18 de outubro de 2022

SEMPRE HÁ QUEM QUEIRA O QUE O OUTRO DESPREZA

Para o filósofo e educador Marcel Camargo: "sempre vai existir alguém que queira o que o outro despreza. Se alguém não cuidar, outra pessoa vai. Se alguém não valorizar, outra pessoa vai. Entende uma coisa, sempre vai existir alguém disposto a fazer o que outra pessoa não faz".

Muitas vezes as pessoas vão perdendo alguém aos poucos, uma vez que estão por perto, mas, na verdade, nunca estão realmente com essa pessoa. Ninguém suporta por muito tempo ficar perto de alguém que não se importa consigo e nem retribui o carinho de alguém que não oferece apoio e nem permanece inteiro, em nenhum momento dos dias, como se tudo fosse mais importante do que a pessoa que está e sempre esteve ali ao seu lado.

Cabe, portanto, a nós mesmos perceber quando ali nada mais faz sentido, cabe a nós mesmos perceber que é um suicídio lento e gradual permanecer junto de quem não se esforça para reconhecer a nossa dedicação e nem aquilo que fazemos pela pessoa. Amar alguém sem ter amor-próprio nunca dá certo, pois assim sempre haverá alguém dando sem receber.

É preciso não nos esquecermos de que podemos sempre recomeçar, inclusive longe de quem tanto nos parecia vital, de quem parecia ser indispensável, longe daquele ambiente sufocante que achávamos insubstituível. Não se trata de ser um desistente, trata-se de sobrevivência, do corpo e da alma.

Acreditar que seremos o suficiente para alguém, que merecemos retorno emocional na mesma medida, que existe felicidade possível, que amar e ser amado é algo a que temos direito, tudo isso nos acordará por dentro, para que possamos trazer para junto das nossas vidas as coisas e as pessoas que acrescentarão sonhos e verdades ao que temos de mais especial dentro de nós.

O AMOR É MUITO MAIS DO QUE UMA ATRAÇÃO FÍSICA

Algumas pessoas nos atraem, de primeira, somente pela aparência, sem nem sabermos explicar o porquê direito. É a chamada atração física, que muitas vezes aproxima as pessoas, de início, para aventuras iniciais. No entanto, caso o físico não nos revele uma essência interessante, o relacionamento não dura, não se sustenta.

Embora hoje as aparências e superficialidades sejam supervalorizadas, em meio à rapidez que permeia todos os setores de nossas vidas, transformando-nos em robôs ligados no modo automático, na maioria das vezes insensíveis, não existe relacionamento capaz de sobreviver somente pautado sobre a materialidade. Se sobreviver, será aos pedaços, desconexo, inverídico.

Viver não é fácil, ainda mais com as dificuldades que crescem a cada dia. Sem que tenhamos alguém que nos receba com verdade e transparência ao final do dia, tudo ficará pior. Os pesos de fora se acumularão aos que nos aguardarão no lar, onde o amor não estará. Ou ficamos com a nossa própria companhia, ou com alguém que nos seja recíproco, porque, ao menos em nosso tempo livre, teremos que nos distanciar do que é falso, vazio e irreal.

Conviver com alguém requer entrega, partilha, sinceridade, o que não se sustenta sob aparências e frivolidades. A atração física pode até servir para a aproximação, porém, o que faz o amor durar é exatamente o que não se vê, o que é de dentro, íntimo e pessoal. Somente quem se desnuda para além do corpo é capaz de se entregar e de receber sentimentos verdadeiros. A superficialidade é como um muro que barra o que vem de dentro.

O corpo envelhece, a pele enruga, os cabelos vão ficando brancos, a força física se esvai aos poucos, porém, sentimentos verdadeiros e recíprocos permanecem acesos e renovados a cada amanhecer. Para o educador e filósofo, Marcel Camargo da Unicamp: “no final de nossas vidas o sexo já não fará diferença alguma, mas sim as conversas entre nós e a pessoa amada”. E é assim que o amor fica. E é assim que o para sempre não acaba.

