22 de março de 2015

NO MUNDO DAS IDEIAS

Segundo o filósofo grego Platão (427-347 a.C.), acreditava que o mundo que conhecemos não é o verdadeiro. Para ele a realidade não está no que podemos ver, tocar, ouvir e perceber. A verdade para Platão, é o que não se modifica nunca, o que é permanente, eterno, sempre será, por estar numa dimensão espiritual onde só a razão pode tocar. Contudo, podemos afirmar que o amor é dos deuses. Quando se ama é na essência que o amor se faz encarnado. Para o filósofo pré-socrático Parmênides (530-460 a.C.), desde o nascimento até a morte somos únicos na essência. Mas como encontrar essa verdade? Na filosofia de Platão existem dois mundos: o primeiro é aquele que podemos perceber ao nosso redor, com os cinco sentidos, é o mundo das aparências. O outro é o mundo das idéias, onde tudo é perfeito e imutável. Não podemos tocá-lo, ele não é concreto. Só o pensamento pode atingir essas ideias. Para entender melhor, a gente precisa conhecer a história que Platão criou: “O Mito da Caverna”.

Para Platão a maior parte da humanidade se encontra prisioneira da caverna. Isto foi dito a mais de 23 séculos. Imagine um grupo de prisioneiros que nasceu no interior de uma caverna escura. Eles estão acorrentados de costas para a entrada da caverna e só podem olhar para a parede do fundo. A luz que entra na caverna projeta nessa parede as sombras e nada mais. Os prisioneiros acham que elas são a realidade. Nunca viram a luz. A vida das pessoas para Platão, é como a dos prisioneiros do mito, acorrentados no fundo da caverna. Vemos as coisas que conhecemos como se fossem reais, mas não passam de sombras, pura ilusão. Vemos, mais não enxergamos, muito comum no nosso dia a dia. Como disse Platão, a verdade está fora da caverna, no mundo das ideias, onde há luz. Ou seja, é preciso desconfiar do que os nosso olhos e ouvidos dizem. Devemos nos guiar pelo pensamento e pela razão. Foi em torno dessa ideia que nasceu a filosofia (século V a.C.).

O filósofo grego foi ainda mais longe. Platão afirmava que o corpo é o cárceres da alma, um obstáculo ao pensamento. Certa vez um aluno me falou sobre a alma: “eu não posso te falar o que é alma, porque nunca vi uma alma para dizer o que é”. Achei que era brincadeira. Mais não era, ele realmente falava sério, parecia não acreditar que um corpo pode ser informado por uma alma ou um espírito racional. Platão acredita que para atingir a verdade e o bem, precisamos nos libertar da sedução dos sentidos. O prazer de olhar e desejar, o prazer de comprar. Por exemplo, ao entrarmos num Shopping Center, podemos ficar hipnotizado pelas vitrines, pelas pessoas bonitas que tem poder e status, ou por aquele doce gostoso que tanto apreciamos. O pior é que, noventa e nove por cento do que existe la não precisamos. Mas mesmo assim compramos, porque o consumo virou um suporte do exercício de poder. Se compro é porque posso, estou afirmando o meu poder.

São os apelos do corpo que nos levam as paixões descontroladas e nos afastam da verdade. Platão dizia que estas paixões deve ser submetida às avaliações do pensamento. Mas afinal, qual a relação entre o mundo dos sentidos com o mundo das ideias? Tudo o que a gente ve e percebe ao redor são cópias mal feitas do mundo das aparências, sendo que a perfeição só existe no mundo das ideias. É como se a natureza e as pessoas fossem uma cópia de modelos que só existem no mundo das ideias. O que Platão quer com isso é distinguir o verdadeiro do falso, o semelhante do diferente, a essência da aparência. Tendo em vista, que Platão também desconfiava da arte e dos poetas.

Entretanto, o motivo dessa desconfiança é que eles seduzem os nossos sentidos e nos desviam da busca pela verdade. Tanto o artista como o poeta se inspiram em coisas que existem no mundo das aparências, isto é, cópias, como por exemplo, uma mulher bonita ou uma paisagem viva da natureza. Para um artista plastico, uma mulher é a cópia de um modelo perfeito, que só existe no mundo das ideias. A arte, portanto, seria cópia da cópia, duplamente enganadora. Se a arte é a cópia da cópia, imagina o que seria uma banda cover? As ilusões da arte atrapalham, enquanto a filosofia só ajuda, por nos fazer pensar. Porque só ela pode conduzir o homem ao bem e a verdade.

Portanto, o que a herança platônica nos deixou foi uma forma de avaliar o mundo, que opõe o bem e o mal a partir de modelos fixos, de ideias. Vivemos guiados por ideais, como o ideal do corpo bonito, de filhos perfeitos, de marido ou esposa exemplar. Mas, será que é possível atingi-los? Será que viver nas sombras é pior do que viver na luz como Platão imaginou? Será que a cópia é pior do que o original? Existe mesmo um original? Neste mundo de mudanças, o que existe são diferenças. E em nossas diferenças, somos todos originais. Cada um é sua cópia e sua essência. Nosso corpo envelhece com o passar dos anos, mas, para a essência o tempo não existe. Contudo, vivemos uma cultura da aparência. Hoje um contrato de casamento vale mais do que o amor. Um funeral vale mais do que o morto. As roupas de grife vale mais do que o corpo. E a missa passou a valer mais do que Deus. 

