25 de fevereiro de 2015

NA VAIDADE TUDO É VAIDADE

O assunto que trago para a nossa reflexão, tem tudo a ver com a realidade em que estamos vivendo neste momento conturbado que atravessa a nossa sociedade. A atual ânsia de visibilidade das pessoas, de ver e ser visto, tanto no mundo real como no mundo virtual, faz com que elas se anulem na sua essência. Seria uma questão de vaidade? Caso seja, será que a vaidade mudou de status? Antes condenada hoje se tornou um valor? Foram os meios eletrônicos que fizeram essa ânsia de visibilidade ou eles são apenas consequência? O que aconteceu com a vaidade humana, aumentou ou diminuiu? 

Acontece que a questão da vaidade é um assunto pouco discutido no nosso meio filosófico. Este tema é levantado desde os primeiros filósofos. Por volta dos séculos IV e III antes de Cristo, nós temos uma reflexão filosófica que se alonga até o século XIX. Depois disso esse assunto foi renegado ao terceiro e até ao ultimo plano na filosofia. A filosofia recente discute muito pouco a vaidade, mal se vê. De modo geral as ciências humanas não discute sobre a vaidade. A “vangloria” que seria a gloria justa e verdadeira do que nós efetivamente somos. Mas, não é desta gloria que vamos falar aqui e sim da “gloria vã”, que é a gloria de quem imagina ser muito mais do que realmente é. É por esse viés que quero conduzir a nossa reflexão.

Há um ponto comum nestes dois mil anos de reflexão sobre a vaidade. Primeiro ela é falsa e segundo ela induz as pessoas ao erro. Segundo o filósofo e educador Renato Janine Ribeiro (1949), cita uma música americana dos anos setenta: “you’re so vain”, que diz: “você é tão vaidoso que provavelmente pensa que esta canção é sobre você”. Que vira uma coisa totalmente contraditório. A pessoa é tão vaidosa que se identifica como a tal. A gente vê muito isso, nos meios de comunicação e nas redes sociais. Como argumenta o filósofo e escritor francês Michel de Montaigne (1533-1592): “Seja o que for, artifício ou natureza, isso que nos imprime a condição de viver da comparação com o outro, faz-nos muito mais mal que bem. Privamo-nos daquilo que nos é útil para atender as aparências e a opinião dos outros. Não nos importa tanto saber o que é nosso ser em si e em efeito quanto saber o que é ele para o conhecimento publico. As próprias riqueza do espírito e a sabedoria nos parecerão infrutíferas se só forem desfrutadas por nós, se não forem produzidas para a vista e a aprovação alheia”.

Na verdade, o vaidoso é manipulável. Sobretudo, graças às redes sociais, só para citar uma dessas redes atuais, o facebook. Por exemplo: o que há de pessoas escrevendo e postando besteiras no facebook e ficam envaidecidas por isso. A gente vê diariamente o quanto existe de imbecilidade nestas postagens e o pior de tudo, elas ficam satisfeitas consigo mesmas. Como diz na Bíblia, mais precisamente no Velho Testamento no século III antes de Cristo, em Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. E na psicanálise não existe a palavra vaidade. Construiu-se uma teoria psicológica desprezando e desconsiderando a vaidade e mudou o nome para narcisismo que seria um termo que subentende amor por si mesmo. Uma expressão dúbia, porque amor não é obrigatoriamente igual à vaidade. Além de que, não existe amor por si mesmo, o que existe é esse autoerotismo, esse prazer de se destacar e chamar a atenção, de atrair olhares. É próprio da natureza humana.

Entretanto, nunca teve tão exaltado esse exibicionismo, por isso que as pessoas evitam falar sobre o assunto, tudo gravita em torno disso. Um exibicionismo sem fundamento, sem o menor sentido, porque o prazer erótico de exibir e de se destacar ele, evidentemente, pode se dar de duas maneiras diferentes. No primeiro caso, o individuo buscar um destaque por um conceito legitimo cujo ele envaidece meritoriamente, pela aparência. Por exemplo: as celebridades que estão em evidência na mídia. E no segundo caso, o facebook que pode fazer e faz um pouco isso, ajudando os vaidosos a se destacar. Esse exibicionismo que se manifesta muito intensamente, principalmente na questão erótica, a partir dos anos setenta até hoje. Atualmente exibir o físico masculino e feminino ficou muito exaltado e exagerado ao mesmo tempo, chocando um pouco e impactando os olhares. Provocando tensões, ciúmes, inveja e rivalidade perante a sociedade.

Por conseguinte, o mundo não melhorou com esse exibicionismo todo, ao contrário, a qualidade das relações humanas vem se complicando cada vez mais. Certamente por conta dessa onda de liberação da sexualidade, liberou também e muito a vaidade que é um componente erótico. Que sempre foi tratado com certo pudor, agindo com repressão e comedimento sobre o componente sexual. Hoje não pensa mais, como sonhou a juventude nos anos sessenta, ter um mundo de paz, amor e harmonia entre os homens de boa vontade. Hoje vivemos um mundo de vaidade e muita rivalidade. Contudo, as pessoas exibem tanto no facebook que é uma fonte nova de geração de inveja para muitos. “Olha eu aqui, na praia tal, na ilha tal”, por acaso aquele que não está na ilha, está na rede morrendo de inveja do vaidoso. É uma espécie de revista de variedades privadas. No entando, estamos todos contaminados pela vaidade virtual. A tecnologia já tem um modelo pronto de usuário que na verdade, é um modelo imbícil que consome todos os dias e não presta a atenção o quanto são idiotas. Esta palavra que vem do grego “idiótes” ou “idhiótis”, que traduzida etimologicamente para o português quer dizer “idiota”. Ou seja, pessoa fechada em si mesma, limitada, que não participa da vida em sociedade.

