29 de março de 2017

OS VALORES VALEM E AS PESSOAS SÃO

Todos os dias cada um de nós tomamos decisões e agimos de acordo com os nossos valores. Os valores não estão nas coisas em si, eles dependem de quem avalia por isso os valores podem variar de pessoa para pessoa. Os valores podem mudar com o tempo. Quando os nossos valores mudam, muda o nosso olhar sobre as coisas do mundo. Os valores valem e as pessoas são. O que isso quer dizer? Isto quer dizer que, os valores não são propriedade das coisas ou das pessoas. Os valores só existem na medida em que alguém avalia e valoriza, portanto, há muitas diferenças nos valores. Valor implica sempre uma relação de sujeito com um objeto. Quanto vale uma árvore contada, por exemplo? Ela tem valor diferente para cada pessoa. Para um ambientalista ela tem um valor estético, que justifica sua preservação. Para o biólogo a árvore abriga varias espécie de pássaros, que ficariam prejudicados se ela fosse derrubada. A preocupação como a sobrevivência com outras formas de vida é um valor ético. Para uma pessoa gananciosa e materialista isso não significa nada a não ser o lucro que vai ter com a derrubada da árvore.

Nós decidimos e agimos em função de valores que temos. Porém, o mais certo seria dizer, que as nossas decisões de ação mostram quais valores na verdade, nós temos. Porque muitas vezes nós dizemos que acreditamos em tais valores e agimos de outra forma. O valor de verdade é aquele valor que se manifesta na nossa ação. Se digo que sou contra mentira, contra a traição, contra a falsidade e contra o roubo e na pratica eu minto, traio, falsifico e roubo, esse é o meu valor. As pessoas que têm valor nas nossas vidas são escolhidas por nós, assim como a prioridade que lhes damos. As etapas pelas quais passamos determinam de forma perigosa as máscaras que vestimos e as máscaras que os outros usam. Por isso, para desmascarar egoísmos e falsas companhias, primeiro é preciso limpar as próprias lentes e perceber o suicídio que significa ter a pretensão de ser como os outros esperam e anseiam que sejamos.

Quem inventou os valores? Foram os homens que inventaram os valores e estão continuamente avaliando e reavaliando seus valores. E nesse processo de revisão permanente, os homens buscam valores que proporcionem uma vida melhor, mais justa, digna e solidária, que convive o pacífico entre todos. Na perseguição desses valores, o homem vai se modificando e aprimorando como se estivesse numa olimpíada. Para o filósofo alemão Friedrich Nietszche (1844-1900), a ação mais alta da vida livre, é o nosso poder para avaliar valores. Para ele o bem o mal não são valores existentes em sim mesmo. Tem uma identidade e uma significação independente dos grupos humanos ou dos indivíduos em confronto que define o que é o bem e o que é o mal. Esses valores nunca são questões eternas, mas elas dizem respeito sempre a aquilo que é mais forte para afirmar o seu ponto de vista e aquele que tem que sofrer esse ponto de vista. Portanto, há sempre uma relação de força, é sempre o mais forte que age pela a afirmação dizendo, algo é bom e imediatamente o mais fraco na vontade diz isto é um mal.

Portanto, os valores são entidades virtuais, eles não existem na realidade, não são propriedades dos objetos, são atribuídos as coisas pelo sujeito. Os valores só existem na medida em que uma pessoa avalia e valoriza. Por isso existem muitas diferenças nos valores. Eles variam conforme a época e os critérios das pessoas. Todas as nossas decisões são baseadas em valores e quando nossos valores mudam, muda a nossa maneira de ver o mundo. O ideal é que cada pessoa busque os seus valores internamente, e saiba como trabalhar com eles para alcançar seus objetivos. Pare por um momento da correria do dia a dia, relaxe tranquilamente, seja num banco de praça, em um café, logo após o almoço, escolha um momento para ser somente seu, e faça a seguinte pergunta a si mesmo: “O que é importante para mim?” Na grande maioria das vezes, as respostas que você obter desta pergunta, irá indicar seus valores. Contudo, falamos de vínculos saudáveis e insanos, de pessoas que nos enriquecem e pessoas que nos prejudicam com seus costumes e com expectativas. Somos obcecados por agradar o mundo todo, o que acaba gerando a sensação de que estamos rodeados por uma quantidade mais do que por qualidade. Normalmente isto muda com o passar do tempo e seja pelos anos ou pelos danos, começamos a dar prioridade a aqueles que realmente, consideramos importantes nas nossas vidas.     

