5 de abril de 2014

ACEITAÇÃO DE SI MESMO

O individuo acomodar-se ás suas fraquezas e vícios de personalidade sem qualquer discussão, isto não é o que filosoficamente chamamos de aceitação de si mesmo. Auto-aceitação não é simples cumplicidade. Por outro lado, também a atitude narcisista de alguém se encher de vaidade, em razão de algumas qualidades que não ignora ter, está um pouco distante da meditada aceitação de si. Narciso, conta à mitologia, viu sua beleza espelhada na superfície de um lago; foi então, tomado de tal paixão por seu próprio rosto que mergulhou na água em busca de tanta formosura e morreu afogado. Aceitação consciente de si mesmo não é uma autocomplacência, que desculpa todos os nossos próprios defeitos, nem a vaidade, que pode levar a delírios capazes de esterilizar uma vida. 

Filosoficamente, a auto-aceitação exige, antes de mais nada, alguns esclarecimentos sobre nós e a nossa condição. Aceitar-nos implica numa procura de muita lucidez, num exercício de meditação paciente sobre a nossa forma de ser no mundo. Não se trata necessariamente de meditação ao estilo dos orientais ou dos nossos monges, que se isolam e se distanciam do mundo no desejo de compreendê-lo melhor, olhá-lo com mais sabedoria. Trata-se, isto sim, de vivermos nas ruas, nos ônibus, nas escolas ou no trabalho, no ritmo normal das nossas atividades, mas procurando sentir nossa relação com tudo e todos de forma viva e profunda.

Esta reflexão vivida (ou este viver refletido) acabará pondo diante do nosso espírito as limitações e as possibilidades que ele tem. E aí será bem natural, olhando para as precariedades bem como para as qualidades que temos, percebemos quando os nossos defeitos resultam de limitações. Isto é, quando, o que temos de carente ou insatisfatório em nossa personalidade, é assim porque temos limitações definidas e não podemos ir além dessas fronteiras. Porque quando nossos defeitos resultam de comodismo ou apenas preguiça, somos responsáveis pelo trabalho de superá-los, procurando não usar as pressões sociais e outras dificuldades do meio como um tapume que esconda uma negligência pessoal. Quanto às nossas qualidades, estas serão confrontadas, pela reflexão crítica, com as fraquezas que os limites impõem, é nesta hora que sentiremos ser tola qualquer vaidade. 

Já foi citado por muitos pensadores que “a primeira de todas as sabedorias é conhecermos os nossos limites”. Aquele que adquire noção das próprias limitações encontra o caminho do equilíbrio. Descobre como foi indispensável à meditação feita em busca de uma mais clara consciência de si e do mundo, com a ajuda sempre indispensável dos outros que com ele convivem no cotidiano. A aceitação de si mesmo terá, entre outras, os seguintes componentes: a) Que a pessoa se assuma como ser de extremos, diríamos mesmo como ser de contradições. Afinal, já dizia o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), que no ser humano há um gigante chamado vontade, que carrega em seu ombro um anãozinho chamado razão. O anão vive dizendo coisas ao ouvido do gigante, sendo que entre eles há muitos desencontros e também muitos encontros. Por isto às vezes é bem difícil agir como pensamos ou, como se costuma dizer, difícil ser coerentes. Somos como somos. É nossa tarefa melhorarmos, mas não além dos nossos limites. b) Do ponto de vista natural, cada um aceite sua condição de ser entre os seres, sua situação de ser um dado da natureza entre milhões de outros. Mas, em seguida se conscientize do fato de sendo homem, estar na posição de um ser que pensa os demais, escapando a um nivelamento com toda a natureza, é a faculdade humana de transcendência. c) Ainda há componente de abrirmos nossa sensibilidade aos encantos que existem em nossa condição, há um tempo frágil e atuante. Aos encantos que há em não sermos divindades, mas só seres humanos gozando a humilde graça de viver nossa natureza. 

Depois de paciente meditação, ficaremos tranquilos ante o fato de que nossas vidas sejam tecidas de crenças e dúvidas, de algumas certezas e inúmeras interrogações, lembrando das aulas de antropologia filosófica do Prof. Régis de Morais (1940), que recomendava: “Tenha as suas crenças e tenha as suas duvidas”. Este bem humorado conselho ajuda-nos a não cometermos a frivolidade de nos levarmos sempre demasiado a sério. A aceitação de si mesmo é um momento dialeticamente muito rico, pois, ao mesmo tempo em que aponta para a humildade das limitações humanas, aponta para o abismo que separa o homem do restante da natureza, isto é, sua possibilidade de refletir. 