Portanto, a vaidade tem tudo a ver com a necessidade de satisfação pessoal que depende da aprovação e da estrema admiração dos outros. É um sinal de que as pessoas gostam da sensação de ter alguma coisa que os outros não têm, e assim se sentindo mais poderosa. Nas redes sociais, o desejo de ser invejado tende a se manifestar com maior frequência. O próprio instagram, que já foi apontado como uma das redes que mais causa depressão entre os usuários. Cria a ilusão de que o outro tem uma vida incrível e que você precisa ter uma vida assim também. No meio jovem, tem essa tendência mais recorrente de forjar uma vida perfeita. Essa busca constante em transmitir uma imagem de perfeição em todos os momentos, pode frustrá-los, e pode realmente levar, até mesmo à depressão. As redes sociais são veículos de exposição seletivos, isto é, a pessoa escolhe deliberadamente o que postar e compartilhar, o que facilita a exposição de feitos e conquistas. Este é ápice do vaidoso que faz de tudo por um “curtir” dos outros em suas fotos e postagens. É um narcisista decadente.  

14 de fevereiro de 2015

CORPO E SEXUALIDADE

A nossa sociedade atual está criando uma nova ética do relacionamento. A cultura do corpo sarado. Afinal, o que é um corpo sarado? De repente nossa atenção é chamada por essa esfomeada corrida às academias de ginástica, de estética, de massagens, enquanto ficamos sem compreender muito bem o surto de exibicionismo do corpo nas passarelas sociais, como clubes, praias, entre outros lugares públicos. É a nova febre do corpo. Até parece que apenas de uns tempos para cá o ser humano passou a ter corpo. Realmente algo estranho ocorre, alguma coisa como se tivéssemos descoberto a outra face da lua, um lado desconhecido de nós mesmos. Esta grande atenção sobre o corpo será boa ou ruim? Ao que parece será muito boa no sentido de se recuperar o carinho por essa coisa prodigiosa que é o nosso corpo. E poderá ser muito ruim à medida que se cai nas armadilhas que a nossa sociedade do lucro vem inventando para vulgarizar a atenção sobre o corpo e com isso banaliza a sexualidade.

A filosofia atual não se dedica a discutir assuntos que parecem não ser mais seus, como a questão de se o espírito existe de modo autônomo, se ele sobrevive à morte física e de como é essa sobrevivência. Estes assuntos são postos hoje nos domínios da religião e da teologia, das metapsíquicas e das instituições místicas. O filósofo tem suas crenças, mas evita reduzir a discussão filosófica ao âmbito de sua fé. Na verdade, o foco de interesse da filosofia é o vivente, aquele ser humano que sou e os demais que estão comigo neste momento no mundo. No vivente, a reflexão filosófica não vê como distinguir o corpo do espírito. Ainda que se pense a mente como espírito, é a própria medicina que mostra cada vez mais a dificuldade de ver clara à fronteira que separa as funções mentais das funções orgânicas. O campo médico que estuda esta relação está meio atarantado: pela chamada medicina psicossomática.

Fica difícil pensar no corpo separado da alma, seria o mesmo que pensar num ciclista montando uma bicicleta. Somos ao mesmo tempo, um ciclista que é uma bicicleta. Vamos examinar algumas afirmações sobre a questão da corporeidade, para melhor compreendermos. Todavia, o corpo é nossa forma de presença no mundo. Estamos presentes quando o mundo se abre para nós e nós abrimos para o mundo; isto é: presença é algo que está ligado a relacionamento. Poder ver, ouvir, tatear, degustar e cheirar. Pode receber o mundo em nossa interioridade e, ao mesmo tempo, formando ideias e emoções em nosso intimo, comunicá-las para fora de nós. E é na medida em que somos nosso corpo é que nos situamos no mundo de forma comunicante. Portanto, não apenas temos um corpo através do qual lidamos com a vida que nos circunda e que está em nós. Corpo não é mero instrumento. Quando se crê no espírito, vai então ficando claro que, no vivente, o corpo é a outra face do espírito e vice-versa.

Segundo o filósofo e fenomenólogo francês Merleau-Ponty (1908-1961), disse: “o corpo é o berço de todas as nossas significações”. Ele quer dizer que tudo que temos em nós de emoções, de conhecimentos, todo o conteúdo do nosso mundo interior, tudo isto teve que começar no corpo. É pelo prazer e pela dor, por todas as sensações corpóreas, que a vida nos visita e tece lá dentro a nossa intimidade. Tudo, portanto começa com o corpo. Ele é o berço dos nossos conteúdos. O corpo é o nosso mais profundo mistério. Afinal, a medicina explica como o corpo funciona; mas ninguém sabe que energias o fazem funcionar por dez ou cem anos. Ninguém conhece o chamado principio vital. Que fagulha é esta que acende a vida? De que usina jorram as energias que mantém com o coração batendo? Mistério! E basta que sintamos alguma coisa muito esquisita – uma aceleração cardíaca, uma falha de batimento, uma forte tontura, etc. – que somos convocados ante o mistério do corpo. Sentimos medo, pedimos ajuda.

