14 de dezembro de 2021

O AMOR FORJA AFETO E PREVINE DO CINISMO

Descrevo aqui qual o meu conceito sobre o amor e como o vejo nas relações com as pessoas e com a natureza. No entanto, quem ama colore o vento, perfuma o sol, tempera as horas. O amor forja afeto, previne cinismo, fortalece benignidade. Amantes não se contentam com o "cogito" definindo a nossa humanidade.

Quem ama, espera e suporta a tortura das ausências. Saudade é nome para o buraco que o tempo cavou na alma e não encontrou quem o preenchesse. Amantes são ingênuos. Deixam-se enredar e mal sabem que os cordéis do amor não se esgarçam facilmente. Nos atos falhos da alegria, os afetuosos nivelam o fosso em que se meteram devido a dor do abandono. O amor não se protege e nem protege.

Quem ama obedece sem ser ordenado, cumpre sem ser requisitado, aceita sem ser forçado. Quando disputam com o objeto do seu cuidado, não se importam em chegar por último – embora sejam sempre vencedores. Eles abrem mão de prerrogativas reais que os autorizariam usar força. Amar é ceder lugar, dividir e compartilhar, lavar os pés em gesto de humildade.

Quem ama perde o medo. Os afetuosos desdenham o que ameaça seus sentimentos: tempo, abismo, acaso e a morte. Para quem ama, o ócio nunca parece pecado. Os afáveis consideram ganho, uma tarde na beira da praia para ver o pôr do sol, uma semana entre os pobres ou conversando com os dependentes químicos e as prostitutas. Joga teu preconceito no lixo antes que ele te jogue.

Quem ama transgride. Os amigos são paradoxais. Pelo objeto do amor, desdizem o que um dia afirmaram categoricamente. Rasgam a lei para evitar um apedrejamento. Quem ama perde o receio de passar por tolo. Não têm vergonha de abraçar a prostituta indigna. Quem ama sofre. Amor e paixão partilham de uma mesma raiz.

De modo que não existem amantes tranquilos. O amor abre frestas em armaduras. No verbo amar, descansa a recusa de manipular. Os amorosos sonham com retornos pródigos. Nunca traem. Riscam a infidelidade de suas lógicas. Quem se atreve a amar se expõe a rejeições.

Quem ama conversa com as estrelas. Para os que se entregam, as paredes ouvem. Só eles gostam de monologar diante de espelhos. Insistem em escrever cartas de amor ridículas – que jamais poderiam ser publicadas. Eles enxergam beleza em véus encardidos, folhas secas, águas paradas, prados amarelecidos, dias chuvosos, pardais cinzentos, grãos de mostarda.

Portanto, como diz o teólogo Ricardo Gondim (1954): “quem ama nota Deus no rosto do pobre”, vou um pouco além: “também do meu próximo, tendo em vista que tudo que vive, torna-se o meu próximo”. O amor torna qualquer ambiente agradável e prazeroso. O anjo da guarda, que rodeia os amantes, não voa e nem ostenta força. Sua missão consiste em zelar pelos corações compassivos e amorosos. O amor é dom que precisa de proteção e cuidados.

12 de dezembro de 2021

OS IMPULSOS INSTINTIVOS COMO VONTADE DE VIVER

Na medida em que o individuo vai ampliando, aprofundando e diversificando sua vida amorosa e afetiva, vai ganhando coragem para fazer mais coisas. Começa a viver com mais vontade, alegria, esperança e decisão. Começa a ter pelo que viver. Pode até começar a ficar perigoso.

O amor da mais coragem e como a doença de todos é o “medo”, o amor é o remédio. Não deve ser à toa nem por acaso que as forças repressoras de todas as épocas se voltaram tão sistemática e precisamente contra o amor e a sexualidade humana.

Para as ciências humanas, se o ser humano não for castrado na origem ele não se socializa. Os sistemas sociais, até o presente, têm sido quase sempre por demais coercitivos, restritos e estreitos nas ideias. Isto é, aquilo que cada sociedade aceita como realidade, tem muito pouco de realidade.