Aquele que consegue trazer essa consciência para o dia a dia, levando a vida naturalmente e descomplicadamente, aberto à compreensão do seu semelhante, este se aceitou. Ele guarda consigo a certeza de que, como ser falível, a qualquer momento pode errar (isto será um direito seu), como também tem claro para si que pode procurar corrigir os seus equívocos (e isto será seu dever). É por este modo completamente humano de se situar na vida, que dizemos: este aceitou a si mesmo. 

Comumente se diz que nossa identidade, a descoberta de quem realmente somos, nos chega através dos outros que partilham conosco “o caminho”. E isto é muito verdadeiro. Todavia, é importante não confundir esta afirmação com outra, certamente equivocada, de que nosso semelhante é quem nos dá nossa identidade. Tudo se passa como alguém que se olha num espelho: sua imagem, uma vez refletida, lhe chega graças (através) do espelho; mas sua imagem não tem origem no espelho. Os que convivem conosco, reagindo a nossa presença no mundo, funcionam como espelhos privilegiados, espelhos dotados de afetividade que nos dão condições de descobrirmos quem somos. Mas em tudo isto é preciso haver uma combinação de humildade com senso crítico, para não corrermos o risco de aceitar ser o que não somos de fato. 

Portanto, nossa identidade é facilitada pelos outros, mas a aceitação de nós mesmos, é o resultado de um trabalho paciente, através do qual nós mesmos devemos perceber-nos e nos dar uma espécie de autorização para viver. A consciência de si recria, para cada um nós, esse belo espetáculo que é a "vida".

4 de abril de 2014

O DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Antigamente, para ser um professor bem sucedido, era o bastante saber transmitir conhecimentos e exercer autoridade em sala de aula, ou seja, uma relação vertical com os alunos. Baseada na autoridade desse especialista, o professor. Caso contrario, o professor põe em risco o princípio de justiça. Atualmente, o perfil do professor passa por profundas mudanças. Principalmente, com relação ao conhecimento. Não deve mais transmitir ao seus alunos o que sabe. Seu papel agora é o de instigar os jovens estudantes, colocar os problemas para que eles mesmos resolvam e, assim, levá-los através da espontaneidade, a desenvolver a criatividade no processo ensino-aprendizagem. O aluno agora é que deve ser o centro de uma proposta pedagógica.

Todavia, o bom professor para alguns alunos ainda é aquele que, evidentemente, transmite com profundo conhecimento e notório saber, que discursa maravilhosamente bem, como um político que se preza. O aluno não compreende esse conceito do professor não ser mais o centro de um projeto pedagógico. O chamado professor conteudista. Quando o professor leva o aluno a ler, interpretar, falar e emitir sua opinião, relacionado ao contexto em que foi produzida determinada literatura, principalmente, quando o faz escrever, observa-se uma certa frustração, parece que o professor o decepcionou. A maioria dos alunos preferem que o professor fique em frente ao quadro escrevendo e falando o máximo possível, até porque dessa forma não os importunaria. Além dessas características, o professor tem que estar muito bem informado. Não se exige mais um conhecimento enciclopédico.

Entretanto, esse profissional da educação, deve manter-se atento a toda e qualquer informação. Por conta da internet, são muitas as informações, quase que comparada a velocidade da luz que é de 300 mil km por segundo. Quando falam em aprender ou não aprender, os alunos responsabilizam logo o professor. Por conseguinte, aquele aluno que é aplicado vai aprender mais que o outro. Levando em consideração, que os interessados e estudiosos são poucos. Há um número considerável de alunos turista e desinteressados. Que vão a escola somente para passear e encontrar amigos. Basta olhar as notas do bimestre desses brilhantes e talentosos alunos, para comprovar que realmente não gostam e odeiam quando alguém manda estudar.