16 de março de 2015

O CANTO DO PÁSSARO SOLITÁRIO

Certa manhã estava caminhando por uma trilha entre árvores nativas e observei o canto solitário do pássaro João de barro, conhecido também como forneiro, pela característica do seu ninho ser em forma de forno. É a ave símbolo da Argentina, onde é chamado de “hornero” que quer dizer “Ave de lá Pátria”, desde 1928. Notei que seu cantar era triste e solitário. Por algum momento indaguei a sua solidão, talvez por conhecer um pouco dos hábitos desta ave. Acredita-se que o João de barro não aceita traição, contudo, pode acontecer que ele empareda dentro do ninho a fêmea que o tenha traído. Na verdade, tudo não passa de um mito, que pode ter surgido de dois fatos aleatórios.

O primeiro é de que alguns ninhos abandonados de João de barro são aproveitados por abelhas indígenas como a urucu-mirim, para fazerem sua colmeia. Elas fecham a entrada do ninho com cera, dando a impressão de ter sido fechado pela ave, que logo é percebido o engano. E a outra versão, que parece ser a verdadeira, foi contada por um amigo biólogo e pesquisador, que uma desta ave foi acidentalmente pega em uma ratoeira que lhe quebrou os dois pés. Após conseguir escapar, voou para o seu ninho onde entrou e não foi mais vista, ali morrendo certamente. Sendo que o outro membro do casal permaneceu por ali mais dois dias, chamando insistentemente pela parceira. Passado os dois dias ele também desapareceu e retornou dias depois com uma nova parceira e começaram a carregar barro para o ninho, fechando a sua entrada, em seguida construíram outro ninho sobre o primeiro e ali procriaram. Este fato demonstra uma qualidade do João de barro, por ter tido o cuidado de sepultar sua parceira.

É possível que esta história tenha muito de fantasia acabando muitas vezes com seu real sentido. Por outro lado, o ponto de partida para a nossa reflexão seria as relações humanas afetivas e amorosas, cuja metáfora é o casal de João de barro. Não pretendo contar mais uma estória de amor entre outras tantas. Mas contar a estória do nascimento e da vida do amor. Como diz os poetas e trovadores, o amor vive neste sutil fio de conversação, balançando-se entre a boca e o ouvido. O segredo do amor é a androgenia, como relata “O Banquete” de Platão, “somos todos ao mesmo tempo, metades homens e mulheres, metades masculinos e femininos”. É preciso muita percepção, saber ouvir e acolher. Deixar que o outro entre dentro da gente. Ouvir em silêncio. Sem expulsa-lo por meio de argumentos e contra razões. Nada mais fatal contra o amor que a resposta rápida. Há pessoas muito velhas cujos ouvidos ainda são virgens, nunca foram penetrados. Assim como também, é preciso saber falar. Há certas falas que é um verdadeiro estupro. Somente sabem falar os que sabem fazer silêncio e ouvir.

Segundo a lendária rainha persa e narradora dos contos de “As Mil e Uma Noites”. Sherazade sabia que todo amor construído sobre as delícias do corpo tem vida breve e a chama se apaga tão logo o corpo se tenha esvaziado do seu fogo. Como conta a lenda persa, o seu triste destino é ser decapitado pela madrugada, assim falou o poeta: “que não seja eterno posto o que é chama”. Nos seus contos cada estória contém outra, dentro de si, infinitamente. Não há um orgasmo que ponha fim ao desejo. E cada estória lhe parece bela, como nenhuma outra. Porque uma pessoa é bela, não pela beleza dela, mas pela beleza nossa que se reflete nela. É no olhar que te vejo. E no olhar lhe transformo.

Para o filósofo e crítico cultural alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), dizia ele: “ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até o fim dos seus dias?” Porque tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar. A melodia e sons das palavras como diz o sábio tântrico, é a sexualidade sob a forma da eternidade. É o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. Ao contrario do que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “eu te amo, eu te amo”. Para o filósofo, sociólogo e escritor francês Roland Barthes (1915-1980), advertia dizendo que passada a primeira confissão: “eu te amo”, não quer dizer mais nada. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Aqui me recordo de uma frase da escritora Adélia Prado (1935), diz ela: “erótica é a alma”.

Portanto, concluo esta reflexão citando o teólogo, filósofo e educador Rubem Alves (1933-2014), que dizia: “o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que se é sonho, é coisa delicada, do coração”. O bom ouvinte é aquele que ao falar, abre espaço para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Ao comparar o casamento com o jogo de tênis e o frescobol, contado no livro “Cantos do Pássaro Encantado”, Rubem Alves nos mostra dois jogos, na verdade, são dois jogadores de tênis que usam duas raquetes e uma bolinha de tênis, porém, ao contrario do tênis, no frescobol nada muda, só não tem ganhador e nem derrotado, a bola vai e vem, e assim cresce o amor. Ninguém ganha para que os dois ganhem. Contudo, deseja-se então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim. Todavia, o ouvido é feminino, vazio que espera e acolhe que se permite ser penetrado. A fala é masculina, algo que cresce e penetra nos vazios da alma. Foi assim na antiga tradição mitológica que o “deus humano” foi concebido pelo sopro poético do “verbo divino”, penetrando os ouvidos encantados e acolhedores de uma “virgem”. Sobretudo, os que se dedicam à difícil arte de adivinhar os mundos adormecidos que habitam os vazios de cada um de nós. 