9 de outubro de 2022

O PENSAMENTO É UM DIÁLOGO DA ALMA CONSIGO MESMO

Aprender apreciar o que outro tem bom, antes de perder energia em lamentar ou criticar o que precisa mudar. Criar e recriar sempre e continuadamente novas sensações, novas emoções, novas manifestações de carícias através de uma expressão simples de afeto, ternura e sedução, que é a principal matéria prima da carícia, para a manutenção do amor. 

Entretanto, o diálogo é capaz de unir pessoas de tal forma que elas se sentem valorizadas e aptas para viver o respeito e a solidariedade. Todavia, quando o relacionamento começa a perder esse alicerce do diálogo, as pessoas vão se distanciando e, o mais grave, vão criando uma espécie de alucinação mental. De modo que a pessoa começa a pensar que o outro não gosta mais dela.

Muitas vezes o casal chega a pensar que a sua relação foi pautada em um amontoado de mentiras. Quando na verdade, o que marcou o fim da relação foi à falta de dialogo e respeito. Quanto menor for à comunicação e a falta de respeito dentro de um relacionamento, maior é a distância entre ambos. Fica implícito que amar é dialogar, é saber falar ao outro das coisas que não estão indo bem e ter a humildade de se mostrar ferido.

Portanto, quando sua conduta não agrada, no momento em que essas coisas estão acontecendo e antes que elas se transformem em sentimentos amargos. É saber valorizar tanto o outro, a ponto de não deixar que nenhuma desconfiança paire entre ambos. Como argumenta Platão: “o pensamento é um dialogo da alma consigo mesmo”.

6 de outubro de 2022

A COVARDIA É SURDA E SÓ OUVE O QUE CONVÉM

Há mais de dois mil anos nascia um homem, chamado Jesus de Nazaré, que iria revolucionar o mundo. Trazia ideias profundamente renovadoras para a Humanidade, que seriam discutidas até hoje com profundidades. Mas ele pouco conseguiu. A não ser aumentar ainda mais o ódio daqueles que comeram do pão e do peixe. Sua mensagem era de amor entre as pessoas e paz na terra as pessoas de boa vontade.

Mas esse homem não foi feliz no seu gesto de apaixonado pelo seu semelhante. Na letra da música “Todos Estão Surdos” de Roberto Carlos, diz o seguinte: “Tanta gente se esqueceu que a verdade não mudou. Quando a paz foi ensinada pouca gente escutou”. A letra continua dizendo: “Meu amigo volte logo, venha ensinar o meu povo, o amor é importante vem dizer tudo de novo”. “Que o amor só traz o bem”, não se discute, todos sabem. “Que a covardia é surda e só ouve o que convém”, nós estamos cansados de saber, como muito bem diz a letra: Agora, voltar a ensinar tudo de novo?

Aqui já é um caso para se pensar. Se Jesus Cristo voltar, na certa vão te crucificar de novo e com requintes de crueldades. Não vão querer saber se sua filosofia fala de amor. Todos querem ser amados. Mas quem quer amar o seu próximo, que sou eu um deles? Se tivesse Jesus pregado o respeito entre as pessoas, talvez o efeito fosse outro. Respeitar é mais fácil que amar? Será?

Será que um dia as pessoas vão criar juízo e parar de espalhar o ódio e a tirania em torno de um sentimento tão lindo como o estado amoroso, os raros momentos de êxtases que temos na vida. Ou esse ódio é intrínseco na raça humana? Para o historiador Leandro Karnal, nós somos cordiais, que significa dizer: que em primeiro lugar nós agimos com o coração, inclusive quando odiamos. Nosso ódio também é cordial, passional. Historicamente o nosso mundo foi e continua sendo cercado por um ódio espantoso, implacável quando se trata de perseguição contra alguém.