Entretanto, este mesmo corpo maravilhoso que nos põe medo, oferece-nos oportunidades de profundo e intenso prazer. E hoje ninguém precisa fugir dessa palavra prazer. O prazer de viver tem muitos aspectos. Todos são importantes. E é fundamental dizer-se que o prazer mais criativo se encontra em nossa sexualidade. A sexualidade (com a energia da libido) é o que movimenta as emoções, o conhecimento e até mesmo o sentido religioso. Para o filósofo e psiquiatra alemão Karl Jaspers (1883-1969), argumentava o seguinte: “a literatura mística não passa de uma torrente de erotismo”. E o pensador disse isto não porque fosse um ateu (era religioso), mas porque, sendo um psiquiatra também, sabia que o erotismo é a infinita riqueza de forma que o espírito empresta à sexualidade. Ora, falar-se de sexualidade não é necessariamente falar-se de genitalidade de relações sexuais. A sexualidade é uma imensa energia que nem mesmo conhecemos direito. Ela se parece, para o conhecimento humano, a de um iceberg, que deixa para fora da água 1/3 da sua massa, escondendo nas águas oceânicas os outros invisíveis 2/3.

Como argumenta o filósofo e educador Régis de Morais (1941), “a grande poesia não é celebração; ela é filha da sexualidade que se solta. Não se continuará vivo se não tiver um amor sexual pelo mundo”. Depois do livro bíblico do Cântico dos Cânticos ter celebrado lindamente a sexualidade e o erotismo inclusive em termos de expressão genitais. Por que havemos nós hoje de ter vergonha de coisa tão elevada e maravilhosa como a expressão de sexo entre duas pessoas que se gostam? O sexo, em si mesmo, só tem grandezas. Ele é a força mais poderosa que nos faz sentir inteiros, íntegros, no encontro excitante de amor. O que causa vergonha, o que deprime a bela verdade do sexo, é a triste malícia que muitas vezes destila o coração humano. Toda uma cultura ocidental maquinou uma trama lamentável. Fazer das expressões sexuais um ato de baixeza, só às vezes legitimado por leis encarregadas de dar o sinal verde. Então, para muitos, o corpo é transformado numa ameaça de degradação.

Portanto, o corpo não é dividido em partes mais aceitáveis e menos aceitáveis. Embora a sexualidade ultrapasse o corpo, a escolha de uma vida sexual a dois se concretiza no encontro de corpos. Se o principio de tudo for à verdade do amor, de um amor digno, o demais será a fecundidade da criação. A geração de filhos ou de carinhos e trocas de carícias são de inestimável valor humano. Contudo, os limites da sexualidade são limites do corpo. Tanto assim que a sexualidade começa em qualquer parte do corpo e não termina, vai de um lado para outro explorando sua totalidade. Faz de cada um de nós o que exatamente somos. A extensão do mundo em nosso corpo. Viver isto como via de regra, respeitando a nós mesmos e aos outros. No corpo está a plenitude da vida e na sexualidade a sua manifestação divina. 

12 de fevereiro de 2015

TER O SEXO TORNOU MAIS DIFÍCIL TER O AMOR

Na sociedade atual, com a facilidade ao acesso a comunicação através da internet e do celular, fala-se e escreve-se muito sobre sexo e quase nada sobre o amor. Talvez porque o amor, sendo um enigma, não se deixa decifrar, repelindo toda tentativa de classificação ou definição. Ao contrário, a literatura nunca deixou de falar do amor, principalmente, nas poesias, é nesse campo mítico por excelência que aparece a metáfora como possibilidade de compreender melhor o amor. Todavia, não há como negar que esse vazio conceitual se deva à dificuldade de expressar o amor no mundo contemporâneo. Tendo em vista, o desaparecimento das sociedades tradicionais, cujos costumes envolviam fortes relações entre as pessoas. Entretanto, nossas cidades com o aumento de suas populações, com seus arranha-céus, estão criando espaços para a solidão, o chamado fenômeno da “multidão solitária”. As famílias desintegrando-se e dispersando-se em busca de emprego. Por outro lado, as pessoas caminham lado a lado, mas suas relações são territoriais e não sociais. Seus contatos dificilmente se aprofundam, tornando-se mais raro os encontros verdadeiros e amizades duradouras.

O jovem de hoje tem muito mais possibilidade de contatos prazenteiros, mas totalmente descompromissados de intimidades afetivas. Com essa facilidade de ficarem com vários numa única noite, ao mesmo tempo não estabelecem relações intimas duradouras, porque suas relações são muito inconsistentes. Os ditos apaixonados se juntam e separam com a mesma facilidade. Não há amor, não há envolvimento, porque não criam vínculo. Ficam somente no campo do desejo e do epidérmico. Na verdade, isto não é namoro e sim encontro casual, puramente físico e sem compromisso. Agradável a principio, excitante, uma espécie de tiroteio cerrado de desejo, de busca de troca e carência instintiva. Mas cansativo em longo prazo porque se espera mais do que só a relação física, portanto, torna-se desapontador para ambos.  