28 de março de 2017

O AMOR É NECESSÁRIO

Estou convencido assim como muita gente boa está, de que a resposta que o homem precisa dar à vida é o sair de si, ter atitudes não egocêntricas e exercitar a capacidade de amar, de autotranscendência, ter realmente gosto pela vida. No filme “Tempo de Despertar”, com Robert De Niro, após passar quase trinta anos de sua vida em estado de inconsciência, ao despertar, nos dá um exemplo do amor que sente pela vida, dizendo: “Que as pessoas esqueceram o que é viver, estar vivo. É preciso que lembrem o que tem e o que podem perder. Sinto a alegria de estar vivo. O dom da vida. A liberdade de viver. A maravilha que é viver. As pessoas não apreciam as coisas simples, como trabalho, lazer, amizade e família”.

Comenta Leo Buscaglia, no livro “Amando Uns aos Outros”, que certa vez soube de um homem de vinte e poucos anos que foi encontrado morto em seu apartamento no campus da universidade de Miami, onde estudava. Os jornais disseram que ele havia sido visto pela última vez no dia de Ação de Graças. Quando o encontraram, ele já estava morto há dois meses. Sua ausência não foi percebida por ninguém, sequer no Natal, continua ele. “Cada vez mais somos privados das oportunidades de contatos pessoais, e a possibilidade de formar relacionamentos duradouros se torna cada vez mais difícil”. Buscaglia lembra o escritor e o filósofo Allan Fromme que dizia: “Nossas cidades, com o aumento de suas populações, seus arranha-céus, estão criando espaços para solidão. Vizinhança desintegra-se sob escavadoras dos construtores, e famílias se dispersam na busca de empregos e profissões em todo lugar”. Eu vou um pouco além, num mundo de rodas de amigos e de altos papos estão se acabando. Ninguém tem mais paciência para ouvir o outro. As pessoas não conversam mais, falam como papagaios, cada um com seus problemas. Os velhos e familiares vizinhos estão sumindo.

Eric Berne, eminente psiquiatra, que estudou vários aspectos das relações entre indivíduos, estava preocupado em aproximar novamente as pessoas na intimidade. Ele nos mostrou como muitos papéis e jogos que desenvolvíamos estavam impedindo a comunicação, distanciando-nos uns dos outros e destruindo qualquer possibilidade de nos tornarmos íntimos de amigos e amantes preciosos. Uma das maiores reclamações entre os jovens de hoje é a de que, apesar de receberem atenção material, sentem-se privados de um relacionamento íntimo com seus pais.

Nada melhor que nossa experiência para ilustrar. Sou pai de três filhos: Eduardo Junior, Danielle e depois de vinte e três anos veio a Maria Eduarda, que hoje está com seis anos de idade. Quando eles nasceram saudáveis não perguntei por que. Por que tive tanta sorte? O que fiz para merecer essas crianças perfeitas? Mas quando eles adoecem, eu pergunto por que. Quero saber o por quê? O que está acontecendo? Eu me sinto bem quando os vejo, principalmente sabendo que estão bem. Talvez seja porque no amor há uma alegria. Eu diria um gozo, como se aquilo que se deseja, dele já se disponha. É por isso que nada podemos fazer sem amar, nem mesmo aprender com nossos jovens. Começar uma pesquisa, reformar um país, cultivar um jardim, salvar uma civilização, educar uma criança, estudar musica.

Para fazer é preciso desde o início encontrar-se no amor, possuir o futuro que ainda não existe. Se cultivar um jardim, é preciso desde já gozar desse jardim como se ele já estivesse cultivado. Se educarmos uma criança, é preciso que nos transportemos para o fim e nela já vislumbremos o novo homem ou a nova mulher. Aprender a tirar melodias de um instrumento como se já estivesse fazendo um grande concerto, para uma calorosa plateia.  Se é a reforma ou a salvação de um país, é preciso ver estas coisas como possíveis, praticáveis, apesar das dúvidas que nos causam, das nossas inseguranças nos políticos. A isto se chama amar. Muitos dirão como disse certa vez uma amiga estudante de psicologia: “isto não é amor, mas sim esperança, fé, entusiasmo, qualquer outro sentimento, menos amor”.