2 de março de 2015

O ADOLESCENTE REBELDE

Como educador sempre fui um defensor dos jovens estudantes. Aprecio neles esta sede pela vida, que naturalmente com o tempo vai se acalmando. Gosto de ver jovens se preparando para o futuro, sonhando com o sucesso que virá após uma boa qualificação acadêmica. É preciso muita coragem para encarar a vida cotidiana. Uma coragem diferente, evidentemente, que estou me referindo da coragem de sonhar, do devaneio. O problema é que a coragem do devaneio é também a coragem de considerar que a coisa mais concreta que a gente tem, ou seja, que é a vida, não é necessariamente um valor supremo, porque ela é limitada. Em muitos momentos é bom que seja assim, para que o jovem leve mais a sério as suas ações e seja menos sedentária.

Entretanto, essa juventude está perdida, porque não querem saber de nada, eles não nasceram prontos. Foram formados numa sociedade e que uma parte de nós faz uma coisa inacreditável. Admitimos aos jovens e adolescentes que desejos são direitos e pela primeira vez que uma juventude começa a considerar que realmente, desejos são direitos, isto é, se eu quero tenho direito e alguém tem que me dar. E se não dou logo vem à chantagem: “você não gosta de mim, vou fugir, vou me cortar e até me matar”. Como os pais não querem conflitos com os filhos, até porque, também já tem os seus, então vão pelo lado pratico e acaba concedendo. Quanto mais os pais concedem mais os filhos abusam. Quanto mais os filhos abusam, mais os pais concedem e aí vira um ciclo vicioso. E com isso estão formando filhos parasitas, carrapatos que vão te sugar até a morte.

Como argumenta o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella (1954), que um pai em sã consciência que dá para o filho um tênis que custa o valor de uma TV de vinte e nove polegadas. Basta olhar o quanto de inteligência necessita para produzir uma televisão, em comparação a um tênis e vê que esse aqui é um valor simbólico. Os mais velhos vão dizer: essa juventude é consumista. Na analise do educador Cortella, o teu filho aos 17 anos ganha uma viagem de presente de formatura para Porto Seguro. Passeio esse que todo o ser humano adoraria ganhar. Ele passou a semana inteira feliz da vida gastando o teu dinheiro. Como diz o escritor e psicanalista Contardo Calligaris (1948), os jovens de hoje parece um adulto em férias, ou seja, eles vão ao cinema, passeiam, viajam, ficam em hotel, só não trabalham.

Como não nasceram prontos, não tem ideia do trabalho, isto é, o trabalho que da para ganhar o dinheiro. Vendemos uma mão de obra, para em troca receber um dinheiro. No Brasil usamos uma expressão equivocada. Desde criança dizemos aos nossos filhos, que vamos sair para ganhar dinheiro, quando na verdade, não é ganhar e sim trabalhar para ter o dinheiro. Como nossos jovens é uma geração que cresceu com os caixas eletrônicos, só colocar o cartão e sai dinheiro, eles não conhecem o processo anterior. Vai gastar essa grana sem nenhuma consciência econômica.

Veja a situação deste pai, o filho passou a semana inteira em Porto Seguro e no domingo o pai vai buscá-lo no aeroporto, imaginando que o filho vai chegar feliz da vida, com uma gratidão imensa pelo presente que ganhou e na chegada o pai pergunta: “E aí filho, gostou do passeio?” Ele responde: “Normal”. Da vontade de voar no pescoço dele e sabe por que? Porque parece uma ingratidão. E é uma ingratidão. É uma ingratidão de maldade? Não! É uma geração que foi sendo formada para achar que tudo é normal. Gastar um dinheiro que você não precisaria só para ter uma marca da moda é normal. Como eles não nasceram prontos está faltando espanto, onde tudo é óbvio, tudo é fácil, e o pior, esta rebeldia invadiu também a área da educação.

Todavia, a relação do aluno com o professor, hoje está nivelado. Não é mais uma relação vertical, de autoridade. Contudo, põe em risco o principio de justiça. Em que está baseada essa autoridade? Na especialidade do professor. O qual o aluno não enxerga mais como um especialista da educação. Qual a conclusão disso? Exigir que o aluno te respeite e lhe trate com admiração, é a coisa mais ilusória do mundo. Porque esta relação horizontal matou a autoridade do especialista, ele te vê como igual. O jovem rebelde que acha tudo ruim, não faz nada do que se pede e ainda cria problemas para todos, tanto em casa como na escola. Inventa encrenca o tempo todo, está sempre de mau humor. Em casa ele se mete no quarto e não quer saber da vida. Tem lá a sua internet e seu som, o quarto é um chiqueiro a família não sabe o que está fazendo e nem com quem está conversando. Por outro lado, a família também está divorciada da escola desfazendo assim, essa ponte que liga a família e a sociedade. Conclui-se então, que é impossível haver educação formal e de qualidade neste caso.