30 de setembro de 2022

A TERNURA É A SEIVA DO AMOR

Como argumentava o filósofo e teólogo São João da Cruz: “o amor é uma doença que, nas minhas palavras, só se cura com aquilo que chamaria de ternura essencial”. Reiterando as palavras do místico poeta, vou um pouco mais além, citando outro grande filósofo e teólogo Leonardo Boff (1938): “a ternura é a seiva do amor”. Penso que se cada um quiser guardar, fortalecer e dar sustentabilidade ao amor, que seja terno para com quem se ama. Sem o azeite da ternura não se alimenta a chama sagrada do amor, certamente ela se apagará.

Lembrando que ternura não é simplesmente uma emoção, excitação de sentimento face ao outro. Porém, se assim fosse seria sentimentalismo que é um produto da subjetividade mal integrada. O sujeito que se dobra sobre si mesmo e celebra as suas sensações que o outro provocou nele. Nunca sairá de sim mesmo, ao contrário, a ternura irrompe quando a pessoa se descentra de si mesma e sai na direção do outro, sente o outro como sendo parte da sua essência, participa de sua existência, se deixa tocar pela sua história de vida.

A ternura não é efeminação e renúncia de rigor. É um afeto que à sua maneira nos abre ao conhecimento do outro. Segundo o Papa Francisco (1936), quando esteve no Brasil, falou na sua homilia para os bispos latinos americanos presentes no Rio de Janeiro, cobrando-lhes “a revolução da ternura” como condição para um encontro fraterno e verdadeiro entre os humanos. Só conhecemos bem o outro quando nutrimos afeto e nos envolvemos com essa pessoa que queremos estabelecer laços de comunhão amorosos. É aqui que a ternura pode e deve conviver com o extremo empenho por essa causa.

No entanto, a relação de ternura não envolve angústia porque é livre de busca de vantagens e de dominação. O nascer do amor se da pela própria força do coração. É o desejo mais profundo de compartilhar carinhos. A angústia do outro é minha angústia, seu sucesso é o meu sucesso e sua salvação é a minha salvação. O amor e a vida são frágeis. Sua força invencível vem da ternura com a qual os cercamos e sempre os alimentamos.

Portanto, concluo esta reflexão citando um grande bandeirante do amor, o educador e escritor ítalo-americano Leo Buscaglia (1924-1998). Ele foi idealizador de um curso sobre amor na Universidade da Califórnia nos Estados Unidos. Publicou um livro com o título “Amor”. Por coincidência, faleceu no dia dos namorados, 12 de junho de 1998 e nos deixou a seguinte mensagem: “O amor tem os braços abertos. Se você fechar os braços ao amor, verá que está apenas abraçando a si mesmo. Quando você ama uma pessoa, se transforma no espelho dela e ela no seu. O amor verdadeiro só cria, nunca destrói”. Toque sempre o coração e a alma de quem você ama. Como dizia Platão: “tudo que está na minha alma, toca a alma do outro”.


22 de setembro de 2022

LEVO NO CORAÇÃO A INOCÊNCIA DE QUEM SE DESCOBRE

Certa vez uma pessoa da minha confiança, disse-me: “você está ficando velho, tornando-se uma pessoa amarga e teimosa”. Responder a essa pessoa, seria curvar-se diante da ignorância. Gente nasce não pronta e vai se fazendo ao longo da vida. O que fica velho são coisas. Gente não envelhece, gente se renova a cada ano que passa. Não estou ficando velho, estou me tornando sábio. Deixei de ser alguém que apenas agrada os outros, para transformar em alguém que me agrado em ser quem sou. Parei de procurar aceitação dos outros para me aceitar.

Não estou ficando velho como disse equivocadamente essa pessoa. Estou me tornando assertivo, seletivo com lugares, pessoas, costumes e ideologias. Já deixei apegos, dores desnecessárias, pessoas tóxicas, almas doentes e corações podres, não é por amargura, é simplesmente por saúde. Não adianta querer ter saúde mental se você se envolve com pessoas que te adoecem.

De modo que, parei de viver histórias e comecei a escrevê-las, deixei de lado os estereótipos impostos, parei de levar bagagens inúteis na minha bolsa, agora levo livros que embelezam a minha mente e daqueles que leem o que escrevo. Troquei os drinks alcoólicos por xícaras de café, esqueci-me de idealizar a vida e comecei a vivê-la.