Sem dúvida, posso até concordar, mas o amor contém todas essas coisas. O amor é um sentimento de prazer e felicidade. O amor aplica-se à afeição do homem e da mulher, imagino que é aí que ele se acha mais encarnado, mais sensível e figurado pelos movimentos do sangue nos dois corpos. Sinto que as pessoas estão brincando cada vez mais com coisas tão séria como é o amor. O filósofo Regis de Morais numa linguagem poética demonstra: “O amor é um rico encontro humano cuja, a duração não deve ser discutida. O amor está na arte em que duas pessoas precisam conquistar de um relacionamento feito de compreensão e generosidade. Tudo dependerá da convivência”.

Acredito que o amor é fruto de uma amizade constituída, pautada na confiança. Primeiro construo o alicerce e depois levanto as paredes deste imenso complexo chamado amor. É muito bom encontrar pessoas que realmente amem a vida. Certa vez ouvi da minha amiga Aparecida Helena, educadora em Londrina, Estado do Paraná, a seguinte frase: “Prefiro ser uma pessoa menos jovem, mas com espírito de adolescente, do que um adolescente com espírito cansado”. O mistério escondido, a bondade e o sentido de cada coisa não se alcançam só pelo conhecimento. É preciso ainda uma aposta razoável de que, atrás do mal tudo é bom, de que atrás das nuvens o sol brilha. Esta certeza é a fé que tenho de que o amor é necessário, é o alimento da alma, fundamental para a nossa sobrevivência.

A minha saudosa mãe Lazara Alexandrina de Jesus, mais conhecida como Dona Lazinha, que faleceu aos cento e seis anos de idade. Ela disse certa vez uma frase para um conhecido nosso, que nunca mais saiu da minha memória: ”Não sou ninguém, mas sou muita coisa. O senhor tem razão, mas eu tenho muito mais”. Penso até hoje na força dessa expressão. O quanto de fé e amor próprio está contido nesta frase. É como se ela dissesse: “o primeiro amor da minha vida sou eu mesma. Primeiro me amo, para depois amar meu próximo”.

Portanto, o amor é a única resposta ao problema da existência humana. Mas temos a tendência de considerar o amor uma coisa superficial e basicamente dispensável. A maioria das pessoas renuncia o amor desde muito cedo na vida. Como se ele não fosse vital. No entanto, crucificaram Jesus Cristo, deram um tiro em Mahatma Gandhi, assim como assassinaram Martin Luther King, decapitaram Thomas More e envenenaram Sócrates. A sociedade tem pouco espaço para a honestidade, a ternura, a bondade ou o interesse pelo seu próximo. Como disse Gandhi: ”Tudo o que vive é o teu próximo”. 

21 de março de 2017

O ROSTO HUMANO SE ENCONTRA DESFIGURADO

O individualismo é a mais cerrada solidão; enquanto que o coletivismo de cunho burocrático é outra dura modalidade de solidão. Só mesmo o movimento de entra-se em relação autêntica com o outro é que permite a redescoberta do sentido profundo de existir convivendo. De modo que o ser humano, no mundo e em comunhão com o mundo, foi sempre tema nuclear de si mesmo. Para o filósofo austríaco-judeu Martin Buber (1878-1965), que examinaremos nesta reflexão levantou varias indagações sobre a relação do homem com a sociedade de consumo. Assim por exemplo: qual o lugar que corresponde ao homem no cosmo? Quais as suas relações com o destino e com o mundo das coisas? Como o homem se relaciona com o seu semelhante na sociedade de consumo?