Muitas vezes, o aluno pensa que a habilidade prioritária para o estudo seja a leitura de textos, seguida da memorização de conceitos e de conteúdos. Ainda preso à mentalidade antiga do questionário, da memorização de perguntas e respostas, perde-se muitas oportunidades de desenvolver um salutar hábito que poderá utilizar durante toda vida, seja qual for à área do conhecimento ou profissão que irá exercer. O estudante do ensino médio tem por obrigação de dominar mecanismos de leitura e expressão escrita. Quando o professor pede esse tipo de tarefa para seus alunos, o objetivo deve ser aprofundar e dominar determinados assuntos e conhecimentos que o aluno ainda não tem. Propor ao aluno que crie uma espécie de diálogo com o texto estudado e não mera opinião isolada, sem relação alguma com a leitura. Sendo assim, cada um terá consciência de que o saber é para ser partilhado, ele não está fechado e acabado em cada texto que se produz. Todo ensaio literário sempre tem algo a acrescentar.

Entretanto, a produção de texto não pode ser encarada apenas como uma atividade das aulas de Língua Portuguesa ou de Filosofia, isto é, ficar restrita a composição textual que focalize um tema proposto. A partir do momento em que o aluno começa a escrever, com suas próprias palavras, as idéias principais que foram desenvolvidas no texto lido, focalizando os diferentes aspectos abordados, desdobrados em assuntos secundários, mas relacionados. Aqui pode-se tratar de um "resumo" do texto. Se faz o mesmo, porém, usando as palavras contidas no texto, numa analise mais apurada e crítica, pode ser então uma "resenha". Em ambos os casos o aluno estaria recorrendo ao procedimento denominado síntese. Essas duas atividades colaboram muito no domínio de conteúdos e podem ser aplicadas não apenas a textos extraídos de livros, ou de enciclopédias, como também a reportagens de jornais e revistas, paginas da internet etc. Referem-se a qualquer disciplina que o aluno faça na sua escola, por exemplo: em filosofia, a partir do momento em que você precisa obter melhores informações. Essa produção de textos pode ser fruto de pesquisa e não deve ser confundida com relatório. As atividades de leitura e de escrita não são exercidas separadamente. Se forem integradas uma a outra, e a todas as disciplinas que estuda, o ensino-aprendizagem se tornará mais ágil e eficaz. O aluno, no entanto, tem dificuldades de fazer a conexão. Criou-se no ambiente escolar uma divisão perniciosa que só faz prejudicar o ensino: A "redação" fica aqui, a "gramática" ali e a "literatura" acolá.

Portanto, o resultado é o que todos nós sabemos, textos mal costurados, sem nenhum sentido. Desde muito tempo é sabido que quando o aluno obtém sucesso, ele é visto como capaz e inteligente. Se ocorre ao contrário, a culpa é do professor que não explica. Porém, nunca foi fácil ensinar e muito menos educar uma criança. E atualmente as dificuldades aumentaram. Contudo, o intuito, ao tecer esse comentário, não foi o de tirar o animo dos estudantes, apesar da indiferença da maioria dos alunos. Tendo em vista, que o nosso objetivo é ajudá-los a crescer. Nesta reflexão quis apenas dividir com os colegas educadores meus anseios, que são comuns a todos os mestres.

1 de abril de 2014

A TRANSFORMAÇÃO EM CAOS

Como seres humanos, nossas raízes estão mergulhadas na natureza, não apenas pelo fato de que a química do nosso corpo ser constituída, essencialmente, dos mesmos elementos que o ar, o pó ou a grama. Participamos da natureza de outras tantas maneiras, como: através da mudança de estação, do dia ou da noite, que refletem no ritmo de nossos corpos, como; na fome, na satisfação de trabalhar, no sono e no despertar, assim como também, no prazer sexual e na sua gratificação.

Embora de forma metafórica, a Bíblia apresenta a harmonia inicial da criação da natureza e do homem. Após criar os animais, Deus disse: “Façamos emergir um novo tipo de criatura, o ser humano, à nossa imagem e semelhança. Moldemos uma criatura que, em certos aspectos, seja igual ao animal, precisando comer, dormir e acasalar-se. E igual a mim em outros pontos, elevando-se acima do nível animal. Os animais contribuirão com sua dimensão física e a essa outra criatura lhe soprarei uma alma racional”.

