16 de janeiro de 2022

A VIDA É UM MISTÉRIO E VIVER É UM DESAFIO

O existir por si só já é algo misterioso. Afinal, quem somos nós? Qual o sentido da nossa vida, num mundo de tanta indiferença? O que significa dizer que somos livres?  E até que ponto nós podemos conhecer essa realidade? Aqui está a nossa existência em cheque. Pois tais interrogações, dentre tantas outras, incidem sobre a compreensão que possamos ter da nossa vida. Assim como, das nossas relações com os outros, que afetam diretamente a nossa visão de mundo. Somos um ser que possui liberdade de escolha. Mas, em contrapartida essa mesma liberdade gera em nós uma angústia existencial.

Negamos e recusamos em aceitar a realidade dos fatos, pois a verdade pode ser dolorosa demais para o indivíduo conseguir aceitar e lidar com ela. Esse mecanismo pode acontecer em qualquer situação, como por exemplo o indivíduo que afirma beber apenas socialmente, quando, na realidade, possui uma compulsão, pois na hora de encarar episódios traumáticos, ele se entrega ao vício para poder apaziguar o sentimento. Alguns indivíduos optam por negar o ocorrido para que as consequências negativas daquela situação não se perpetue ao longo de sua vida.

Portanto, a angústia não é uma doença psicológica, mas somente a contrapartida necessária da tomada de consciência da liberdade. Diante da angústia não há o que temer, nem o que curar; a angústia é a abertura na qual nós nos encontramos diante da possibilidade, e com isso nos envolvemos como único “Ser” que pode dar sentido ao que faz parte da nossa existência. A angústia representa uma desmistificação do mundo, pois é a partir dela que nós podemos captar que os valores do mundo não são dados, mas constituídos por nós. Dessa maneira, a vida torna-se um mistério e ao mesmo tempo um desafio para nós mortais.

7 de janeiro de 2022

UM SENTIMENTO DE FÉ PARA COM A VIDA

A fé é uma palavra de origem latina que significa “fides”, e quer dizer: fidelidade, confiança, credibilidade. A fé é um sentimento de total fidelidade por alguma coisa ou por alguém. Somente a fé pode nos mover na direção da esperança. A esperança é um elemento intrínseco da estrutura da vida, faz parte da dinâmica do espírito humano. De modo que, a fé convive com a dúvida e elimina a possível certeza que alguém possa vir a ter. Assim como crer não é a mesma coisa que ter fé. Crer é algo incerto e vago. Por exemplo: quando digo, creio que vai chover hoje, não estou afirmando. Crer em Deus, não é a mesma coisa que ter fé. Quem tem fé ou fidelidade para com Deus, estabelece perfeita sintonia de pensamento com esse “Eu divino”. É na verdade, um salto no abismo, isto sim é ter fé.

Todas as pessoas que tem certeza são intolerantes. Estão sempre certas sobre seus pensamentos. Por que iria ouvir ideias diferentes de outras pessoas? As pessoas que têm certeza não são abertas as novas ideias. Não são abertas ao diálogo e não estabelecem relações duradouras por acharem que estão sempre certas, no seu conceito e ideal de vida.

Por outro lado, nos foi ensinado no catecismo dominical, que o mundo criado por Deus tem muito mais coisas boas do que ruins. Nós achamos os desastres da vida desconcertantes não apenas porque são dolorosos, mas também porque são excepcionais. A maioria das pessoas se sente bem disposta para ir a luta diariamente. Com o avanço da medicina muitas das doenças hoje são curáveis. Diariamente os aviões decolam, pousam em segurança. A maior parte das vezes que enviamos nossas crianças para brincar, elas retornam para casa sãs e salvas.

Os acidentes, os roubos, o tumor que não pode ser operado, com raras as exceções, nos despedaçam frente a vida. Quando se é golpeado por algum desses fatos é muito difícil mantermos a calma. Quando se está próximo de um objeto muito grande, tudo que se pode ver é o objeto em si. Somente quando nos afastamos do problema é que podemos perceber dentro do contexto que os monstros criados pelo nosso universo simbólico, não são tão assustadores assim.