Porém, aquilo que toda sociedade exclui como não real, como impróprio, como perigoso, inadequado ou pecaminoso, é quase sempre muito bom para o desenvolver humano nas suas relações. Seja afetivas, amorosas ou de aptidões. Uma compreensão abrangente do mundo contemporâneo.

A sexualidade está próxima do centro da humanidade em geral e de cada homem e de cada mulher em particular. Sobretudo, próxima da coragem e da covardia civil, da decisão e do se deixar levar, do assumir a própria vida ou do vegetar anonimamente.

O costume social nos obriga aos poucos a ver os poderosos, desde o pai autoritário que são muitos, até ao Presidente da República, como pessoas mais ou menos impecáveis. A visão tradicional nos apresenta a mãe, por exemplo; como verdadeira Deusa, quando sabemos bem quão humanas e fracas são.

Por conseguinte, falo dessa conexão do mito com as pessoas, certamente bastante limitadas e cheias de defeitos. Só podem expressar com liberdade os estímulos sociais, os estímulos naturais, de impulsos instintivos de sobrevivência são reprimidos. Não podemos falar e contudo, fingimos uma felicidade que não existe. E com isso nos afundamos nas “neuroses de angustias”, por reprimir impulsos tão naturais e importantes para a nossa saúde mental, por conta dessa vigilância, chamado Superego.

11 de dezembro de 2021

VIVEMOS NUM MUNDO MARCADO PELA INTOLERÂNCIA

É do conhecimento de todos, que vivemos num mundo onde existem o bem e o mal. Para o filósofo francês, Jean Jacques Rousseau, o ser humano é bom por natureza, ele se corrompe ao viver em sociedade. Diz Rousseau: “como seria doce viver entre nós se a contenção exterior representasse sempre a imagem das disposições do coração”. Afinal, o que anda acontecendo de errado com as relações humanas, que na maioria das vezes chegam a ser desumanas?

Diariamente convivemos com pessoas, muitas delas até bem humoradas e cordiais. Mas num dado momento nos defrontamos com alguém que de repente, temos a mais profunda certeza de que precisamos inteiramente dessa pessoa, para estar sempre em nossa companhia. Sem entender muito bem as razões, como se fosse num passo de mágica, descobrimos que estamos encantados por essa pessoa. Por que essas coisas acontecem dessa forma? Subitamente temos a certeza de que nossa vida só terá sentindo vivendo esse sentimento nobre e, o mais curioso de tudo isso é, que não sabemos o porquê.

Martin Buber, filósofo judeu, preocupou-se profundamente com o tema das relações humanas e ele sugeria que os educadores ensinassem os jovens a conviver com o próximo. A base de seu pensamento é o diálogo, como única saída para convivermos bem em sociedade e, particularmente, nas relações interpessoais. Dessas que de repente nos pegam pelo coração e nos arrebatam de maneira inexplicável.

No entanto, vivemos num mundo dividido e marcado pela intolerância e pela violência. O ser humano está perdido na massa, abandonado na sua solidão e, ao mesmo tempo, tomado pela esperança. Sonhando em realizar aquilo que só ele é capaz, que é viver uma sólida relação amorosa. É o sonho de todos nós. E por que é tão difícil cultivar relações assim? Será que falta dignidade para o ser humano?

Martim Buber montou duas expressões compostas para explicar o sentido dessas relações humanas. O Eu-Isso e o Eu-Tu, tendo em vista que o Eu-Isso é para designar toda relação de uma pessoa com o seu mundo exterior, o objeto, as coisas, o descartável. E o Eu-Tu para dar nome às relações de uma pessoa com outra pessoa, isto é, com alguém que fosse realmente percebido como pessoa. Essas duas expressões compostas são muito importantes, pois é em torno delas que vamos desenvolver toda uma compreensão acerca das relações humanas, em particular, a relação amorosa que é a mais difícil de lidar.

Entretanto, a relação de cada um de nós com o mundo, na maioria das vezes, é praticamente coisificada, lidamos com os nossos semelhantes como se fossem coisas, um objeto. Numa relação Eu-Isso. É evidente que no início das relações é inevitável nos comportarmos assim. É perfeitamente compreensível que qualquer relação nova comece na base do Eu-Isso, porque o outro começa sendo para mim uma interrogação, como que uma coisa que quero conhecer, mas que ainda não conheço. Só depois de alguma aproximação, essa pessoa vai-se tornando para mim, de fato, uma pessoa.