E assim, coroando a criação, são feitos os seres humanos, em parte animais, em parte divinos. Todos os seres em harmonia, tudo em perfeito equilíbrio com a natureza. Acontece que o homem acabou por afastar-se do plano harmonioso e sereno do mundo natural. Segundo os relatos em Gêneses; não foi Deus que criou o homem deste jeito, mas foi ele que abusou da sua liberdade e matou o seu próprio irmão. Em nome do progresso envenenou-se os rios e mataram os peixes; poluíram-se o céu, o ar, e morreram os pássaros que havia sido criado para o homem conviver em harmonia. Com a guerra, o ódio, a inveja, a ganância, o homem seguiu perturbando o mundo e a natureza, foi desequilibrando tudo: o ar, as águas, as plantas, a própria consciência envenenada por pensamentos de egoísmo, de injustiça e destruição. Por conseguinte, o desequilíbrio emocional é fruto desse manicômio que ousamos chamar de sociedade, um ambiente frustrante criado pelo próprio homem.

Portanto, o homem profundamente frustrado perdeu seu referencial e mergulhou numa busca desenfreada de algo sobrenatural, nas crenças religiosas e no ocultismo. Os egípcios investigaram os mistérios dos astros. Os gregos e os romanos procuraram tutela em deuses criados por eles mesmos; e os maias, no seu calendário, com um deus tutelar para cada dia do mês. Ao longo dos tempos, todos os povos experimentaram a atração do mistério, com suas lendas, feitiços, casas mal-assombradas, lobisomem, saci-pererê, demônios, alastrando-se até nossos dias com surtos das seitas mais diversas. Apesar do imenso progresso científico alcançado através dos séculos, o homem constitui ainda hoje, para si mesmo, um mistério. Os erros se multiplicam, pois os caminhos apontados são tantos que acabam levando o homem desprevenido a uma nova Torre de Babel. 

23 de março de 2014

O MITO DA SEXUALIDADE HUMANA

Para compreender com maior profundidade a condição humana, ao ler o livro “Mito e Sexualidade”, do escritor e jornalista americano Jamake Highwater (1942-2001), analisando a interpretação fenomenológica e hermenêutica do autor, percebe-se que ele nos concede importantes elementos que possibilitam a construção de novas significações para a sexualidade humana. Esse trabalho de Highwater, na verdade é fruto das contribuições das ciências humanas a partir do século XIX e mais especificamente, das contribuições advindas das leituras marxistas, que naquele momento tiveram como protagonista o filósofo, mitólogo e pesquisador romeno Mircea Eliade (1907-1986), no que se refere à mitologia e religião. Tendo em vista, que o marxismo foi decisivo para a superação da matriz positivista a que estava subjugada a compreensão dos mitos. Até então os mitos eram tidos como uma pré-consciência para os ocidentais. Como uma irracionalidade, foi o marxismo que nos permitiu conceber os mitos, não como uma consciência pré-racional, mas, sobretudo, como uma outra racionalidade.

Entretanto, a inversão epístemológica trazida pela filosofia marxista, parte do pressuposto de que não é a consciência dos homens que determina a sua existência, mas, as condições materiais, ou seja, a existência dos homens que determina a sua consciência. Deste modo, a partir desse pressuposto, os mitos puderam ser concebidos como outra forma de racionalidade, isto na medida em que expressam simbolicamente, em outra linguagem as relações sociais, políticas e econômicas de uma determinada cultura. Bem entendido, os mitos são reflexos da condição histórica-material de cada sociedade.

O autor abre o primeiro capítulo “O sexo como destino e o destino como sexo” expondo sua preocupação com a ideia que nós ocidentais fazemos da sexualidade. Ele demonstra historicamente que na verdade, a compreensão que temos sobre a nossa sexualidade, basicamente a entendemos como pulsão inata, universal, perigosa e imutável, fixou raízes no século XVII como a invenção do conceito de “homem natural”. E que com a superação do paradigma mecanicista que lhe deu origem, a ideia de homem natural resistiu ao tempo, passando por diversas culturas, culminando com a concepção freudiana sobre a sexualidade, por isso, hoje, extremamente difusa no pensamento contemporâneo.

Dentro desta concepção acredita-se, entre outras coisas, que há uma nítida distinção comportamental e existencial entre homens e mulheres, selada desde o nascimento pelos genitais. Sendo que, ao nascer somos reconhecidos como homens e mulheres pelos genitais, nossa primeira identidade. Aos genitais também estão relacionadas às ideias do sexo como força natural obsessiva que domina a maioria dos atos e decisões humanas.