Para a jornalista e escritora ítalo-brasileira Marina Colasanti (1937), pertencemos à geração do descartável, desinventamos o duradouro. À navalha, que durava a vida inteira, hoje preferimos o barbeador que se utiliza só por algumas vezes e se joga fora. Trocamos o bom e sóbrio tecido que usaríamos durante anos, pela alucinante cor da moda que durará apenas uma estação. Resistência e boa qualidade tornaram-se palavras sem sentido, o máximo que admitimos é absolescência planejada. Parece que o amor ficou fora de moda e o sexo tornou-se mais atraente. Esse descartismo do amor contaminou os sentimentos, sem, entretanto, mudá-los por completo.

Todavia, não é só nas relações entre duas pessoas, que os encontros afetivos estão empobrecidos. A nossa organização social de efeito capitalista tem modos de convívio social baseados na competição e rivalidade. Essa sociedade vê no amor o seu pior inimigo. Fala-se tanto em cristianismo, onde se prega o amor ao próximo. Foi à classe dominante que inventou essa história de igualdade, que espalhou esse veneno pelo mundo afora. E hoje tentam nos mostrar que o amor não é absolutamente a força maior que fomenta a humanidade. Por conseguinte, vivemos dentro de uma sociedade onde tratam as relações como superficiais e descartáveis. Estamos às vésperas do prazo de vencimento das relações afetivas. Os relacionamentos estão cada vez mais fragilizados e desumanos. A confiança no próximo está cada vez mais perto de terminar definitivamente. Os seres humanos estão sendo usados por eles mesmos.

Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925), os avanços tecnológicos influenciaram muito o ser humano em suas relações de um modo geral, que o amor líquido (que mal começa e já termina), representa justamente esta fragilidade dos laços humanos, a flexibilidade com que são substituídos. É um amor criado pela sociedade atual, a chamada modernidade líquida, para tirar-lhes a responsabilidade de relacionamentos sérios e duradouros, já que nada permanece nesta sociedade, o amor não tem mais o mesmo significado, foi alterado como algo flexível, totalmente diferente do seu verdadeiro significado de durabilidade e perenidade.

Portanto, para muitos o amor romântico está fora de moda. O amor verdadeiro em sua definição romântica foi rebaixado a diversos conjuntos de experiências vividas pelas pessoas, nas quais se referem utilizando a palavra amor. Principalmente no sexo casual, hoje praticado por uma parcela significativa, na tentativa de camuflar os impulsos instintivos e biológicos do ser humano a ser satisfeito, enganando aos seus parceiros, dizendo “vamos fazer amor”. Entre essas pessoas é muito fácil ouvir “eu te amo”, pois não existe mais a responsabilidade de estar mesmo amando. A palavra amor foi rotulada de uma forma, em que as pessoas nem sabem direito o que sentem, não conseguem definir a diferença entre amor e paixão e mesmo assim utilizam incorretamente esta palavra, que perdeu sua importância. Contudo, as pessoas preferem o encontro pela internet, no campo do virtual, porque sendo assim, quando quiserem podem apagar o que haviam escrito, ou simplesmente apagar um contato e facilmente dizer adeus. Enfim, ter o sexo tornou difícil ter o amor e com isso estamos matamos um sentimento que poderia salvar a humanidade.

3 de fevereiro de 2015

DIALOGANDO COM O AMOR

No diálogo de Platão (427-347 a.C.) “O Banquete”, os convidados discursam sobre o amor. Sócrates (469-399 a.C.) o último dos oradores do referido diálogo do amor, começa dizendo que Eros representa um anelo de qualquer coisa que não se tem e se deseja ter. Para Sócrates o amor é o desejo, em primeiro lugar, de alguma coisa; em segundo, só de coisas que estejam faltando. O amor é capaz de desabrochar e de viver, morrer e ressuscitar no mesmo dia. Come e bebe, dá e se derrama, sem nunca estar rico ou pobre. A partir desta discussão pela boca de Sócrates, Platão explica a relação entre Eros e a filosofia. Assim como os deuses não filosofam nem aprendem, por já possuírem a sabedoria, os tolos e os ignorantes não aspiram adquirir conhecimento, porque, embora nada saibam, julgam saber. Só o filósofo deseja conhecer, pois sabe que não sabe e sente necessidade de conhecer.

Dessa forma, Platão não reduz a busca apenas à procura de outra metade do nosso ser que nos completa como explica no mito da origem do amor. Pare ele, Eros é ânsia de ajudar o eu autêntico a se realizar, na medida em que a vontade humana tende para o Bem e para o Belo, quando subordina a beleza física à beleza espiritual e desliga-se da paixão por determinado indivíduo ou atividade, ocupando-se com a pura contemplação da beleza. É uma concepção que deve ser compreendida de acordo com a relação corpo e alma, segundo a qual Platão subordina Eros a Logos, ou seja, subjuga as paixões à razão. Sendo assim, tudo que está no mundo sensível diz respeito às paixões e o que está no mundo das ideias é contemplado pela razão.