Então, a partir de agora, será possível e necessário atingir a relação Eu-Tu, sem a qual o mundo humano não se realiza. Existem pessoas, que por uma infeliz história de vida ou por viverem num mundo brutalizado e insensível, não conseguem, nem com maior aproximação ultrapassar a relação Eu-Isso. Buber diz: “nenhum ser humano pode viver sem o Isso, mas aquele que vive só com o Isso, não pode se dizer humano”.

Portanto, é fundamental que tenhamos abertura para sentimos e acolhermos o nosso semelhante como alguém que, como nós, tem alegria e sofrimentos, direitos e deveres; alguém que mereça aquela mesma dedicação e aquele mesmo carinho que desejamos para nós. É importante lembrar que "Isso" é uma pequena palavra que podemos dizer com uma parte apenas do nosso "Ser". Mas "Tu" é uma palavra ainda menos que, no entanto, só podemos pronunciar com o nosso Ser inteiro no momento do encontro amoroso. Onde nos completamos no Eu-Tu. Nesse momento somos fortes e frágeis porque o amor vive da fragilidade, vive da ternura, da capacidade brâhmica de você sair ao encontro do outro na expectativa que ele te receba. Contudo, essa é uma experiência única. É dar um pouco da tua vida ao outro, portanto, há de se encontrar o verdadeiro resgate da dignidade humana através da relação Eu-Tu.

8 de dezembro de 2021

O MITO DO CASAMENTO PERFEITO

Vivemos falando do casamento como o maior encontro da vida, quando, na verdade, todo mundo está cansado de saber que depois de algum tempo dentro do casamento as pessoas passam a aturar um ao outro. É como se fosse uma panela de pressão pronta para explodir a qualquer momento. A nossa sociedade influencia as relações matrimoniais a ponto de torná-las, em muitos casos, insuficientes para manter uma estrutura firme e íntegra, já que infelizmente ela foi pautada na ideologia do casamento perfeito. O casamento não foi feito para a felicidade humana, mas sim para haver uma  organização social. Casa-se na ilusão do amor eterno, de amar a vida inteira a mesma pessoa. Onde existe esse casal? Se o verdadeiro amor só constrói e tem como premissa a criação de laços que poderiam ser eternos, por que a maioria dos casamentos se destrói com o tempo? A maior parte dos casamentos, depois de algum tempo, passa por um desgaste tão grande que não resiste.

Penso que não existe sentimento pior quando no casamento, depois de algum tempo, as pessoas não conseguem se livrar dele. Quando estamos na companhia de casais que se odeiam, a fisionomia deles, nesta situação, fica de uma tal feiúra moral que nos apavora. O clima entorno dos dois infelizes é literalmente irrespirável, sobretudo, por acreditarem  que ambos têm razão. Como é difícil sair para jantar com um casal neste clima, chega ser constrangedor.

O rancor matrimonial, acima de tudo, amarra a pessoa, imobiliza como se o indivíduo tivesse caído numa teia de aranha, Quanto mais você se mexe, mais se amargura e mais raiva sente. Sentimentos que faz o casal brigar e o outro chorar. Além da ansiedade que instaura, nessa mistura nasce o rancor que é o pior dos sentimentos humanos. Mesmo o ódio que produz um assassino ou o policial que lança mão da tortura, ainda assim parecem ser sentimentos mais claros do que aquele que alimenta a união dos infelizes cônjuges. A pessoa parece que quer preservar, no casamento ou em família, esses sentimentos tão velados, esse processo dura anos, porque há uma predisposição dos envolvidos. Bem examinadas as queixas e acusações de um e de outro, o mais indicado seria a separação, antes que o rancor tome conta de todos na família,  ou que um deles acabe por matar também fisicamente um ao outro. Mas não pode, o que os outros vão pensar? E os filhos, como ficariam?