O autor visa superar essa ideia ocidental da sexualidade, negando a ideia defendida por Freud de que “anatomia é destino” (onde a estrutura anatômica do nosso corpo, nossa diferenciação sexual determinam o destino de nossa experiência). O autor propõe que a sexualidade seja compreendida como um produto de forças sociais e históricas, como uma unidade imaginária. Nestes termos, como uma invenção do espírito humano. Na mesma linha de raciocínio, que Highwater compartilha com Michel Foucault, seu principal interlocutor, a ideia de que a sexualidade é uma “elaboração histórica” e que para compreendê-la é necessário explicar o contexto que lhe deu origem.

Pois, segundo Highwater, o mito está na base e da a forma as estruturas e aos valores da sociedade. A outra questão metodológica a ser considerada nesta tese, e subtraída pelo autor das lições do relativismo, é o uso do choque de contraste entre distintas culturas, para o questionamento da relação entre mito e sexualidade na sociedade ocidental, tendo em vista que nada nos estimula mais a repensar as coisas que julgávamos adquiridas a nosso respeito, do que o contraste entre a nossa visão do mundo e a de uma cultura inteiramente diversa. A lição que o relativismo cultural nos ensina é que a mitologia é o simbolismo sexual que nela assenta e varia enormemente de época para época e de lugar para lugar.

No segundo capítulo, “A base mítica dos valores sexuais”, Highwater dedica-se ao aprofundamento das questões metodológicas que embasam seu texto, explicando minuciosamente as principais categorias que dão corpo a sua tese, tais como: “a definição de sexualidade, de mitologia, de ritual, a definição do corpo como metáfora social e mais uma vez, a discussão sobre a importância do método e do contraste entre culturas diversas na abordagem da sexualidade”. Para fundamentar sua tese, Highwater usa com abundância exemplificações de determinados fenômenos como a castidade, a bissexualidade, a masturbação, em distintos momentos históricos e em culturas variadas. Tal fato, a despeito de construir uma leitura muito rica e prazerosa, torna ao mesmo tempo muito dificultosa sua sistematização, exigindo do leitor bastante cuidado para que não se perca nas viagens explicativas, em detrimento da real contribuição teórica contida no texto.  

Segundo o autor, a sexualidade, como já discutimos anteriormente, deve ser compreendida como um fenômeno culturalmente determinado, partindo das contribuições da história e dos estudos do corpo humano, Jamake Highwater constrói a tese de que o corpo humano deve ser encarado como uma metáfora da sociedade. Para ele, há uma forte correlação entre o modo como as pessoas vêem seu corpo e o modo como vêem a sociedade a que pertencem.

O eixo estrutural desta tese consiste na relação entre mito, ritual e sexualidade; sendo assim, o próximo passo será o entendimento do que seja a mitologia para Highwater. Entretanto, para explicar o que entende por mitologia, o autor dialoga com o especialista Devid Maclagan, com quem compartilha a ideia de que o mito é: “quer na sua estrutura profunda, quer no seu conteúdo superficial, o mito tem que ver com uma relação composta entre corpo-espírito e a palavra-mundo”. É metafórico não no sentido do emprego das chamadas figuras de estilos, artifícios de mera retórica, mas no sentido etimológico da palavra; o de transpor as fronteiras de conveniência que nós estabelecemos entre os sexos, as estações, as espécies e as estrelas. Esse vazamento metafórico de informações não se efetua de modo consciente, tampouco é peculiar ao mito: penetra em flagrante tudo o que fazemos, todas as percepções que sentimos mesmo no ramo mais estritamente especializado da ciência.

E para não deixar dúvidas ao leitor, Highwater equipara a função e o significado da mitologia com o significado do conceito de novos paradigmas. Entretanto, os rituais podem, em suma, ser entendidos como elementos grupais de legitimação dos costumes, ou seja, eles sancionam a estrutura das relações sociais, dando-lhes expressões visíveis e deste modo, nos permite conhecer nossa própria sociedade. Sendo assim, nos importa agora analisar junto a Highwater, o processo pelo qual os ritos do sexo comportam dentro de si os valores míticos da sociedade. Fica evidente que no decorrer do texto, que a nossa visão da realidade é povoada de mitos e que estes mudam no tempo e no espaço, assim como mudam também os ritos do sexo e, por conseguinte, a visão sobre nossa corporeidade, visto que, o corpo é constantemente transformado pelo fluxo da mentalidade mítica.