Nas relações afetivas, o desejo não nos impulsiona apenas para alcançar o outro como objeto. Mais que isso, o desejo exige a relação em que se busca, sobretudo, o reconhecimento do outro. O amante não deseja se apropriar de uma coisa e sim, deseja capturar a consciência do outro. A relação amorosa se funda na reciprocidade, ou seja, desejamos o outro como ser consciente que também nos deseje. O filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1881), compreende a consciência de si como desejo de reconhecimento. Isso significa que no amor, quando um corpo se estende em direção a outro corpo, exige que esse corpo, que ele deseja também se estenda; porque amar é desejar o desejo do outro. Todavia, o amor é o convite para sair de si. Se a pessoa estiver muito centrada nela mesma, não será capaz de ouvir o apelo do outro. No entanto, se uma criança procura com naturalidade quem melhor preencha suas necessidades, se esse procedimento persistir na vida adulta, torna-se impedimento para encontros verdadeiros. Esta pessoa ira viver um amor idealizado, em parte fruto do medo de lançar-se nas contradições do exercício efetivo do amor.

O temido risco de amar para muitos é a separação. Mergulhar na relação amorosa supõe a possibilidade da perda. Para o psicanalista austríaco Igor Caruso (1914-1981), a separação é a vivência da morte numa situação vital. A morte do outro em minha consciência e a vivência de minha morte na consciência do outro. Quando deixamos de amar ou não somos mais amados; ou, ainda se as circunstâncias nos obrigam à separação, mesmo assim o amor recíproco permanece. Se a perda é sentida de forma intensa, a pessoa precisará de um tempo para se reestruturar, porque, mesmo quando conseguiu manter a individualidade, o tecido do seu ser passa inevitavelmente pelo ser do outro. Há um período de luto a ser superado após a separação, quando ambos estão buscando novo equilíbrio. Uma das características mais evidente do individuo maduro é saber integrar a possibilidade da morte no cotidiano da sua vida. Porém, ao falarmos em morte, não nos referimos no sentido literal da palavra, mas, nas diversas mortes ou perdas que permeiam nossas vidas. Mesmo nas relações duradouras, as pessoas mudam, e a modificação do tipo de relação significa consequentemente a perda da forma antiga de dialogar com esse sentimento chamado amor. A moda antiga de expressar o amor também está se despedindo do nosso meio romântico. O chamado amor cortez está fora de moda.

Portanto, com o afrouxamento dos laços familiares e aqui não estamos analisando as causas e muito menos procurando uma justificativa. O chamado clássico encontro amoroso está ficando de fora, não é mais prioridade nas relações afetivas. Com o advento da comunicação, que em tese deveria melhorar as relações afetivas, lançou as pessoas em um mundo onde elas contam apenas consigo mesmas. Hoje vivemos um mundo da satisfação imediata, do prazer aqui e agora, o desejo de emoções fortes substitui os amores ternos cuja intensidade passional certamente se atenua com o tempo, pois a paixão é fugaz por natureza. Contudo, é bem verdade que se o amor se funda no compromisso e se as pessoas cada vez mais tem medo da dor, do sofrimento, do risco de perda, o que resulta são as relações superficiais, os amores breves. Relações sem diálogo, sem colorido e sem vida. Na era da comunicação e da informação rápida, existe um contingente enorme de pessoas alimentando-se do amor descartável. Um amontoado de seres robóticos. E junto as relações humanas estão indo para o abismo.      

31 de janeiro de 2015

O AMOR ROMÂNTICO ESTÁ SAINDO DE CENA

Para o filósofo e teólogo judeus Martin Buber (1878-1965) dividiu as relações humanas em dois tipos: O eu-você e eu-isso. O primeiro representa as relações amorosas, à troca e a reciprocidade. Enquanto no segundo é marcado por relações possessivas e manipuladoras, isto é, pessoas que se relacionam com o outro como se este fosse um objeto. Todavia, uma relação saudável precisa principalmente de interação eu-você, mas frequentemente cometemos o erro de tratar as outras pessoas como coisas, criando uma dinâmica eu-isso. Uma maneira ante social e desrespeitosa que denota poder e que certamente resultará em rivalidade. Como dizia Platão: “só te ama aquele que ama a tua alma”. Na nossa definição o amor é completamente diferente do sexo. Amor é paz e aconchego. Na verdade, amor é o sentimento que tenho pela pessoa, cuja presença provoca em mim sensações agradáveis. Não sei explicar, mas, sei sentir.  

No entanto, o nosso primeiro objeto de amor seria a mãe que provoca desde o nascimento essa sensação de paz e aconchego. Quando nos pegava no colo. Este aconchego não tem nada a ver com a estimulação erótica. Talvez por isso mesmo que Sigmund Freud (1856-1939), tenha tão insistentemente falado na ideia de sexo como impulso vital por excelência. Para o psiquiatra Flávio Gikovate (1943), o amor é um impulso que surge desde os primórdios da vida, ou seja, com o nascimento. É responsável pela paz e harmonia que a criança sentiu de alguma maneira durante o período uterino, isto é, o amor como busca de harmonia através da aproximação física e espiritual com o outro. As manifestações da sexualidade surgem pela primeira vez no fim do primeiro ano de vida, quando a criança começa a se reconhecer como entidade autônoma, como independente da mãe e começa pesquisar o próprio corpo. Com o passar dos anos, nos desligamos dela e buscamos outra pessoa para ser o nosso par na aventura romântica. Uma vez escolhido, só serve aquele parceiro. Sua substituição é possível, mas, lenta e dolorosa. 