Quando somos desnorteados por alguma tragédia, só podemos ver e sentir a tragédia. Quem tem um ente querido morto, vítima da criminalidade, vai desejar a pena de morte a todos os bandidos e delinquentes. Apenas com o tempo e a distância veremos a tragédia no contexto da vida inteira e do mundo inteiro.

Na tradição judaica, a oração especial conhecida como Kaddish não é sobre a morte, mas sobre a vida. Ela louva a Deus por ter criado um mundo basicamente bom, em que se pode viver. Recitando aquela oração, a pessoa de luto é lembrada de tudo o que é bom e digno de ser vivido. Para o rabino Harold S. Kushner (1935), a oração Kaddish é uma afirmação de vida e esperança.

Que diferença faz a fé em nossa vida? Para que serve Deus em nossa vida se Ele nem cura e nem mata? Parece que Deus não interfere no mundo físico dos vivos. Mas, Deus faz coisas muito nobres, inspirando pessoas a se ajudarem, principalmente aquelas que foram feridas pela vida e a protegê-las do perigo quando se sentirem as sós, abandonadas ou julgadas pelo seus opressores.

Deus faz com que algumas pessoas queiram tornar-se educadores, engenheiros, médicos e enfermeiros, aplicando-se noite e dia, com sacrifício e intensidade que nenhum dinheiro pode compensar, à tarefa de sustentar a vida e aliviar a dor. Fazendo com que as pessoas se inclinem às pesquisas, focalizando sua inteligência e energia sobre as causas e as possíveis curas de algumas das tragédias imposta pela vida.

Através da história humana ocorreram pestes e epidemias que varreram cidades inteiras. Os casais sabiam que tinham de ter muitos filhos para que algum deles sobrevivesse até a idade adulta. A inteligência humana chegou a uma compreensão maior das leis naturais no que diz respeito ao sanitarismo, aos germes, à imunização, aos antibióticos, conseguindo eliminar muitas daquelas doenças. E até hoje a humanidade agradece.

Deus, que não causa e nem elimina as tragédias, ajuda inspirando as pessoas a ajudarem-se. Como o rabino ortodoxo Harold S. Kushner, certa vez observou: “os seres humanos são a linguagem de Deus. Deus demonstra sua oposição ao câncer e aos defeitos de nascença, não eliminando-os ou fazendo-os acontecer apenas às pessoas ruins, mas, convocando amigos e vizinhos para aliviar o fardo e preencher o vazio”.

Portanto, para quem perguntar por que ter fé ou confiar em Deus, eu diria que Deus não pode evitar as calamidades da natureza física, mas pode dar-nos inteligência, sabedoria, coragem e perseverança para superá-las. Onde mais iriamos conseguir essas qualidades que antes não tínhamos? Contudo, concluímos que Deus não pode fazer tudo, mas faz coisas muito importantes para o nosso espírito. Tudo depende da nossa fé. É a partir dessa fé que inventamos um mundo mais seguro e mais humano para se viver.

31 de dezembro de 2021

A FÁBULA DA SAMAMBAIA E O BAMBU

A samambaia e o bambu é uma fábula escrita pelo filósofo e educador, nosso mestre Rubem Alves (1933-2014), que você deve ler quando passar por um momento difícil. Conta a história de um homem que passava por uma fase ruim. Ele era carpinteiro e, antes, tudo estava indo muito bem. Tudo começou a piorar quando uma grande empresa que fabricava móveis chegou à sua cidade. Tinham muito dinheiro, excelentes máquinas e muitos funcionários. Logo, tornou-se uma verdadeira sensação no lugar. A fábrica fazia os móveis em tempo recorde. Para piorar as coisas, os vendia a preços mais baixos do que o carpinteiro. As coisas começaram a piorar para ele. Em apenas alguns meses, soube que estava no caminho da falência. Como dizia o ativista norte-americano e Premio Nobel da Paz em 1964, Martin Luther King (1929-1968): “Devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a esperança infinita”.