Portanto, a tese de Jamake Highwater fundamentada na fenomenologia, mesmo assim, seja passível, com certa facilidade, de uma interpretação materialista-histórica de seu conteúdo. Para melhor aprofundamento e fazer esta leitura materialista da sexualidade, é interessante ler o livro: “Desvendando a Sexualidade”, do filósofo e educador Cesar Nunes, pois, ao tratar da história da sexualidade humana ele estabelece uma divisão textual que segue basicamente a mesma lógica temporal de Jamake Highwater, porém, consubstanciada nos trilhos da economia e não da mitologia, com fator determinante na concepção da sexualidade. 

9 de março de 2014

AS TRÊS GRANDES PAIXÕES DA VIDA

A vida de Bertrand Russell (1872-1970), filósofo, matemático e lógico inglês, abrange um período enorme, quase um século, estendendo-se da Inglaterra Vitoriana à era Espacial. Ele era uma espécie de relíquia vitoriana. Morreu de gripe três meses antes de completar 98 anos, produzindo conhecimento. Defensor de ideais pacifistas, humanitário e da liberdade de pensamento, autor do livro: “O Casamento e a Moral”, argumentava ele que o fator primordial da moral sexual na civilização ocidental, desde os primórdios do cristianismo, consistiu na garantia da virtude feminina, indispensável à família patriarcal. 

Analisava os fundamentos sociais, econômicos, religiosos e culturais da instituição do casamento. Russell não via razão, por exemplo, para condenar duas pessoas que se amam, apenas porque tiveram relação sexual fora do casamento. Além disso, afirmava para o horror dos moralistas de sua época, que uma aventura extraconjugal não deveria ser motivo de escândalo e ruptura. Tendo em vista, que a chave da compreensão das relações extraconjugais, passa primeiro pela imaginação do objeto desejado que é transformado pelos amantes na idealização da felicidade.

O fascínio que Russell exerceu sobre o público dependeu de numerosos fatores. Para além da sua longevidade, há muitas outras facetas que o tornaram único. Grande matemático e filósofo, apóstolo da paz e discutida figura política que era, Bertrand Russell alcançou um enorme prestígio mundial. Era o nonagenário que cativava os mais novos e inspirava os mais velhos; um aristocrata que desprezava a Câmara dos Lordes e se arriscava a ser preso; um anarquista por temperamento que desafiava o poder constituído; um ateu que traçou armas contra o dogma religioso e a moral convencional; um matemático e lógico cujas equações destronaram Euclides; um filósofo que procurou tornar a filosofia acessível aos leigos; finalmente, foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1950, cuja a elegância de estilo, agudeza de ironia e destreza mental remontam a uma época em que se cultivava a arte de conversar e de escrever cartas.

Entretanto, Bertrand Russell é considerado um pensador excepcional, particularmente pelas contribuições que deu à filosofia da matemática. Tem uma vasta obra de cerca de 40 volumes. A sua atividade como filósofo, como homem da ciência e como político fazem dele uma das figuras mais prestigiadas, admiráveis e discutidas de todos os tempos. Contudo, encerro essa reflexão com um delicioso texto de Bertrand Russell. Que é uma verdadeira obra de arte em prosa. Ofereço a todos que cultivam pelo menos uma das três paixões:

Três paixões, simples, mas irresistivelmente fortes, tem governado a minha vida: o desejo imenso de amar, a busca do conhecimento e uma insuportável compaixão pelo sofrimento da humanidade.

Essas paixões, como os fortes ventos, levaram-me de um lado para outro, em caminhos caprichosos, para além de um profundo oceano de angústias, chegando a beira do verdadeiro desespero.

Primeiro busquei o amor, porque ele traz o êxtases tão grande que sacrificaria todo o resto da minha vida em troca de umas poucas horas desse prazer. Procurei-o também, porque ele abranda a solidão, aquela terrível solidão na qual uma consciência em pedaço se paralisa nas margens do mundo, o insondável e frio abismo sem vida.

Procurei-o finalmente, porque na união do amor vislumbrei, em mistica miniatura, a suposta visão do paraíso que santos e poetas imaginaram. Isso foi o que procurei e, embora pudesse parecer demasiado bom para a vida humana, foi o que finalmente encontrei.

Com a mesma intensidade busquei o conhecimento. Desejei entender o coração dos homens. Desejei saber por que as estrelas brilham. E tentei apreender a força pitagórica pela qual o número se mantem acima do fluxo.