Não estou ficando velho, engano de quem assim me vê. Levo na alma o frescor da vida e no coração a inocência de quem diariamente se descobre. Carrego nas mãos a ternura de um casulo, que ao abrir-se expandirá as suas asas a outros lugares inatingíveis, para aqueles, que só procuram a frivolidade do material. Do status e do sexo casual. Desconhecem os mandamentos do amor.

Portanto, levo no meu rosto o sorriso, que se escapa travesso ao observar a simplicidade da natureza. Levo nos meus ouvidos o canto das aves alegrando o meu caminhar. Não estou ficando velho. Estou ficando seletivo, apostando no meu tempo para o intangível, me dando a mim mesmo. Tem gente que se desgasta o tempo todo querendo ter razão, ao invés de querer ser feliz.

18 de setembro de 2022

VIVE-SE UMA RELAÇÃO PAUTADA NO DESRESPEITO

As pessoas têm uma tendência a tratar com superficialidade a felicidade quando ela se propõe. Basicamente não valorizam muito as relações amorosas quando as têm. Sempre querendo ter razão em vez de ser feliz. Viram as costas e partem em busca de outros amores achando que vai ser melhor. Na verdade, não muda muito. Aquele período de luto do amor que juntos viveram não se cumpriu. Aqui fica a seguinte observação: “se o indivíduo mal encerrou essa relação e já está com o pé em outra, é porque ele não é digno de você”.

Entre uma relação e outra existe um período de estiagem, de muita reflexão, de avaliação. Sobretudo, para não cometer os mesmos erros. Pois se tratando de seres humanos, acima de tudo temos que nos dar valor para poder valorizar o outro, caso contrário essa pessoa não te merece. É o mesmo que viver uma relação descartável, não consegue aprofundar na essência um do outro. Vive-se uma relação pautada no desrespeito.

As pessoas não sabem e não querem saber, quanto custa todo o prazer que não têm e que está aí ao alcance das mãos e do corpo. Contato, carícia, abraço, prazer, intimidade, quem não quer? Freud tem mostrado todo o penoso e ridículo contorcionismo psicológico que desenvolvemos a fim de conseguir fazer de conta que o outro só nos interessa pela sua aparência e pelas suas palavras bonitas que achamos que precisamos somente disso e mais nada.

É preciso fazer algo pela relação amorosa em vez de continuar procurando quem é que devia ou quem é o culpado. E com isso ficar justificando que tem outros amores melhores, na tentativa de agredir o outro. Essa conspiração contra a felicidade, contra esse amor que poderia ser de boa qualidade, pode acarretar outros problemas futuros. Certamente vai levar para a nova relação às mesmas dificuldades de filtragem e assim, sucessivamente. O mal não está em errar a dose. O mal está em não aprender a dosar os conflitos.

Um observador externo detecta com bastante facilidade distorções no relacionamento e na comunicação nas relações amorosas. Como os costumes de convívio se desenvolvem lentamente, as pessoas, na verdade, não percebem o que está acontecendo, a não ser pelo mal estar ou pelas brigas que não resolvem. Não é um problema de ensinar a viver, ainda que ensinar também tenha cabimento, penso que é uma questão de mostrar, apontar, fazer o outro ver o que está acontecendo. Não perdoamos quem nos vê como somos.

Portanto, tenho para mim que o maior perigo do nosso mundo não está na violência urbana, nem mesmo nos poderosos; está na falta de alegria de viver das pessoas, no seu tédio, na sua frustração e na sua indiferença. Por isso faz-se necessário desejar outros relacionamentos, superficiais tanto quantos já viveram. Contudo, a pessoa que torna superficial as relações amorosas ou que se aliena, pouco a pouco, faz com que vá crescendo nela o desejo de que esse mundo, infeliz, árido e ameaçador, termine de vez com os seus sonhos narcísicos. Enfim, a mais profunda felicidade do normopata é livrar-se de sua vida infeliz, matando quem lhe ama na fantasia partindo em busca de um novo amor centrado no seu egoísmo.  

A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele m...