Para piorar as coisas, ele também começou a ter dificuldade com sua esposa. Ela era professora de escola infantil e seu salário não era o suficiente para sustentar os três filhos que tinham. O carpinteiro tentou encontrar um novo emprego, mas não conseguia. Sua esposa o recriminou e isso acabou afetando também as crianças, que começaram a ter problemas com suas notas nos estudos. O carpinteiro estava verdadeiramente desesperado. Tinha cada vez menos dinheiro. Também menos energia e menos otimismo. Sua mente começou a se fechar. A única coisa que lhe ocorreu um dia foi dar um passeio em floresta próxima, para tentar colocar suas ideias em ordem. Havia caminhado por meia hora pela floresta, quando conheceu um gentil ancião que o cumprimentou.

O ancião tinha uma casa humilde e, ao ver o carpinteiro, convidou-o para tomar um chá. Ele notou a preocupação em seu rosto e perguntou o que estava errado. O carpinteiro contou-lhe seus infortúnios, enquanto o ancião o ouvia atenta e calmamente. Quando terminaram de tomar o chá, o ancião convidou o carpinteiro para ir a um esplêndido terreno nos fundos da casa. Ali estavam a samambaia e o bambu, ao lado de dezenas de árvores. O ancião pediu-lhe para observar as duas plantas e disse-lhe que precisava contar uma história sobre essas duas plantas. O carpinteiro estava muito interessado no que o ancião tinha para lhe dizer. Então, disse ele: “Há oito anos peguei algumas sementes e plantei a samambaia e o bambu ao mesmo tempo. Eu queria que ambas as plantas crescessem no meu jardim, porque as duas são muito reconfortantes para mim. Coloquei todo o meu esforço para cuidar de ambas como se fosse um tesouro”.

Depois de uma pausa curta, o ancião continuou sua história: “Pouco tempo depois, percebi que a samambaia e o bambu respondiam de maneira diferente aos meus cuidados. A samambaia começou a brotar e em poucos meses tornou-se uma planta majestosa que enfeitava tudo com sua presença. O bambu, por outro lado, continuava debaixo da terra, sem mostrar sinais de vida”. Enquanto o carpinteiro o escutava com grande interesse, argumentava o ancião: “Um ano inteiro se passou e a samambaia continuou crescendo, mas o bambu não. No entanto, não desisti. Continuei cuidando com mais cuidado. Mesmo assim, mais um ano se passou e meu trabalho não dava frutos. O bambu se recusava a se manifestar”. O ancião continuou dizendo: “Também não desisti depois do segundo ano, nem do terceiro nem do quarto. Quando cinco anos se passaram, finalmente vi que um galho tímido saía da terra. Em poucos meses, cresceu sem parar e tornou-se um lindo bambu de mais de dez metros. Você sabe por que demorou tanto para sair à luz”?

O carpinteiro pensou por um momento, mas não sabia o que dizer. O ancião lhe disse: “Demorou cinco anos porque durante todo esse tempo a planta trabalhava para criar raízes. Sabia que tinha que crescer muito alto, e por isso não podia sair à luz até que tivesse uma base firme que lhe permitisse subir satisfatoriamente. Você entende”? Portanto, o carpinteiro entendeu a mensagem. Entendeu que às vezes as coisas demoram, porque estão criando raízes. Que o importante é persistir e não perder a “”. Antes de se despedir, o ancião passou uma mensagem ao carpinteiro, para que a guardasse para sempre. Dizia ele: “A felicidade o mantém doce. As tentativas o mantêm forte. As dores o mantém humano. As quedas o mantém humilde. O sucesso o mantém brilhante”. Contudo, a sabedoria está na dignidade do homem que busca através da fé a sua paz interior, para assim encontrar o seu espaço.

28 de dezembro de 2021

MAIS UM ANO QUE SE VAI E OUTRO QUE CHEGA

O tempo permanece intocável, somos nós que passamos pelo tempo, envelhecemos e morremos dentro dele. Mais um ano que se vai como uma vela que está se apagando. Mais um novo ano está surgindo como a vela que acabamos de ascender. A vela simboliza a chama da nossa esperança e realizações, para o ano que está se iniciando. Aprendi muito com esse mestre chamado tempo. Só ele nos da à experiência e sentido para a nossa existência. Porém, quem nos concede o dom da vida é nosso “Pai do Céu”. Foi assim que nasceu esse texto em forma de oração, escrito por mim.