Um pouco disso, não muito, conquistei. Amor e conhecimento, até onde foram possíveis, conduziram-me aos caminhos do paraíso. Mas, a compaixão sempre me trouxe de volta à Terra. Ecos de gritos e de dor refletiram em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desassistidos como um odioso fardo para seus filhos, e o mundo inteiro de solidão, miséria e sofrimento, transformam em arremedo o que a vida humana deveria ser.

Portanto, anseio ardentemente aliviar o mal, mas não posso, e também sofro. Esta tem sido a minha vida. Achei-a digna de ser vivida, e prazerosamente a viveria outra vez se uma nova oportunidade me fosse oferecida”.

26 de fevereiro de 2014

INTOLERÂNCIA GERA DISCRIMINAÇÃO

A intolerância é uma atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade que as pessoas têm de reconhecer e respeitar as diferenças de crenças e opiniões de cada um. Alguém pode definir intolerância como uma atitude expressa, negativa ou hostil, em relação às opiniões de outros, mesmo que nenhuma ação seja tomada para suprimir tais opiniões divergentes ou calar aqueles que as têm. Tolerância, por contraste, pode significar “discordar pacificamente”. A emoção é um fator primário que diferencia intolerância de discordância respeitosa, que pode indicar preconceito, podendo levar à discriminação de todos os tipos.

A discriminação mata, mas muito antes de matar fisicamente ela faz infeliz o que se sente pecador, impossibilita a vida do que é excluído do convívio social, descaracteriza os que são empurrados para o gueto, cria um verdadeiro inferno para aqueles que pensam diferentes das normas aceitas. Todavia, a discriminação da munição ao que quer matar o diferente, aquele que não aceita imposições. Entretanto, anima-o a desconsiderar os sentimentos do outro e justifica a sua irracionalidade dizendo que sempre agiu certo e o outro que é o errado, por isso ele envenena todo o ambiente por onde passa. Contudo, a covardia é mãe da intolerância. Tudo se faz em nome do amor, até mesmo matar o outro emocional e fisicamente. Construímos a infelicidade de muitos e deixamos de cultivar os bons sentimentos, e fazer deles a oficina de um mundo melhor, onde o prazer da diversidade seja apreciado como expressão do Sorriso de Deus.

Todas as pessoas que tem certeza do que falam e fazem, na verdade, são intolerantes. Se elas estão certas sobre suas ideias, por que vão ouvir as outras pessoas? Naturalmente, quem tem certeza em tudo que fala e faz não se pode dizer aberta a novas ideias. Por conseguinte, essa pessoa se arma de preconceito e vai ficando cada vez mais fechada dentro do seu encantado mundinho de certezas. Na verdade, sempre que surge um conflito entre pessoas ou casais, sempre tem alguém que acredita estar certo, que nunca errou e sempre manteve um diálogo aberto e franco, o outro é que faltou com a sinceridade. A culpa sempre recai no outro, sendo que todos os envolvidos têm tudo a ver com esse conflito. Mas, nesta hora ninguém assume o veneno que destilou por conta da sua intolerância.

Portanto, o intolerante só tem a perder, porque afasta as pessoas do seu convívio. Esquece que para viver feliz é preciso aprender a praticar trocas recíprocas de generosidade. Receber da natureza e dos mais viventes os alimentos da alma e os carinhos que nos podem oferecer e oferecendo cada qual de nós também o melhor para os que partilham conosco a aventura de estar vivos. Como disse o poeta Vinicius de Moraes (1913-1980): “Quem de dentro de si não sai. Vai morrer sem amar ninguém”. Vou um pouco mais além. Quando a primavera chega e embeleza os campos com seu verde fascinante, isto só se da porque cada broto em cada ramo cumpriu sua tarefa de florescer de novo. A importância do ser humano está nas grandes revoluções sociais, mas está também nas conversões interiores à vida digna. Viver com dignidade é saber amar e respeitar o seu próximo.