Entretanto, o sexo é um fenômeno de desequilíbrio, ao contrário do que acontece com o amor, que é um fenômeno de equilíbrio e aconchego. O sexo é um impulso que se manifesta pela primeira vez no fim do primeiro ano de vida. É o momento em que a criança começa a perceber com mais clareza que não está grudada na sua mãe, que não é uma parte dela. Começa a perceber a sua individualidade, e passa a pesquisar-se. É o período em que a criança, ao se tocar inteira, percebe que as sensações variam conforme a parte do corpo que é tocada. Percebe bem claramente que a região correspondente aos órgãos genitais provoca uma sensação muito especial, uma inquietação agradável, à qual chamamos de excitação sexual. É muito importante perceber que as primeiras sensações de natureza sexual se dão quando a criança, sozinha está pesquisando o seu corpo. Trata-se de um fenômeno pessoal, individual e que foi denominado autoerótico por essa razão. Porém, diferentemente do amor, que sempre envolve outra pessoa, o sexo é, nas primeiras descobertas infantis, uma manifestação individual.

A diferença é que a paz derivada do amor depende sempre da existência de outra pessoa, o objeto específico do nosso sentimento; por sua vez, o sexo é um processo pessoal, autoerótico e, ao menos na infância, totalmente independente de um objeto específico. Sigmund Freud acreditava que o amor era uma manifestação sofisticada, mais intelectualizada, do impulso sexual. Ele chamava esse processo de sublimação, ou seja, a transformação de um impulso mais grosseiro em algo mais sublime, mais especial. Essa transformação é o efeito da nossa razão sobre o fenômeno mais físico, mais animal, da sexualidade. Transformamo-nos em produtos sublimados. A verdadeira história da evolução da nossa espécie e a passagem de um modo de vida primitivo, nômade, para as organizações sociais complexas em que vivemos hoje, ainda estão longe de ser conhecidas. A verdade é que foi uma história difícil, cheia de sofrimentos internos e externos. Os sofrimentos externos derivaram do fato de que a terra não era um local tão apropriado para a nossa espécie. Tivemos de aprender a nos defender dos outros animais, do frio rigoroso, da escassez de alimentos.

Se hoje temos casas confortáveis, alimentos preservados para consumo durante o inverno e condições objetivas de combate às doenças e às dores, essas são as conquistas da quais podemos nos orgulhar. O planeta está muito mais adequado às necessidades humanas do que a selva original que aqui encontramos. Para conseguirmos avançar na conquista do meio externo, tivemos de nos agrupar em núcleos sociais cada vez mais complexos e organizados. Esses grupos impuseram severas limitações à expressão da nossa natureza instintiva, ou seja, nossa natureza mais animal. Muitos dos desejos que surgiram e ainda surgem espontaneamente, graças à nossa biologia, tiveram de ser proibidos. A palavra que se usa em psicologia para isso é repressão. A repressão, quando muito forte, tira o desejo até da nossa consciência e cria assim outra parte da nossa subjetividade, que é chamada de inconsciente. Este por sua vez contém os desejos que a nossa razão consciente não aceita. E não aceita por causa da repressão, que inicialmente é externa, isto é, social e depois se transforma em interna, pessoal.

Portanto, a fantasia do amor romântico, exaustivamente declamado por trovadores e poetas, baseava-se na dependência dos amantes. Por essa razão a fantasia não consegue satisfazer os anseios daqueles que pretendem se relacionar com seus parceiros de maneira autêntica e viver de forma mais independente. A tendência hoje é o desejo de viver um amor baseado na amizade. Para isso, são necessárias novas estratégias, novas táticas por meio de experiências nunca antes tentadas. Para conhecer o outro, é preciso um encontro sem idealização, reproduzir o passado não é mais suficiente. Muitos gostariam de inventar uma nova arte de amar, e pela história fica claro que existem precedentes, portanto, é possível fazê-lo. Como diz a psiquiatra e educadora Regina Navarro Lins (1948), o amor romântico começa a sair de cena, levando com ele a idealização do par romântico, com aquela ideia de que os dois se transformem num só e, consequentemente, a ideia de exclusividade. Contudo, abre-se a possibilidade de se amar e de se relacionar sexualmente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Essa nova forma de amar, diferente da expectativa do amor romântico, de sermos a única pessoa importante para o outro, que terá como ingrediente principal o companheirismo e a solidariedade. Aquele amor que nascia de um simples olhar está com os dias contados. O amor romântico está morrendo na sua origem e deixando como seu precursor o sexo, tendo em vista, que o amor romântico é uma invenção social e cultural. 

27 de janeiro de 2015

UM CONVITE AMOROSO E SEDUTOR

Com o passar dos anos venho aprendendo cada vez mais sobre a importância do amor na vida das pessoas. Muito do que escrevi sobre essa temática resulta de minha experiência como educador, com os jovens e adolescentes. Por outro lado a minha vivência junto às pessoas de diversas atividades, em diferentes cidades, principalmente aquelas que visito para divulgar o meu livro ou dar oficina de leitura. Porém, outro tanto soma com o meu conhecimento acadêmico, mais precisamente com os filósofos e pensadores que entrei em contato através da literatura. Tratam da questão do amor com profundidade. Entre tantos cito alguns, a começar por Platão (427-347 a.C.), Arthur Schopenhauer (1788-1860), Michel Foucault (1926-1984) e o educador Leo Buscaglia (1924-1998).