Portanto, estamos numa ética do óbvio, semear, disseminar e plantar o futuro. Porque o mundo que vamos deixar para os nossos filhos depende muito dos filhos que vamos deixar para esse mundo. Contudo, quando tomarmos consciência de que o nosso tempo aqui é limitado, aí vamos nos concentrar no que é mais importante para cada um. Neste dia vamos buscar dentro de nós aquilo que mais nos interessa. Sem perder tempo com conversas fiadas. A vida traz pessoas queridas e momentos de felicidades, que um dia serão tomados de volta. Não encontramos explicações para essas tragédias, mas com o tempo nos conformamos, na esperança de que ainda haveremos de entender o verdadeiro significado da vida. Talvez esses jovens de hoje precisarão ficar velhos para compreenderem que a vida não tem sentido nenhum. Nós é que insistimos diariamente em atribuir um significado a nossa existência. Hoje sinto no meu ímpeto, que permeia uma vontade amorosa de mudar esse mundo. Morreria feliz se os jovens fizessem isto por mim.   

25 de fevereiro de 2015

NA VAIDADE TUDO É VAIDADE

O assunto que trago para a nossa reflexão, tem tudo a ver com a realidade em que estamos vivendo neste momento conturbado que atravessa a nossa sociedade. A atual ânsia de visibilidade das pessoas, de ver e ser visto, tanto no mundo real como no mundo virtual, faz com que elas se anulem na sua essência. Seria uma questão de vaidade? Caso seja, será que a vaidade mudou de status? Antes condenada hoje se tornou um valor? Foram os meios eletrônicos que fizeram essa ânsia de visibilidade ou eles são apenas consequência? O que aconteceu com a vaidade humana, aumentou ou diminuiu? 

Acontece que a questão da vaidade é um assunto pouco discutido no nosso meio filosófico. Este tema é levantado desde os primeiros filósofos. Por volta dos séculos IV e III antes de Cristo, nós temos uma reflexão filosófica que se alonga até o século XIX. Depois disso esse assunto foi renegado ao terceiro e até ao ultimo plano na filosofia. A filosofia recente discute muito pouco a vaidade, mal se vê. De modo geral as ciências humanas não discute sobre a vaidade. A “vangloria” que seria a gloria justa e verdadeira do que nós efetivamente somos. Mas, não é desta gloria que vamos falar aqui e sim da “gloria vã”, que é a gloria de quem imagina ser muito mais do que realmente é. É por esse viés que quero conduzir a nossa reflexão.

Há um ponto comum nestes dois mil anos de reflexão sobre a vaidade. Primeiro ela é falsa e segundo ela induz as pessoas ao erro. Segundo o filósofo e educador Renato Janine Ribeiro (1949), cita uma música americana dos anos setenta: “you’re so vain”, que diz: “você é tão vaidoso que provavelmente pensa que esta canção é sobre você”. Que vira uma coisa totalmente contraditório. A pessoa é tão vaidosa que se identifica como a tal. A gente vê muito isso, nos meios de comunicação e nas redes sociais. Como argumenta o filósofo e escritor francês Michel de Montaigne (1533-1592): “Seja o que for, artifício ou natureza, isso que nos imprime a condição de viver da comparação com o outro, faz-nos muito mais mal que bem. Privamo-nos daquilo que nos é útil para atender as aparências e a opinião dos outros. Não nos importa tanto saber o que é nosso ser em si e em efeito quanto saber o que é ele para o conhecimento publico. As próprias riqueza do espírito e a sabedoria nos parecerão infrutíferas se só forem desfrutadas por nós, se não forem produzidas para a vista e a aprovação alheia”.

Na verdade, o vaidoso é manipulável. Sobretudo, graças às redes sociais, só para citar uma dessas redes atuais, o facebook. Por exemplo: o que há de pessoas escrevendo e postando besteiras no facebook e ficam envaidecidas por isso. A gente vê diariamente o quanto existe de imbecilidade nestas postagens e o pior de tudo, elas ficam satisfeitas consigo mesmas. Como diz na Bíblia, mais precisamente no Velho Testamento no século III antes de Cristo, em Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. E na psicanálise não existe a palavra vaidade. Construiu-se uma teoria psicológica desprezando e desconsiderando a vaidade e mudou o nome para narcisismo que seria um termo que subentende amor por si mesmo. Uma expressão dúbia, porque amor não é obrigatoriamente igual à vaidade. Além de que, não existe amor por si mesmo, o que existe é esse autoerotismo, esse prazer de se destacar e chamar a atenção, de atrair olhares. É próprio da natureza humana.