Quando vamos começar a dizer a verdade sobre o casamento e a família? Dizem que a família é a “célula mater” da sociedade. Então, como explicar as razões de tanta violência em nossa sociedade? Todos nós viemos de uma família. Sabe-se que a harmonia ou o caos em família é o resultado das relações que seus membros mantêm entre si. No entanto, alguma coisa está errada com o casamento e posteriormente com essa nova família.

O bom casamento é aquele que os dois comungam dos mesmos valores, pois o casal tem muito o que fazer na rotina do seu dia a dia, aí quando os dois se encontram fica interessante o diálogo. Na verdade, os laços matrimoniais têm mais vantagens materiais do que valores amorosos. Penso que o principal fator de briga no casamento é a indiferença recíproca. Uma das coisas mais preciosas num relacionamento pessoal é a admiração que se tem pelo outro, de atitudes, de pensamentos, do jeito de ser e tratar. O outro torna-se a nossa “referência afetiva”, mantêm viva a sensualidade e a excitação. A indiferença chega a ser uma espécie de desprezo, o contrário do respeito. É olhar para o outro como se fosse um asqueroso. Como diz Caetano Veloso numa de suas canções: “De perto ninguém é normal”. Todos nós temos defeitos que só mostramos no casamento, quando passamos a viver em família. Com as pessoas de fora somos educados e gentis.

No casamento, as pessoas vivem por muito tempo juntas, dormem, levantam. Final de semana, estão juntas. Logo começam a ver coisas desagradáveis e muito ruins uma na outra. Mesmos os pequenos hábitos, de dormir sem tomar banho, os cuidados com objetos pessoais, ou querer ficar só vendo televisão aos finais de semana, etc. São essas coisas que vão irritando as pessoas. Hábitos difíceis de serem mudados, porque ambos ficam indiferentes a esses comportamentos, meio que hipnotizados.

No casamento existem muitas falhas, principalmente em se tratando de educação dos filhos. Pais que dão liberdade total ou são autoritários ao extremo. Quando a grande imagem de pai ou de marido, começa a se desmanchar, porque ele não é um bom marido ou um bom pai. E aqui vale para as esposas também. Em vez dos membros da família terem admiração pelo ser humano que é, apesar das falhas que todos temos, pois ninguém é perfeito. Não! Começa o desprezo, as piores brigas, deprimentes, humilhantes. E todos em família têm que aguentar isso. Porque afinal de contas, estão todos presos, nesse clima ruim e não podem fazer nada, nem falar mal do casamento. Se um dos cônjuges pensa em separação, uma santa alma diz: “não faça isto, se é ruim com ele, pior sem ele”. E os filhos? Não existe pior veneno para os filhos, do que esse ódio recíproco dos adultos.

Portanto, uma vida sem amor ou sem uma “referência afetiva” pelo menos, é como viver num deserto sem água para beber e sem ar puro para respirar. É como viver uma vida de obrigações. E vida de obrigações ninguém aguenta. São essas obrigações que produzem a maioria das doenças graves. O que se espera do casamento é uma coisa completamente absurda. As pessoas aguentam anos após anos essa situação insuportável, vivendo uma vida de sacrifício para não magoarem a outra. São verdadeiros camelos atravessando um deserto. Enfim, paz na terra aos homens casados cada um com a sua esposa, porém, todos cobiçando a mulher do próximo e todos se vigiando e se controlando para impedir o encontro que todos desejam.    

6 de dezembro de 2021

A BELEZA É A SOMBRA DE DEUS NO MUNDO

Ocorreu-me uma história interessante sobre três homens que olhavam para o horizonte. O sol se anuncia colorindo de abóbora e sangue umas poucas nuvens escuras. Um deles diz: “Vejo, no meio das nuvens vermelhas, uma casa. Na janela, um vulto acena para mim”. O segundo homem diz: “Vejo, no meio das nuvens vermelhas, uma casa. Mas não há nenhum vulto acenando para mim. A casa está vazia, é desabitada”. O terceiro homem diz: “Não vejo vulto, não vejo casa. Vejo as nuvens abóbora e sangue... E como são belas! Sua beleza me enche de alegria”!