Na obra central de Buber, “Eu e Tu”, colhemos suas próprias palavras: “São três as esferas nas quais o mundo da relação se constrói. A primeira é a vida com a natureza onde a relação permanece no limiar da linguagem. A segunda esfera é a vida com os homens, onde a relação toma forma de linguagem. A terceira é a vida com os seres espirituais, onde a relação embora sem linguagem gera a linguagem”. Contudo, é claro que as relações humanas estão desfiguradas por conta da modernidade líquida. As pessoas se relacionam como se o outro fosse objeto. A relação eu-isso entre pessoas tem aspectos patológicos, oriundos de fixações emocionais no desenvolvimento de traumas sofridos nos intercâmbios afetivos e deformações da personalidade produzidas pelo descaso humano da sociedade de consumo.

Há seres humanos infelizes que se tornaram incapazes de amar, só querem ser amados. São aquelas pessoas impotentes para se afeiçoar, vivendo o que poderia ser chamado de déficit de alteridade que só lhes permite ver os outros como objetos úteis e convenientes. Não é necessário acrescentar que, para essas pessoas desventuradas, o seu próprio eu decai para a condição objetal. Cito Santo Agostinho (354-430), que construiu belos pensamentos em torno dos vocábulos latinos frui e uti: “Fruir é inteiramente diverso de utilizar; a fruição implica comunhão prazerosa, enquanto que a utilização só diz de manifestações frias”. Lembro aqui estas ideias de Agostinho porque uma das coisas que mais têm degenerado as relações interpessoais é esse pragmatismo com o qual pergunto apenas se o outro – meu semelhante – pode ou não ser-me útil.

O eu da relação eu-isso difere do eu da relação eu-tu. O primeiro eu apenas observa e estabelece juízos de valores, enquanto o segundo, diferentemente de ser uma coisa em si mesma, é algo que acontece na comunhão relacional do “encontro humano”, E há nisto uma dinâmica especial, pois o tu é evanescente por não ser estaticamente objetivado; de modo que há a exigência de uma busca constante do relacionamento eu-tu. Ora, entre pessoas cujo encontro humano foi de tal modo legítimo que lhe estreitou a convivência em verdadeiro amor, seguem acontecendo momentos de eu-isso como acidentes neuróticos da relação. De qualquer forma, nessa relação ocorre necessariamente que o tu seja o outro polo do nosso eu, pois este só pode ser confirmado na plenitude de sua humanidade por um tu. Tal confirmação está, é claro, no fato da “exigência de reciprocidade”.

Portanto, no livro “Eu e Tu”, trata-se de uma obra profundamente filosófica. Para compreender a filosofia do diálogo em sua totalidade seria necessário ter conversado com o próprio Martin Buber, devido ao tamanho da complexidade presente na sua obra. Entretanto, a despeito de toda complexidade (que demonstra a riqueza e validade da obra) é possível inferir que compete nos priorizar a relação eu-tu, principalmente, em se tratando do Tu eterno, o encontro com Deus. Sem esquecer, porém, que a experiência através da palavra-princípio eu-isso é necessária para o nosso conhecimento de mundo. Devemos também, enxergar a natureza como um tu e não como um isso, pois, na relação eu-isso visualizamos a natureza como um tu e não como um isso, pois, na relação eu-isso visualizamos a natureza como um fim útil, assim como o mundo capitalista à enxergar, implicando por sua vez, nos desastres ambientais visto atualmente e na situação pré-apocalíptica em que colocamos nossa casa mãe no eu-isso

11 de março de 2017

O POETA E A PRINCESA

O amor é como o sol. Uma nuvem pode escondê-lo, mas nunca apagá-lo. Quando daqui algum tempo, espero que muito distante, chegaras aos confins do azul do céu e guardaras justamente no olhar da princesa toda cor deste planeta, que com rosas vermelhas enfeitou o amor que o poeta fotografou. Que alegrou a beleza dos rios e dos verdes campos por onde ela pisou. E as canções de amor que ouvia no silêncio da noite, entre uma melodia e outra o poeta lia nas estrelas as inspirações que escrevia.

Vem mais um dia semear esperança num coração solitário. Uma semente caída de uma árvore pode produzir outra árvore, porque a natureza é feita dessa energia descrita no amor. Só um sonho vagarosamente pela noite adentra e não amanhece se a realidade não vier contemplar o despertar desse amor. Por esse passado o poeta e a princesa, viveram a eternidade de um coração inspirado. Como uma força cósmica, todas as tardes vêm semear esperança neste coração solitário.