Entretanto, nunca teve tão exaltado esse exibicionismo, por isso que as pessoas evitam falar sobre o assunto, tudo gravita em torno disso. Um exibicionismo sem fundamento, sem o menor sentido, porque o prazer erótico de exibir e de se destacar ele, evidentemente, pode se dar de duas maneiras diferentes. No primeiro caso, o individuo buscar um destaque por um conceito legitimo cujo ele envaidece meritoriamente, pela aparência. Por exemplo: as celebridades que estão em evidência na mídia. E no segundo caso, o facebook que pode fazer e faz um pouco isso, ajudando os vaidosos a se destacar. Esse exibicionismo que se manifesta muito intensamente, principalmente na questão erótica, a partir dos anos setenta até hoje. Atualmente exibir o físico masculino e feminino ficou muito exaltado e exagerado ao mesmo tempo, chocando um pouco e impactando os olhares. Provocando tensões, ciúmes, inveja e rivalidade perante a sociedade.

Por conseguinte, o mundo não melhorou com esse exibicionismo todo, ao contrário, a qualidade das relações humanas vem se complicando cada vez mais. Certamente por conta dessa onda de liberação da sexualidade, liberou também e muito a vaidade que é um componente erótico. Que sempre foi tratado com certo pudor, agindo com repressão e comedimento sobre o componente sexual. Hoje não pensa mais, como sonhou a juventude nos anos sessenta, ter um mundo de paz, amor e harmonia entre os homens de boa vontade. Hoje vivemos um mundo de vaidade e muita rivalidade. Contudo, as pessoas exibem tanto no facebook que é uma fonte nova de geração de inveja para muitos. “Olha eu aqui, na praia tal, na ilha tal”, por acaso aquele que não está na ilha, está na rede morrendo de inveja do vaidoso. É uma espécie de revista de variedades privadas. No entando, estamos todos contaminados pela vaidade virtual. A tecnologia já tem um modelo pronto de usuário que na verdade, é um modelo imbícil que consome todos os dias e não presta a atenção o quanto são idiotas. Esta palavra que vem do grego “idiótes” ou “idhiótis”, que traduzida etimologicamente para o português quer dizer “idiota”. Ou seja, pessoa fechada em si mesma, limitada, que não participa da vida em sociedade.

Portanto, a vaidade tem tudo a ver com a necessidade de satisfação pessoal que depende da aprovação e da estrema admiração dos outros. É um sinal de que as pessoas gostam da sensação de ter alguma coisa que os outros não têm, e assim se sentindo mais poderosa. Nas redes sociais, o desejo de ser invejado tende a se manifestar com maior frequência. O próprio instagram, que já foi apontado como uma das redes que mais causa depressão entre os usuários. Cria a ilusão de que o outro tem uma vida incrível e que você precisa ter uma vida assim também. No meio jovem, tem essa tendência mais recorrente de forjar uma vida perfeita. Essa busca constante em transmitir uma imagem de perfeição em todos os momentos, pode frustrá-los, e pode realmente levar, até mesmo à depressão. As redes sociais são veículos de exposição seletivos, isto é, a pessoa escolhe deliberadamente o que postar e compartilhar, o que facilita a exposição de feitos e conquistas. Este é ápice do vaidoso que faz de tudo por um “curtir” dos outros em suas fotos e postagens. É um narcisista decadente.  

14 de fevereiro de 2015

CORPO E SEXUALIDADE

A nossa sociedade atual está criando uma nova ética do relacionamento. A cultura do corpo sarado. Afinal, o que é um corpo sarado? De repente nossa atenção é chamada por essa esfomeada corrida às academias de ginástica, de estética, de massagens, enquanto ficamos sem compreender muito bem o surto de exibicionismo do corpo nas passarelas sociais, como clubes, praias, entre outros lugares públicos. É a nova febre do corpo. Até parece que apenas de uns tempos para cá o ser humano passou a ter corpo. Realmente algo estranho ocorre, alguma coisa como se tivéssemos descoberto a outra face da lua, um lado desconhecido de nós mesmos. Esta grande atenção sobre o corpo será boa ou ruim? Ao que parece será muito boa no sentido de se recuperar o carinho por essa coisa prodigiosa que é o nosso corpo. E poderá ser muito ruim à medida que se cai nas armadilhas que a nossa sociedade do lucro vem inventando para vulgarizar a atenção sobre o corpo e com isso banaliza a sexualidade.

A filosofia atual não se dedica a discutir assuntos que parecem não ser mais seus, como a questão de se o espírito existe de modo autônomo, se ele sobrevive à morte física e de como é essa sobrevivência. Estes assuntos são postos hoje nos domínios da religião e da teologia, das metapsíquicas e das instituições místicas. O filósofo tem suas crenças, mas evita reduzir a discussão filosófica ao âmbito de sua fé. Na verdade, o foco de interesse da filosofia é o vivente, aquele ser humano que sou e os demais que estão comigo neste momento no mundo. No vivente, a reflexão filosófica não vê como distinguir o corpo do espírito. Ainda que se pense a mente como espírito, é a própria medicina que mostra cada vez mais a dificuldade de ver clara à fronteira que separa as funções mentais das funções orgânicas. O campo médico que estuda esta relação está meio atarantado: pela chamada medicina psicossomática.