Os relatos contidos nesta reflexão objetivam enfocar as situações tal qual acontece no cotidiano das pessoas. As modificações realizadas para a apresentação neste ensaio têm como função preservar a intimidade a mim confiada, dentro ou fora do campo educacional. Evidentemente, que também implica a minha experiência como homem apaixonado e que viveu um pouco desse êxtase no paraíso dos amantes. Também tive minhas experiências amorosas como muitos. Hoje posso dizer que sei um pouco do amor, esse nobre sentimento que faz bem a nós humanos, pois sem amor a vida não tem sentido, o nosso combustível para viver em paz é o amor. Porque o amor é paz e aconchego.

De modo algum esta reflexão significa sabedoria sobre o tema amor. Indica sim, empenho de compreender o amor, sentimento profundo e essencial à vida, embora parcamente estudado nas escolas e universidades, onde o educando é levado, em geral, a uma formação dessensibilizada para a afetividade. A educação praticada hoje está longe da comunicação amorosa, quer nas famílias, quer nas instituições educacionais. Em geral, o academicismo, desnudo de sentimentos mais elevados, embota a consciência integral, impedindo a manifestação do ser cósmico que transcende qualquer pensamento. O amor é um impulso de vida, portanto, incontrolável e irracional. Minha mensagem é simples: “o melhor prazer ou presente do mundo é um ser humano caloroso, vibrante, que nunca esgota”. O verdadeiro amor é um fenômeno humano.

A maioria dos centros educacionais funciona como espaço de imposição e transmissão do conhecimento, quando poderiam constituir lugar de encontro e de apropriação do saber. Nesta estrutura, cabe aos jovens apenas a assimilação de conteúdos com o mínimo de questionamento e envolvimento. Até porque o ser humano se manifesta não apenas pela racionalidade, mas também pelos sentimentos. É a integração harmonizada entre pensar e sentir que lhe garante a condição de consciência e transcendência. Os centros educacionais na sua maioria informa, mas não forma. O amor tem sido realmente ignorado pelos professores. As pesquisas nos mostram. Este assunto pouco ou quase nada se fala nos livros de psicologia, sociologia, antropologia e muito menos na filosofia.

Entretanto, esta reflexão é uma evocação do que pode haver de melhor em cada um de nós. Como diz o filósofo e educador Cesar Nunes: “somos um corpo sexualizado, é com esse corpo que nos apresentamos”. É um voto de confiança ao ser humano na sua totalidade cosmológica. É a certeza de que podemos contribuir para a estruturação de uma nova etapa da humanidade, em que o amor seja a linguagem predominante. De modo geral, somos incentivados ao cultivo do medo, do negativismo, da baixa autoestima e, sobretudo do egoísmo. Aqui desejo reforçar a ideia de que podemos transformar nossas vidas em projeto amoroso ainda que o contexto apresente dificuldades. Quero acreditar que o amor nos chega através de alguma força misteriosa da vida.

Portanto, somos capazes de alcançar estados mais elevados de consciência. Tudo depende de reconhecer o estágio em que nos encontramos e buscar, com discernimento, novos rumos existenciais. Seguir em frente, com vontade inquebrantável, cultivando expressões amorosas, permite a descoberta do amor e sempre mais amor em nossas vidas. Não é somente por meio do intelecto que evoluímos; fazemos, sobretudo pela amorosidade, processo integrativo de todas as potencialidades do ser, profundamente voltado para a sabedoria derivada da mãe natureza. Contudo, o antigo adágio grego escrito nos portais da escola socrática, “conheça-te a ti mesmo”, é a síntese de toda a busca de pacificação íntima, sem a qual ninguém pode amar de modo incondicional ou encontrar o amor em estado de mais pureza. Se o seu caminho é o amor, o fim não tem importância, o processo terá coração. 

17 de janeiro de 2015

AS FACES DO AMOR

O amor é um sentimento de inclinação e de atração ligando os humanos uns aos outros. É uma tendência da sensibilidade suscetível a transportar-nos para um ser ou um objeto reconhecido ou sentido como algo bom.  Em outras palavras, é a inclinação para uma pessoa, sob todas as suas formas e em todos os graus, desde o amor desejo (inclinação sexual) até o amor paixão e o amor sentimento. Todavia, o amor é uma emoção da alma causada pelo movimento do espírito, levando-a a unir-se voluntariamente a pessoa que lhe parece conveniente. No entanto, o amor é essa afeição que nos faz encontrar prazer na perfeição daquele que amamos. O amor é um sentimento que torna o homem bom.

O amor é fundamental para o homem e para a sociedade. Sem amor, o homem torna-se árido, incapaz de encantar-se com a vida e de envolver-se com os outros. Não se sensibiliza com o abandono dos velhos, a morte das crianças, a miséria do povo, poluição e a destruição do planeta, o roubo da cidadania, a morte dos ideais. Sem amor não há encontro, não há diferença; resta a escuridão do individualismo, do ser incapaz de relação. Por conseguinte, o amor é uma vivência que se manifesta de varias maneiras: amor materno, amor paterno, amor pela pátria, amor a si mesmo, amor erótico, amor a Deus, amor fraterno, amor pela natureza. Aqui nos limitaremos a tratar do amor erótico e do amor fraterno.