O silêncio para o poeta é marca de sua inspiração. Falar da princesa é como pintar a natureza. Uma música veio seguindo os passos da princesa e o poeta pode ver o brilho em teus olhos, como a cauda de um cometa riscando o céu estrelado em noite fria de inverno. O balanço da música brincava com o espaço solitário do poeta, renovando os anos passados em cada nota musical. Ambos não querem morrer, pois querem ver como será envelhecer.

A princesa construiu na cabeça do poeta uma nova moradia. Embriagados pelo amor da fonte universal, olham o vento brincando no quintal, embalando as flores do jardim e transformando tudo em sinfonias. Com essa musicalidade do corpo, é que renova a gratidão de haurir a leveza, que a razão incendeia. Os olhos é uma janela acesa de vida, que tritura as ansiedades e acolhe gente que chora como este simples poeta.

Já dizia o poeta: “deixa o rio andar ou empurra um rio abstrato, mantendo as vidas da vida”. Rasga por dentro uma dor que machuca em cores, a vida passa como cortes de metal, em vagalhões de mar e luz, misturando o céu e a terra. Vinda de outras vidas sangra o espírito que o amor espera. O poeta ouve o que as coisas dizem. Sua fala é a voz das coisas. E as coisas se transformam em poesia. O poeta entra no universo das coisas e faz amor com as palavras. Eis que surge a princesa e penetra no corpo do poeta e o novo evangelho se anuncia: “o amor se fez carne”. Agora, ambos estão vivos e a prova de que permanecem no amor é a saudade que eterniza a memória de seus corações. Nesses versos mostra que a vida anterior que retorna em forma de dor que não dói, mas pode ser fatal.

22 de fevereiro de 2017

ESTAR SOZINHO É NÃO SE SENTIR SÓ

Além dos avanços tecnológicos do início deste milênio, as relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor. O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu mal-estar. A ideia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade nasceu com o romantismo e está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos.

Durante séculos acreditou-se que seria assim mesmo. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais as mulheres. A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: “o outro tem que saber fazer o que eu não sei fazer”. Uma ideia prática de sobrevivência e pouco romântica por sinal. Certa vez li uma frase postada por uma mulher, que dizia o seguinte: “Enamore-se de um homem que se interesse por você, que conheça suas forças, suas ilusões, suas tristezas e que ajude a superá-las”. Na verdade, o que essa mulher está buscando, não tem nada a ver com o amor romântico. Nesta frase está implícito outros interesses que não o amor.

A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso me submeter, o que é muito diferente. Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficarem sozinhas e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem. No entanto, o ser humano é um animal que vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando para se adaptar ao mundo que fabricou.

Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira, moral ou afetiva. A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. No mundo da modernidade, vivemos um novo comportamento, que visa à aproximação de dois inteiros e não a união de duas metades, como pensava Platão. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o individuo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva e amorosa.

A solidão é boa quando estou comigo, ficar sozinho não é mais vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.

Portanto, todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontrada dentro dele mesmo e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um. Contudo, o amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. Se não houver respeito, ambos estão vivênciando um amor infantil e imaturo.  

17 de fevereiro de 2017

COM O DESPERTAR DA FILOSOFIA NASCE ADMIRAÇÃO

O sentido grego da palavra admiração é o “espanto”. Quando estamos diante de uma situação diferente, inesperada, que pela qual temos uma atitude de admiração e esta atitude é o ponto de partida para o ato de filosofar, pois nos leva à descoberta de nossa própria ignorância e à indagação sobre o que ignoramos. Por exemplo, todos nós convivemos com determinados padrões estéticos, morais, políticos etc. Quando algo nos é apresentado fora do que esperamos, nos perguntamos: como isso é possível? Todos nós temos um determinado padrão de beleza, no entanto, vez ou outra surpreendemo-nos com uma obra de arte que pode ser mais bela ou então que não possui os critérios de beleza que imaginamos. Diante desse espanto, desta admiração, iniciamos um processo de questionamento que leva à ampliação de nossa compreensão sobre o que é o belo. Neste comportamento adquirimos consciência de nossa ignorância e procuramos ampliar nossa compreensão, perguntando e questionando sobre os nossos valores. Assim como a beleza, o mesmo ocorre com outros temas.