Essa é uma “parábola metafísica”. O primeiro homem vê, no meio das nuvens, um vulto, quem sabe o senhor do universo. Se eu gritar, ele me ouvirá. Para isso há as orações: gritos que pronunciam o nome sagrado, à espera de uma resposta. O segundo vê a casa, mas a casa está vazia, não tem morador. É inútil gritar, porque não haverá resposta. Esse é o ateu. E como dói viver num universo que não ouve os gritos dos homens. O terceiro, que não vê nem casa e nem vulto, vê apenas a beleza. Que nome daríamos a esse terceiro homem. Penso que o nome correto seria: “Poeta”!   

A beleza é o Deus dos poetas. Quem disse isso foi a poetisa Helena Kolody: “Rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo”. Borges relata que, segundo o panteísta irlandês Scotus Erigena, a Sagrada Escritura contém uma infinidade de sentidos. Por isso, ele a comparou à plumagem irisada de um pavão. Séculos depois, um cabalista espanhol disse que Deus fez a Escritura para cada um dos homens de Israel. Daí por que, de acordo com ele, existem tantas Bíblias quantos leitores da Bíblia. Cada leitor vê na Bíblia a imagem do seu próprio rosto.

O filósofo alemão e teólogo Ludwig Feuerbach disse a mesma coisa de forma poética: “Se as plantas tivessem olhos, gosto e capacidade de julgar, cada planta diria que a sua flor é a mais bonita”. Os deuses das flores são flores. Os deuses das lagartas são lagartas. Os deuses dos cordeiros são cordeiros. Os deuses dos lobos são lobos. Nossos deuses são nossos desejos projetados até os confins do universo. Dize-me como é o teu Deus e eu te direi quem tu és.

Mosaicos são obras de arte. São feitos com cacos. Os cacos, em si, não têm beleza alguma. Mas, se um artista os juntar segundo uma visão de beleza, eles se transformam numa obra de arte. As Escrituras Sagradas são livros cheio de cacos. Nelas se encontram poemas, histórias, mitos, pitadas de sabedoria, relatos de acontecimentos portentosos, textos eróticos, matanças, parábolas, etc. Ao ler as Escrituras, comportamo-nos como um artista que seleciona cacos para construir um mosaico. Cada religião é um mosaico, um jeito de ajuntar os cacos.

Portanto, como no caso do labirinto literário de Borges cujos cacos eram peças de um quebra-cabeça que, juntos, formavam o seu rosto, também o mosaico que formamos com os cacos dos textos Sagrados tem a forma do nosso rosto. Há tantos deuses quanto rostos há. Assim, quando alguém pronuncia o nome "Deus", há de se perguntar: "Qual"?  Enfim, hoje daria tudo que sei, pela metade do que ignoro. 

4 de dezembro de 2021

O CIÚME É UMA PAIXÃO DEMOCRÁTICA

Podemos dizer que o ciúme é uma paixão democrática, porque não isenta nenhuma classe social, faixa etária ou nível cultural. E as pessoas seguem levando seus ciúmes ao auge da loucura e aos tribunais de justiça. São milhares pelo mundo afora. Da filosofia à poesia, passando pela mitologia e através das teorias psicanalíticas, não cansamos de procurar uma resposta que explique o ciúme, que particularmente a meu ver e de muita gente boa, o ciúme é o pior sentimento humano, porque ele impede a generalização do amor.

Entretanto, o ciúme supõe algo onde não há nada para justificá-lo. Essa suposição e a forma como se da revelam o que aquela pessoa pensa sobre a outra quando ama alguém. O ciumento interpreta mal, apesar de estar em busca de compactuar com o desejo de proteger o suposto amor. Por essa atitude ele se mostra, antes de tudo, um pensador meticuloso referente às suas fantasias.

Pequenos detalhes, como um tom de voz, uma palavra fora do contexto, pensar para responder, já está armada desconfiança. Inicia-se o processo de vigilância, de busca de certificações, suspeitas. Flagrar o ato criminoso torna-se a sua maior obsessão. A confissão do suposto traidor é esperada e temida ao mesmo tempo, mas sobretudo obrigatória. Quanto mais doentio for o ciumento, maior será a sua engenhosa reflexão, com métodos rigorosos que até as roupas são vistoriadas e cheiradas pelo ciumento.