Fica difícil pensar no corpo separado da alma, seria o mesmo que pensar num ciclista montando uma bicicleta. Somos ao mesmo tempo, um ciclista que é uma bicicleta. Vamos examinar algumas afirmações sobre a questão da corporeidade, para melhor compreendermos. Todavia, o corpo é nossa forma de presença no mundo. Estamos presentes quando o mundo se abre para nós e nós abrimos para o mundo; isto é: presença é algo que está ligado a relacionamento. Poder ver, ouvir, tatear, degustar e cheirar. Pode receber o mundo em nossa interioridade e, ao mesmo tempo, formando ideias e emoções em nosso intimo, comunicá-las para fora de nós. E é na medida em que somos nosso corpo é que nos situamos no mundo de forma comunicante. Portanto, não apenas temos um corpo através do qual lidamos com a vida que nos circunda e que está em nós. Corpo não é mero instrumento. Quando se crê no espírito, vai então ficando claro que, no vivente, o corpo é a outra face do espírito e vice-versa.

Segundo o filósofo e fenomenólogo francês Merleau-Ponty (1908-1961), disse: “o corpo é o berço de todas as nossas significações”. Ele quer dizer que tudo que temos em nós de emoções, de conhecimentos, todo o conteúdo do nosso mundo interior, tudo isto teve que começar no corpo. É pelo prazer e pela dor, por todas as sensações corpóreas, que a vida nos visita e tece lá dentro a nossa intimidade. Tudo, portanto começa com o corpo. Ele é o berço dos nossos conteúdos. O corpo é o nosso mais profundo mistério. Afinal, a medicina explica como o corpo funciona; mas ninguém sabe que energias o fazem funcionar por dez ou cem anos. Ninguém conhece o chamado principio vital. Que fagulha é esta que acende a vida? De que usina jorram as energias que mantém com o coração batendo? Mistério! E basta que sintamos alguma coisa muito esquisita – uma aceleração cardíaca, uma falha de batimento, uma forte tontura, etc. – que somos convocados ante o mistério do corpo. Sentimos medo, pedimos ajuda.

Entretanto, este mesmo corpo maravilhoso que nos põe medo, oferece-nos oportunidades de profundo e intenso prazer. E hoje ninguém precisa fugir dessa palavra prazer. O prazer de viver tem muitos aspectos. Todos são importantes. E é fundamental dizer-se que o prazer mais criativo se encontra em nossa sexualidade. A sexualidade (com a energia da libido) é o que movimenta as emoções, o conhecimento e até mesmo o sentido religioso. Para o filósofo e psiquiatra alemão Karl Jaspers (1883-1969), argumentava o seguinte: “a literatura mística não passa de uma torrente de erotismo”. E o pensador disse isto não porque fosse um ateu (era religioso), mas porque, sendo um psiquiatra também, sabia que o erotismo é a infinita riqueza de forma que o espírito empresta à sexualidade. Ora, falar-se de sexualidade não é necessariamente falar-se de genitalidade de relações sexuais. A sexualidade é uma imensa energia que nem mesmo conhecemos direito. Ela se parece, para o conhecimento humano, a de um iceberg, que deixa para fora da água 1/3 da sua massa, escondendo nas águas oceânicas os outros invisíveis 2/3.

Como argumenta o filósofo e educador Régis de Morais (1941), “a grande poesia não é celebração; ela é filha da sexualidade que se solta. Não se continuará vivo se não tiver um amor sexual pelo mundo”. Depois do livro bíblico do Cântico dos Cânticos ter celebrado lindamente a sexualidade e o erotismo inclusive em termos de expressão genitais. Por que havemos nós hoje de ter vergonha de coisa tão elevada e maravilhosa como a expressão de sexo entre duas pessoas que se gostam? O sexo, em si mesmo, só tem grandezas. Ele é a força mais poderosa que nos faz sentir inteiros, íntegros, no encontro excitante de amor. O que causa vergonha, o que deprime a bela verdade do sexo, é a triste malícia que muitas vezes destila o coração humano. Toda uma cultura ocidental maquinou uma trama lamentável. Fazer das expressões sexuais um ato de baixeza, só às vezes legitimado por leis encarregadas de dar o sinal verde. Então, para muitos, o corpo é transformado numa ameaça de degradação.

Portanto, o corpo não é dividido em partes mais aceitáveis e menos aceitáveis. Embora a sexualidade ultrapasse o corpo, a escolha de uma vida sexual a dois se concretiza no encontro de corpos. Se o principio de tudo for à verdade do amor, de um amor digno, o demais será a fecundidade da criação. A geração de filhos ou de carinhos e trocas de carícias são de inestimável valor humano. Contudo, os limites da sexualidade são limites do corpo. Tanto assim que a sexualidade começa em qualquer parte do corpo e não termina, vai de um lado para outro explorando sua totalidade. Faz de cada um de nós o que exatamente somos. A extensão do mundo em nosso corpo. Viver isto como via de regra, respeitando a nós mesmos e aos outros. No corpo está a plenitude da vida e na sexualidade a sua manifestação divina. 