A atitude da admiração, do espanto, quando nos desperta para certas interrogações, é a manifestação do desejo de saber, do qual falou o filósofo Aristóteles (384-322 a.C.), sendo que para ele desejo é um movimento ou atividade da faculdade do desejo ou vontade, que move o corpo em direção ao objeto desejado, faculdade esta não racional, embora capaz de dialogar com a razão. Aristóteles nos diz que o desejo é um gênero que compreende três espécies, como: “querer, apetite e impulso”. Este desejo, por sua vez, não é um comportamento utilitário, pois neste caso, outros interesses, que não a procura do conhecimento poderiam sobrepor às indagações que o homem pode fazer sobre o objeto desejado. Há um entendimento que bombardeia nossos impulsos e que estimula nossa vontade. E esta é uma especificidade do conhecimento filosófico. A admiração, no entanto, só despertará o indivíduo para a filosofia se ele for capaz de indagar sobre seus conhecimentos e suas práticas. Se a admiração não servir para ampliar nossos horizontes, através de um questionamento, ela pode servir também para uma atitude alienante e dogmática, o que é o oposto do que se busca com a reflexão filosófica.

Portanto, diante do espanto as pessoas podem se render aos encantos e medos, despertando uma admiração ingênua, que torna o homem um ser passivo, ou ainda, um amedrontado que não questiona, não problematiza, e simplesmente admite que existem coisas desconhecidas, mas não se atreve a indagar sobre elas. A mesma admiração que é o ponto de partida para o exercício do filosofar pode ser um comportamento que preserva a ingenuidade e não leva ao questionamento. O que vai diferenciar é o modo como as pessoas reagem diante de questões que surgem a partir de nosso cotidiano. A reflexão filosófica é acessível a todos e em todas as etapas da vida, pois como afirmou o filósofo grego Epicuro (341-271 a.C.), fundador do Epicurismo, filosofia baseada na identificação do bem soberano como o prazer. Para ele, nunca se deve dizer que é cedo demais ou tarde demais para filosofar, pois dizer isso equivaleria dizer que a hora de desejar a felicidade ainda não chegou ou então que ela já passou.

14 de fevereiro de 2017

A FILOSOFIA NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

Há grande interesse de várias áreas de estudos pela filosofia, entre elas a pedagogia, a linguística, a psicologia, a biologia entre outras, no entanto, ainda para muitos alunos e para alguns profissionais destas áreas ela parece tão distante e complicada, deixando grandes dúvidas sobre sua importância para a formação do homem na sua totalidade. Na pedagogia que tem como objeto a educação, a filosofia tem grande valor, e é nesta perspectiva que este trabalho irá direcionar seu olhar. Ao fazer a leitura do texto: “A Contribuição da Filosofia para a Educação” do filósofo e educador Antônio Joaquim Severino, percebe-se que a filosofia e a educação são interligadas desde suas origens, e a ligação entre as duas é de extrema importância no momento de se refletir sobre a educação, mesmo que, a essa relação hoje seja vista de forma deturpada, separada, desvinculadas uma da outra o que tem dificultado muitos estudos nesta área. Pois se sabe que muitos dos problemas que se tem hoje no campo educacional, só pode ser resolvido a partir de uma abordagem filosófica.

Desde o século VI antes de Cristo, quando ocorreu o surgimento da filosofia, ela foi posta como uma nova ordem de pensamento. Nela, há liberdade de pensamento, portanto, torna-se uma tarefa impossível encontrar uma definição pronta. Encontraremos uma constante busca pelo aprender a filosofar. Como diz o filósofo alemão Emmanuel Kant (1724-1804): “não há filosofia que se possa aprender; só se aprende a filosofar”. O fato de amar a sabedoria é entendido como reflexão do homem acerca da vida e do mundo. Sendo assim, entenderemos que a filosofia não é o saber mesmo, ou seja, ciência e sabedoria ao mesmo tempo, e sim, o desejo, a procura por este saber.