Todavia, quando se fala em amor, pensa-se logo no amor erótico, na relação homem-mulher, porque essa forma de amor envolve desejo, a busca de fusão e desenvolvimento a dois. O amor erótico pode ser compreendido nos planos biológico, psicológico e filosófico. Biologicamente, consiste na relação sexual e na procriação. Essa energia biológica manifesta-se, psicologicamente, em erotismo. Filosoficamente, exprime-se como busca de unidade, totalidade e comunicação.

O que é erotismo? É a transformação da energia sexual, biológica, em energia psíquica, ampliando consideravelmente a sexualidade. O homem é ao mesmo tempo corpo e psiquismo. As solicitações do corpo expressam-se também de maneira psíquica, produzindo um progressivo desdobramento da sexualidade, que passa a manifestar-se em vivência que aparentemente nada têm a ver com ela, como por exemplo: na arte, na ciência, no trabalho, na política e no envolvimento prazeroso com as pessoas e com o mundo. O amor erótico é muito forte, porque pressupõe o retorno do sentimento vivido: é um dar e receber que se manifesta no prazer da convivência com o outro sexo tanto no plano físico quanto no psicológico. O amor erótico quer exclusividade, porque os amantes pretendem serem únicos um para o outro, com reciprocidade, pois ambos buscam alimentar o amor que sentem.

O amor fraterno é o amor entre irmãos. O envolvimento fraterno estende-se à humanidade como um todo. Como em qualquer outra forma de amor, a base do amor fraterno é o amor a si mesmo. A frase bíblica: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, e a frase socrática: “Conhece-te a ti mesmo” atestam secularmente esse fundamento. Por conhecer como um ser dotado de valor e dignidade é que o homem pode perceber no semelhante característica similar que o leva a admirá-lo e a amá-lo como igual. Neste tipo de amor fraterno é que possibilita a solidariedade e a compaixão, buscando o desenvolvimento integral do homem, sua libertação, sua autonomia. É próprio desse amor não haver dominador nem dominado. Sua principal característica é o compromisso com o outro. E, por solidarizar-se com o outro, vendo nele um irmão, essa forma de amor possui uma conotação política: não permite a segregação e a discriminação por raça, cor, sexo, credo, nacionalidade. É movida pelo desejo justiça, igualdade de oportunidades e efetivação da dignidade humana: “ama a todos sem exclusividade”.

Entretanto, se quiser viver é amar o amor, ou não amar nada. Isto implica em amar o amor ou morrer sem amar. É por isso que o amor e não o suicídio é o único problema filosoficamente sério. Para o escritor, dramaturgo e filósofo francês, Albert Camus (1913-1960), só existe um problema filosófico verdadeiramente sério que é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. Nesta linha de raciocínio a pergunta é a seguinte: “A vida vale a pena ser vivida?” O suicídio suprime o problema muito mais do que o resolve; somente o amor, que não o suprime resolve-o mais ou menos, enquanto estamos vivos, e nos mantém em vida. Se a vida vale ou não a pena ser vivida, se vale ou não vale, melhor dizendo, o prazer de ser vivida, depende primeiro da quantidade de amor de que somos capazes. Penso que Camus se equivocou ao afirmar que é o suicídio que necessita de uma reflexão filosófica. Pois o amor é o combustível da vida. Este sim precisa ser pensado e repensado. Ora, a felicidade é um amor feliz, ou vários; a infelicidade, um amor infeliz ou nenhum amor. Muitas doenças de fundo emocional caracterizam-se primeiro pela “perda da capacidade de amar”. Inclusive de amar a si mesmo. Não é de espantar se ela costuma ser suicida. O amor é que faz viver, já que é ele que torna a vida amável. É o amor que salva; é ele, portanto que se trata de salvar.

Portanto, ao nascermos aprendemos a dar, pelo menos um pouco, pelo menos às vezes, o que é a única maneira de ser fiel até o fim ao amor recebido, ao amor humano, nunca humano demais, ao amor tão fraco, tão inquieto, tão limitado, e que é, no entanto como que uma imagem do infinito, ao amor de que fomos objeto e que nos fez sujeitos, ao amor imerecido que nos procede, como uma graça, que nos gerou, e não criou, ao amor que nos ninou, levou, alimentou, protegeu, consolou, ao amor que nos acompanha, definitivamente, e que nos falta, e que nos regozija, e que nos perturba, e que nos ilumina. Se não fossem nossos pais, o que saberíamos do amor? Se não houvesse amor o que saberíamos da vida? Negar os pais é ao mesmo tempo negar e suicidar o amor. Só encontro a felicidade quando reconhecer a existência a partir dos meus pais. Ao negar os nossos pais estamos negando a nossa existência. Concluo com as seguintes declarações de amor. Há o amor segundo Platão (427-347 a.C.): “Eu te amo, tu me fazes falta, eu te quero”. Há o amor segundo Aristóteles (384-322 a.C.) ou Spinoza (1632-1677): “Eu te amo; és a causa da minha alegria, e isso me regozija”. Há o amor segundo o que penso ser: “Eu te amo como a mim mesmo, que não sou nada, ou quase nada, eu te amo como Deus nos ama, se é que ele existe, eu te amo como qualquer um; ponho minha força a serviço da tua fraqueza, minha pouca força a serviço da tua imensa fraqueza”. Contudo, negar o amor é negar a vida.

A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele m...