12 de fevereiro de 2015

TER O SEXO TORNOU MAIS DIFÍCIL TER O AMOR

Na sociedade atual, com a facilidade ao acesso a comunicação através da internet e do celular, fala-se e escreve-se muito sobre sexo e quase nada sobre o amor. Talvez porque o amor, sendo um enigma, não se deixa decifrar, repelindo toda tentativa de classificação ou definição. Ao contrário, a literatura nunca deixou de falar do amor, principalmente, nas poesias, é nesse campo mítico por excelência que aparece a metáfora como possibilidade de compreender melhor o amor. Todavia, não há como negar que esse vazio conceitual se deva à dificuldade de expressar o amor no mundo contemporâneo. Tendo em vista, o desaparecimento das sociedades tradicionais, cujos costumes envolviam fortes relações entre as pessoas. Entretanto, nossas cidades com o aumento de suas populações, com seus arranha-céus, estão criando espaços para a solidão, o chamado fenômeno da “multidão solitária”. As famílias desintegrando-se e dispersando-se em busca de emprego. Por outro lado, as pessoas caminham lado a lado, mas suas relações são territoriais e não sociais. Seus contatos dificilmente se aprofundam, tornando-se mais raro os encontros verdadeiros e amizades duradouras.

O jovem de hoje tem muito mais possibilidade de contatos prazenteiros, mas totalmente descompromissados de intimidades afetivas. Com essa facilidade de ficarem com vários numa única noite, ao mesmo tempo não estabelecem relações intimas duradouras, porque suas relações são muito inconsistentes. Os ditos apaixonados se juntam e separam com a mesma facilidade. Não há amor, não há envolvimento, porque não criam vínculo. Ficam somente no campo do desejo e do epidérmico. Na verdade, isto não é namoro e sim encontro casual, puramente físico e sem compromisso. Agradável a principio, excitante, uma espécie de tiroteio cerrado de desejo, de busca de troca e carência instintiva. Mas cansativo em longo prazo porque se espera mais do que só a relação física, portanto, torna-se desapontador para ambos.  

Para a jornalista e escritora ítalo-brasileira Marina Colasanti (1937), pertencemos à geração do descartável, desinventamos o duradouro. À navalha, que durava a vida inteira, hoje preferimos o barbeador que se utiliza só por algumas vezes e se joga fora. Trocamos o bom e sóbrio tecido que usaríamos durante anos, pela alucinante cor da moda que durará apenas uma estação. Resistência e boa qualidade tornaram-se palavras sem sentido, o máximo que admitimos é absolescência planejada. Parece que o amor ficou fora de moda e o sexo tornou-se mais atraente. Esse descartismo do amor contaminou os sentimentos, sem, entretanto, mudá-los por completo.

Todavia, não é só nas relações entre duas pessoas, que os encontros afetivos estão empobrecidos. A nossa organização social de efeito capitalista tem modos de convívio social baseados na competição e rivalidade. Essa sociedade vê no amor o seu pior inimigo. Fala-se tanto em cristianismo, onde se prega o amor ao próximo. Foi à classe dominante que inventou essa história de igualdade, que espalhou esse veneno pelo mundo afora. E hoje tentam nos mostrar que o amor não é absolutamente a força maior que fomenta a humanidade. Por conseguinte, vivemos dentro de uma sociedade onde tratam as relações como superficiais e descartáveis. Estamos às vésperas do prazo de vencimento das relações afetivas. Os relacionamentos estão cada vez mais fragilizados e desumanos. A confiança no próximo está cada vez mais perto de terminar definitivamente. Os seres humanos estão sendo usados por eles mesmos.

Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925), os avanços tecnológicos influenciaram muito o ser humano em suas relações de um modo geral, que o amor líquido (que mal começa e já termina), representa justamente esta fragilidade dos laços humanos, a flexibilidade com que são substituídos. É um amor criado pela sociedade atual, a chamada modernidade líquida, para tirar-lhes a responsabilidade de relacionamentos sérios e duradouros, já que nada permanece nesta sociedade, o amor não tem mais o mesmo significado, foi alterado como algo flexível, totalmente diferente do seu verdadeiro significado de durabilidade e perenidade.

Portanto, para muitos o amor romântico está fora de moda. O amor verdadeiro em sua definição romântica foi rebaixado a diversos conjuntos de experiências vividas pelas pessoas, nas quais se referem utilizando a palavra amor. Principalmente no sexo casual, hoje praticado por uma parcela significativa, na tentativa de camuflar os impulsos instintivos e biológicos do ser humano a ser satisfeito, enganando aos seus parceiros, dizendo “vamos fazer amor”. Entre essas pessoas é muito fácil ouvir “eu te amo”, pois não existe mais a responsabilidade de estar mesmo amando. A palavra amor foi rotulada de uma forma, em que as pessoas nem sabem direito o que sentem, não conseguem definir a diferença entre amor e paixão e mesmo assim utilizam incorretamente esta palavra, que perdeu sua importância. Contudo, as pessoas preferem o encontro pela internet, no campo do virtual, porque sendo assim, quando quiserem podem apagar o que haviam escrito, ou simplesmente apagar um contato e facilmente dizer adeus. Enfim, ter o sexo tornou difícil ter o amor e com isso estamos matamos um sentimento que poderia salvar a humanidade.