A essência da filosofia é a procura do saber e não sua posse. Se for a procura e não a posse, podemos dizer que o trabalho filosófico é um trabalho de reflexão. A palavra reflexão vem do verbo latino “reflectere”, que significa voltar atrás. Filosofar, portanto, significa retomar, reconsiderar os dados disponíveis, revisar, examinar detidamente, prestar atenção e analisar com cuidado. Com efeito, entendemos que a filosofia é o meio pelo qual o homem se torna crítico, pois, é a partir do momento em que passa a pensar, a refletir, analisar os conceitos da sociedade, que se vê como um membro com possibilidade de viver e de alterar o funcionamento desta. Somente assim que conseguimos expor ideias novas e interagir sobre o meio em que vivemos.

No entanto, a filosofia afirma que é a partir do convívio e da ação do homem com e sobre a realidade, que ele se forma e se estrutura. Sendo assim, constata-se que o senso comum a respeito da educação é o de uma formação fragmentária, incoerente, desarticulada, enfim, totalmente desprovida de certeza. Historicamente, pode-se ver que a educação vem sofrendo modificações, as quais, por sua vez, visam torná-la mais adequada à realidade. Enquanto na consciência filosófica acontece o contrário, pois, é uma concepção com total coerência, unidade e articulação. E ainda fornece à educação uma reflexão sobre a sociedade na qual está situada.

Entretanto, compreende-se que a educação está aberta a questionamentos. Por isso, acredita-se que a filosofia é uma das muitas alternativas para se tentar pensar a educação como instrumento de transformação social. A reflexão filosófica sobre a educação é que da o tom a pedagogia, garantindo-lhe a compreensão dos valores que, hoje, direcionam a prática educacional e dos valores que deverão orientá-la para o futuro. Então, se constata que a pedagogia nada mais é do que uma concepção filosófica da educação, a qual deve ser exercida na práxis, para obter seus melhores resultados.

A relação da filosofia com a educação existe desde o mundo grego. Os filósofos gregos, em busca da virtude humana, foram os que deram início às discussões sobre a filosofia da educação e seu sentido no mundo. Pode-se dizer que a filosofia da educação surgiu do forte vinculo entre a filosofia e a pedagogia estabelecido no decorrer dos anos, pois a filosofia, preocupada com as formas do conhecimento perfeito, orientou o homem segundo a razão, inferindo um pensamento pedagógico que busca a perfeição. Presente na dicotomia e na relação que parece animá-la, a filosofia da educação na segunda metade do século XX tematiza o contraste entre cultura científica e cultura humanística.

A diversificação, bastante clara nos últimos anos, permeia de um lado a filosofia de cunho descritivo e, de outro, a filosofia de tipo histórico e ontológico. Todavia, a filosofia da educação, no seu acontecer histórico, esclareceu muitas dúvidas, contribuindo para transformações qualitativas na sociedade. Torna-se importante retomar e discutir o sentido do filosofar nos cursos de formação de professores, para que os futuros profissionais da educação possam atribuir novos significados às práticas docentes. Acredita-se que a filosofia leva ao trabalho de pensar, refletir, raciocinar e, assim, despertar o senso crítico e, consequentemente, auxiliar a construir uma nova visão de sociedade, onde, pressupõe-se que a educação é a principal responsável pelas transformações da mesma.

Portanto, a filosofia desperta no educador o interesse da busca de novos horizontes, neles tem a oportunidade de refletir sobre a educação, nesta visão consegue-se ultrapassar a mera busca de metodologia, didáticas e outros tipos de sistematização para a pratica educativa. Começa-se a pensar e a buscar soluções para as inquietações que surgem. A filosofia da educação torna-se importante neste sentido, pois é por meio dela que teremos oportunidade ou buscaremos conhecimentos que nos darão base para exercemos nossas profissões com responsabilidades. Todo educador deveria buscar estes conhecimentos e conhecer realmente o sentido de educação e sua relação com a filosofia. A reflexão filosófica sobre a educação é que da o tom a pedagogia, garantindo-lhe a compreensão dos valores que, hoje, direcionam a prática educacional e dos valores que deverão orientá-la para o futuro. Contudo, acredito que é essencial a busca pelo conhecimento filosófico, pois ele consegue envolver o educador plenamente na busca de resposta e de soluções em sua prática educativa.  

A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele m...