16 de fevereiro de 2014

OS ENCANTOS DA SERPENTE

Vivemos num mundo de ilusão e contaminados por uma falsa ideologia. Consumimos diariamente o mortífero veneno da serpente do preconceito. De quantas destruição são capazes os preconceitos. Talvez a maior deformidade e defeito moral da sociedade de todas as épocas tenham sido, as personalidades preconceituosas. Vejo o preconceito como uma espécie de “loucura mansa”, nem sempre tão mansa em razão da sua carência de motivos justificáveis. Certas pessoas e classes sociais, inventam um mundo para si e, feito numa espécie de delírio, sem nem dar razões mais inteligentes ou solidas, decidem o que é aceitável e o que não é, o que é certo e o que é errado. Elas se vestem, algumas usam roupas nada comportadas, calçam sapatos finos e se enchapelam em suas ideias preconcebidas, tornando-se arbitrários como os fanáticos e os loucos.

Na mitologia grega, Medusa era uma deusa muito bonita, que quando lançava seu olhar sobre as coisas vivas, as transformava em pedra. Por esta razão o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), dizia que nos seres humanos, os preconceitos funcionam como “olhares de Medusa”: as pessoas olham para seus semelhantes lá de dentro dos seus valores e, segundo as suas predições e neuroses, petrificam-nos num rótulo, num preconceito. Hoje em dia é preciso estar bem atento para que não se caia no doce engano de que mudar de preconceitos seja alguma forma de libertação. Para o escritor que vive da observação e tem uma boa história para contar, pode encontrar com uma Medusa e ter sua obra petrificada.

Está claro que todos os tipos de preconceitos são armas mortíferas contra o bom relacionamento humano. Grande parte das pessoas mais velhas, tende a avaliar o mundo dos jovens de dentro da mentalidade que sua história de vida lhe legou. Afinal, nem sempre é fácil acompanhar os tempos e passar, na vida, por infindáveis adaptações. O primeiro impulso psicológico é medir os outros por nós mesmos. Daí os mais velhos tenderem a ver, no modo de pensar e agir do que estão chegando para a vida mais socializada, traços de irresponsabilidade, de mau gosto, quando não de decadência mesmo. Parece que a juventude ameaça criar um mundo ruim, porque é diferente daquele idealizado pelos de mais idade. Às vezes alguns chegam a desconfiar de que os adultos nutrem, no profundo de si, uma secreta magoa de já não poderem ser tão jovens e audaciosos como os rapazes e moças. Em muitos lares e instituições de ensino, instala-se uma autêntica guerra entre novos e idosos ou mais vividos.

Por outro lado, o que há de problemático é que os jovens encontram quase sempre, para si, o mesmo caminho vicioso. Desenvolvem de seu lado, outra quantidade de preconceitos contra o modo de ser dos da geração anterior. Esses jovens são afiados na inventividade linguística e no bom humor. Nos chamando de “tio dinossauro, careta, quadrado, surfista de banheiro, etc”. O humor até que é bom, mas a agressividade não é. Parece para muitos jovens que o mundo está embolorado pelos coroas. Aqui está uma expressão cruel para os idosos.

Entretanto, sentimos vontade de questionar: “Será que para combater preconceitos o caminho seja inventar outro? O remédio para um vício seria assumir outro igual e contrario? Quem conseguirá escapar assim, dos terríveis olhares de Medusa?" Se o erro de um provoca o erro dos outros, esse caiu no encantamento da serpente. Roda-se e volta sempre ao mesmo lugar de onde se quer saiu. É preciso que coloquemos com muito cuidado, o problema de como quebrar os encantos da serpente dos preconceitos, que tanto envenena a humanidade. É bom lembrar que o preconceito nasce da insegurança e da fraqueza humana, pode nascer até de um certo medo de enfrentar a vida. Sobretudo, para aqueles que estão atras do fácil, e não se importam com a construção de boas relações interpessoais.

Portanto, a vida acaba nos colocando ante duas possibilidade. Ou o preconceituoso que nos provoca é um ser humano frágil, embora inteligente e sensível – e aí está nossa tarefa de dar-lhe concreta ajuda em questioná-lo; ou por outro lado, o preconceituoso que cruza nossa estrada é um desinteligente, que nunca saberá ouvir argumentos alheios. E neste caso cabe-nos somente deixá-lo com seu mundinho. O que jamais será bom, o que nunca será produtivo para ninguém, é atirar um erro contra o outro, passar a vida acumulando e gastando munições inúteis, com pessoas infectadas pela serpente do preconceito. Contudo, depois o tempo passa, nós passamos, e nada se passou em nossas vidas que as tornassem mais vigorosamente dignas de ser vividas.

A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele m...