3 de fevereiro de 2015

DIALOGANDO COM O AMOR

No diálogo de Platão (427-347 a.C.) “O Banquete”, os convidados discursam sobre o amor. Sócrates (469-399 a.C.) o último dos oradores do referido diálogo do amor, começa dizendo que Eros representa um anelo de qualquer coisa que não se tem e se deseja ter. Para Sócrates o amor é o desejo, em primeiro lugar, de alguma coisa; em segundo, só de coisas que estejam faltando. O amor é capaz de desabrochar e de viver, morrer e ressuscitar no mesmo dia. Come e bebe, dá e se derrama, sem nunca estar rico ou pobre. A partir desta discussão pela boca de Sócrates, Platão explica a relação entre Eros e a filosofia. Assim como os deuses não filosofam nem aprendem, por já possuírem a sabedoria, os tolos e os ignorantes não aspiram adquirir conhecimento, porque, embora nada saibam, julgam saber. Só o filósofo deseja conhecer, pois sabe que não sabe e sente necessidade de conhecer.

Dessa forma, Platão não reduz a busca apenas à procura de outra metade do nosso ser que nos completa como explica no mito da origem do amor. Pare ele, Eros é ânsia de ajudar o eu autêntico a se realizar, na medida em que a vontade humana tende para o Bem e para o Belo, quando subordina a beleza física à beleza espiritual e desliga-se da paixão por determinado indivíduo ou atividade, ocupando-se com a pura contemplação da beleza. É uma concepção que deve ser compreendida de acordo com a relação corpo e alma, segundo a qual Platão subordina Eros a Logos, ou seja, subjuga as paixões à razão. Sendo assim, tudo que está no mundo sensível diz respeito às paixões e o que está no mundo das ideias é contemplado pela razão.

Nas relações afetivas, o desejo não nos impulsiona apenas para alcançar o outro como objeto. Mais que isso, o desejo exige a relação em que se busca, sobretudo, o reconhecimento do outro. O amante não deseja se apropriar de uma coisa e sim, deseja capturar a consciência do outro. A relação amorosa se funda na reciprocidade, ou seja, desejamos o outro como ser consciente que também nos deseje. O filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1881), compreende a consciência de si como desejo de reconhecimento. Isso significa que no amor, quando um corpo se estende em direção a outro corpo, exige que esse corpo, que ele deseja também se estenda; porque amar é desejar o desejo do outro. Todavia, o amor é o convite para sair de si. Se a pessoa estiver muito centrada nela mesma, não será capaz de ouvir o apelo do outro. No entanto, se uma criança procura com naturalidade quem melhor preencha suas necessidades, se esse procedimento persistir na vida adulta, torna-se impedimento para encontros verdadeiros. Esta pessoa ira viver um amor idealizado, em parte fruto do medo de lançar-se nas contradições do exercício efetivo do amor.

O temido risco de amar para muitos é a separação. Mergulhar na relação amorosa supõe a possibilidade da perda. Para o psicanalista austríaco Igor Caruso (1914-1981), a separação é a vivência da morte numa situação vital. A morte do outro em minha consciência e a vivência de minha morte na consciência do outro. Quando deixamos de amar ou não somos mais amados; ou, ainda se as circunstâncias nos obrigam à separação, mesmo assim o amor recíproco permanece. Se a perda é sentida de forma intensa, a pessoa precisará de um tempo para se reestruturar, porque, mesmo quando conseguiu manter a individualidade, o tecido do seu ser passa inevitavelmente pelo ser do outro. Há um período de luto a ser superado após a separação, quando ambos estão buscando novo equilíbrio. Uma das características mais evidente do individuo maduro é saber integrar a possibilidade da morte no cotidiano da sua vida. Porém, ao falarmos em morte, não nos referimos no sentido literal da palavra, mas, nas diversas mortes ou perdas que permeiam nossas vidas. Mesmo nas relações duradouras, as pessoas mudam, e a modificação do tipo de relação significa consequentemente a perda da forma antiga de dialogar com esse sentimento chamado amor. A moda antiga de expressar o amor também está se despedindo do nosso meio romântico. O chamado amor cortez está fora de moda.

Portanto, com o afrouxamento dos laços familiares e aqui não estamos analisando as causas e muito menos procurando uma justificativa. O chamado clássico encontro amoroso está ficando de fora, não é mais prioridade nas relações afetivas. Com o advento da comunicação, que em tese deveria melhorar as relações afetivas, lançou as pessoas em um mundo onde elas contam apenas consigo mesmas. Hoje vivemos um mundo da satisfação imediata, do prazer aqui e agora, o desejo de emoções fortes substitui os amores ternos cuja intensidade passional certamente se atenua com o tempo, pois a paixão é fugaz por natureza. Contudo, é bem verdade que se o amor se funda no compromisso e se as pessoas cada vez mais tem medo da dor, do sofrimento, do risco de perda, o que resulta são as relações superficiais, os amores breves. Relações sem diálogo, sem colorido e sem vida. Na era da comunicação e da informação rápida, existe um contingente enorme de pessoas alimentando-se do amor descartável. Um amontoado de seres robóticos. E junto as relações humanas estão indo para o abismo.      

A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele m...