade não é um local de felicidade intensa – uma reunião de departamento não é uma reunião de pessoas que flutuam no espaço das ideias, iluminadas pela luz da razão. Uma reunião de qualquer departamento é quase sempre idêntica a uma reunião de pessoas não formadas, só variando o vocabulário. O ressentimento, a inveja, a fofoca e a detração são iguais entre pessoas que vendem balas no mercado de Campinas e entre pessoas que estão nos departamentos, especialmente nos da área de humanas.

7 de agosto de 2026

ESSE DEUS PERSONIFICADO PELA RELIGIÃO NÃO EXISTE

A religião sempre desempenhou o papel fundamental na história das pessoas. Na verdade as pessoas de modo geral desejam acreditar em Deus, conforme-lhes foi ensinado. Como explicar que há pastores e pregadores midiáticos ensinando errado sobre costumes e moral religiosa? Há quem permita quase tudo e há quem proíba quase tudo. 

Tomás de Aquino, um dos mais influentes teólogos dominicanos do cristianismo na tradição conhecida como Escolástica, elaborou um tratado filosófico contendo cinco argumentos na tentativa de harmonizar a “fé” e “razão”. Queria provar a existência de Deus e até hoje estes argumentos são ruminados pelos estudantes de teologia nos seminários.

É muito difícil manter autoestima quando o ser humano é mortal, envelhece, fica doente, perde quem ama, não sabe muito bem qual rumo a tomar na vida. Tudo isso é muito complicado para a preservação da autoestima, por conta da tradição judaico-cristã que implantou a teoria do pecado no mundo. O "bem" e o "mal" são perspectivas humanas e não divinas.

Os verdadeiros teólogos, filósofos, historiadores da fé, que estudaram 20, 40 anos, muitos lecionam em universidades nem sequer têm espaço em rádios, TVs, editoras e muito menos são convidados por essas instituições. Os craques da mídia ocuparam todos os espaços. Nada contra eles, mas a verdade é que faltam mestres do saber em muitas emissoras de rádios e TVs e, quando divulgam suas pesquisas científicas, poucos são os interessados.

Poucos são os pastores e pregadores que mostram com conhecimento o que estão dizendo. Não divulgam o evangelho na sua essência. Pregam uma teologia distorcida. Tudo coisa da cabeça do pastor que não concluiu seus estudos de teologia e, se concluiu faltou às aulas de ecumenismo, filosofia, sociologia, pneumatologia, mariologia e escatologia. Achou que bastaria orar muito, ensinar orar e apontar o céu e o inferno para quem quisesse ser cristão.

A separação entre o humano e o natural é uma ilusão. Somos parte de um Todo vivo pulsante, sagrado. Amar é dar Deus para o outro. Amar é estar juntos nos braços da divindade. O povo evangélico ora muito, testemunha muito e abraça todas as devoções do momento, mas quase não lê a Bíblia como deve ser lida e quando lê, interpreta tudo errado, leva ao pé da letra. São analfabetos funcionais que sabe ler, mas não consegue interpretar o que leu.

São poucos os pastores e pregadores que mostram com conhecimento o que estão dizendo. Preferem ouvir seus gurus que lhes ensinam como se comportar nas pregações. Só não lhes ensinam a pensar como cristão raiz. Querem ser mais cristão que o próprio Cristo. São craques em orar, cantar, louvar e dar testemunhos. E isto é bom, mas não basta. Jesus ensinava os apóstolos a pensarem.

A alguns lideres religioso não tem livros de catequese, dicionário de teologia em casa, na cabeceira cama, na estante ou nas bibliotecas das Igrejas. Nunca ouviram falar na pedagogia cristã ensinada por Jesus, aos seus apóstolos. Alguns pregadores de mídia passam horas em retiros falando de anjos, santos, pecado, inferno, céu e santidade, mas não conseguem falar três minutos sobre o significado da fé e da palavra espiritualidade.

Nunca estudaram e seus superiores ocupam pouco tempo com isto. Aprendem a viver como cristão, mas nunca aprenderam a pensar como um verdadeiro cristão. As melhores pessoas que conheço não são evangélicas. E isto é uma grande lacuna na formação desses novos lideres religiosos, pastores, padres e pregadores evangélicos. Estão muito mais preocupados com resultados do que com a formação filosófica e teológica. Trilhar o caminho da fé também requer aprendizado.

Portanto, conhecer a Deus não é um ato de fé cega, mas sim o entendimento racional das causas e das leis da natureza. De modo que Deus é tudo o que é, aquele que Sou. Tudo segue uma necessidade natural, não um propósito divino ou vontade. Deus não é um criador externo, mas a própria estrutura causa e essência de tudo o que existe. Assim sendo, de que adianta falar do meu amor a Deus, se não pratico esse amor com o meu próximo.  

A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele m...