Podemos avaliar a posição daquele que é tomado pelo ciúme a partir de duas vertentes. De um lado, o que Freud chamou de “ciúme projetado”, de outro o “ciúme delirante”. No caso do ciúme projetado, o desejo de  trair é transferido para o outro. Trata-se de conter nele o que a pessoa não reconhece em si, ou que reconhece e atualiza na forma de infidelidade e culpa. O equívoco deste tipo de ciúme é a suposição de que há simetria do desejo, ou seja, correspondência amorosa. Alguns chegam mesmo a se sentirem denunciados pelo ciúme. Afinal, como posso sentir ciúmes se não preciso dele?

Deixar o outro com ciúme é uma estratégia clássica de sedução, torna inevitável a confissão amorosa, que não deixa de ser um delírio do ciumento. Nos dois casos, o ciúme entra para propor o objeto, sugerir que ali se encontrará o preenchimento da falta. A outra metade da laranja. O ajuste das necessidades subjetivas dos que nele se envolvem, é aqui que se dá a raiz do ciúme.

Todavia, isso faz o ciumento traduzir o que sente num ato amoroso. Se te vigio, se te amedronto, se te mato, na verdade, é porque te amo. Talvez não exista mal maior que esse, “sinto ciúme porque te amo”, te torturo com o meu ciúme por amor. Que estranha satisfação é essa do ciumento crônico? Esse tipo de ciúme é uma perseguição do amor verdadeiro, que poderia vir a ser um amor de grandes qualidades recíprocas. E, no entanto, a ilusão do amor verdadeiro, nesse caso é tão enganosa quanto a evidencia dos fracassos de uma relação, depois que ela se interrompe, depois de ambos entenderem que era um falso amor. 

Segundo o psicanalista Jacques Lacan, amar é dar o que não se tem. Para o ciumento, a fórmula funciona ao contrário, possuir, prender o outro, não perder de modo algum. Garantir que todo o seu desejo tenha um único endereço. Não pode haver um terceiro. Por outro lado, o próprio ciumento sabe das dificuldades para controlar o incontrolável, que é a sua insegurança.

No entanto para Platão, ao contrário do que se pode pensar, amamos não o que o outro possui, mas o que lhe falta. Amamos um vazio, que tem a estranha capacidade de se deslocar entre as pessoas, ou seja, como dizia Carlos Drummond de Andrade: “Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque o amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo”.

É uma angulação pessimista do problema, mas que não deixa de ser romântica. Quais as consequências dessa tese para o entendimento do ciúme? Diríamos que é neste vazio, causa do amor, que o ciúme fabricará imagens e fantasias. Sobretudo, porque o ciumento com seu controle, consegue afastar a quem diz amar cada vez mais.

Portanto, o ciúme é uma emoção agressiva e não amorosa. A vítima do ciumento fica permanentemente prevenida e desconfiada, isto é, significa que uma parede se estabeleceu entre ambos. Começa a se reduzir toda possibilidade de intimidade, de confiança e de entrega. Contudo, se alguém disser que seu ciúme é sinal de amor, fuja desse amor, porque ele vai te consumir.

2 de dezembro de 2021

MATAMOS O AMOR E ENALTECEMOS O ÓDIO

Há mais de dois mil anos nascia um homem, chamado Jesus de Nazaré, que iria revolucionar o mundo. Trazia ideias profundamente renovadoras para a Humanidade, que seriam discutidas até hoje com profundidades. Mas ele pouco conseguiu. A não ser aumentar ainda mais o ódio daqueles que comeram do pão e do peixe. Sua mensagem era de amor entre as pessoas e paz na terra as pessoas de boa vontade. Mas esse homem não foi feliz no seu gesto de apaixonado pelo seu semelhante.

Na letra da música “Todos Estão Surdos” de Roberto Carlos, diz o seguinte: “Tanta gente se esqueceu que a verdade não mudou. Quando a paz foi ensinada pouca gente escutou”. A letra continua dizendo: “Meu amigo volte logo, venha ensinar o meu povo, o amor é importante vem dizer tudo de novo. Que o amor só traz o bem”, não se discute, todos sabem. “Que a covardia é surda e só ouve o que convém”, nós estamos cansados de saber, como muito bem diz a letra.  Agora, voltar a ensinar tudo de novo?

Aqui já é um caso para se pensar. Se voltar, na certa vão te crucificar de novo e com requintes de crueldades. Não vão querer saber se sua filosofia fala de amor. Todos querem ser amados. Mas quem quer amar o seu próximo, que sou Eu? Se tivesse Jesus pregado o respeito entre as pessoas, talvez o efeito fosse outro. Respeitar é mais fácil que amar.

Será que um dia as pessoas vão criar juízo e parar de espalhar o ódio e a tirania em torno de um sentimento tão lindo como o estado amoroso, os raros momentos de êxtases que temos na vida. Ou esse ódio é intrínseco na raça humana. Para o historiador Leandro Karnal, nós somos cordiais, que significa dizer: que em primeiro lugar nós agimos com o coração, inclusive quando odiamos. Nosso ódio também é cordial, passional. Historicamente o nosso mundo foi e continua sendo cercado por um ódio espantoso, implacável quando se trata de perseguição contra alguém.

Nosso medo precisa ser reeducado, basta ligar a TV para certificar a violência em qualquer de suas formas, quanto mais brutal, melhor. Será a volta do Circo Romano? Pessoas assistindo, vendo leões famintos comendo gente, como modelo e ideal de lazer. E hoje não é diferente, estão aí para constatar as lutas de Vale Tudo. Depois que se aprisionaram uns aos outros, sentindo-se todos na cadeia invisível, esperando interminavelmente pela execução.

Trazendo para o nosso mundo contemporâneo, a cadeia invisível que são os preconceitos, as exigências sociais e as condições de vida intoleráveis em que vivemos. Não é só a miséria e fome, é muito pior. São as relações humanas que precisam passar por um teste deveras crítico. Se não aprendermos algo um pouco melhor, a tratar o nosso próximo com respeito e admiração e assim atenuar um pouco esse ódio, vamos nos destruir efetiva e coletivamente mais rápido do que imaginamos.

A questão crucial da nossa história é que a violência é sempre do outro. Sempre achamos que o desrespeito e a maldade vêm do outro. Todos aqueles que têm a certeza são intolerantes. Se eles estão certos sobre suas ideias, por que vão ouvir as concepções diferentes de outras pessoas? O indivíduo que tem a certeza, não é aberto a novas ideias. São pessoas que vão ficando cada vez mais fechadas dentro de si mesmas. Torna-se insuportável a convivência com esse tipo de gente.

Ora, é fácil de entender o porquê se evita de falar do ódio, o porquê as pessoas têm horror de falar das coisas mais primitivas que existem dentro de cada um, que é essa raiva que sente um do outro. Não suportamos a ideia de saber que fazemos parte de uma categoria que é capaz de matar ou destruir, seja lá como for o seu semelhante. Assim fica difícil para entender o porque esse ódio permanece. No dizer do filósofo Thomas Hobbes, vivemos em estado de guerra, a violência de todos contra todos, somos naturalmente violentos. É muito difícil amar em comum, nós tentamos e até nos esforçamos. Mas é difícil. Agora odiar em comum é a coisa mais simples, é uma delícia execrar o outro.

Nossa habilidade infeliz de nunca dizermos o que desejamos com o outro, mas de cobrar do outro o que ele deveria fazer comigo. Somos sobretudo, covardes até para sentir prazer sexual, porque o sexo é o maior dos prazeres corporais e sempre o mais proibido e perigoso. Quando os amantes se desentendem, vem logo a frase chapada: “você só queria fazer sexo comigo”. Por que, não gostou? As pessoas falam como se fazer sexo fosse um sacrifício em nome do amor. Como as pessoas sofrem por nada. Que facilidade temos para destruir algo tão rico que são as trocas prazenteiras quando estamos encantados por alguém.

Portanto, encerro essa reflexão com um provérbio chinês que retrata essa reflexão e a minha esperança num mundo melhor e mais humano: “O ontem é história, o amanhã é um mistério, mas o hoje é uma dádiva, por isso que se chama presente”.      

A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele m...