Boa noite Pai, já está terminando mais um ano e agradeço pela vida que me confiou até hoje. Nesse momento recolho para o meu descanso merecido, e aproveitar para pensar sobre tudo o que vivi nesse ano de 2021. Após essa noite despontará a alvorada de um novo dia que iluminará os nossos caminhos em 2022. Por conseguinte, quero dar um sentido ainda maior para a minha existência nesse ano que começa.

Obrigado Pai por tudo, obrigado pela esperança que nesse ano animou os meus passos, pela alegria que senti ao lado de pessoas queridas que conheci e hoje fazem parte do meu circulo de amizade. Obrigado pela alegria que vi no rosto das crianças, apesar de toda a dor que senti e as vezes sinto, por não ter os meus filhos aqui por perto. Mesmo assim obrigado Pai, pela esperança que tenho de saber e encontrá-los bem.

Obrigado pelo exemplo que recebi dos outros, pelo que aprendi aos meus setenta anos de vida, embora tenha muito que aprender ainda, obrigado também por tudo que sofri e ainda sofro por ter compaixão pelos mais necessitados e pelas crianças e idosos. Pois, sonho com dias melhores para todos nós.

Obrigado Pai pelo dom de amar, mesmo sem ser compreendido. Obrigado pela luz, pela noite, pela brisa que sopra o meu rosto, pela comida em minha mesa, obrigado por permitir-me viver com saúde em 2021, como também pelo meu esforço e desejo de superação, pois quero ser a cada dia mais humano nesse projeto de vida que o Senhor me confiou.

Pai desculpe o meu rosto carrancudo e às vezes agressivo. Desculpe ter esquecido que não sou o filho único, mas irmão de muitos. Perdoa a minha falta de colaboração, a ausência do espírito de servir. Perdoa-me também por não ter evitado aquela lágrima, aquele desgosto que lhe dei quando ignorei aquela pessoa. Perdoa-me por ter ofendido e magoado justamente aquela mulher que me criou e me educou e na sua simplicidade me ensinou a “essência do amor”. Foi a partir dela que descobri e conheci o valor do respeito e da compaixão. Saudosa mãe; devo a senhora toda a minha gratidão.

Desculpa ter aprisionado em mim aquela mensagem de amor. Contudo, estou pedindo força, energia para os meus propósitos, no ano que está nascendo, a nossa vida continua e só a morte pode cessar. Em quanto isto, espero que neste novo ano que está surgindo, domine um novo sentimento em cada coração, desses seres que compõem a humanidade. E que a cada novo dia seja um continuo sim numa vida consciente.

Portanto, peço a Deus que me conceda “serenidade e sabedoria” para que eu possa viver na plenitude do amor, pois para quem não sabe o amor só sobrevive sustentado por esses dois grandes pilares. Serenidade para aceitar o outro com seus defeitos, medos e duvidas, procurando sempre compreendê-lo e ajudá-lo. Sabedoria para perceber essas diferenças e saber minimizar os conflitos que existe entre ambos e assim abrandar a ansiedade e viverem plenamente no amor, que é o desejo de todos eternos apaixonados. Porque tudo que vive, não vive sozinho, nem para si mesmo. Como disse Mahatma Gandhi (1869-1948), pensador indiano: “Tudo o que vive é o teu próximo”. Ao contrário do que todos dizem, o que o amor une, nem o tempo separa. Um Feliz 2022 a todos.

22 de dezembro de 2021

QUAL O VERDADEIRO SENTIDO DO NATAL?

Apesar de toda a tecnologia e o avanço científico alcançado pelo homem, dia vinte e cinco de dezembro ainda é “Natal”. O “Homem” que nasceu nesse dia a mais de dois mil anos, deve estar preocupado com o mundo em que viveu e, apesar de toda a Sua imensa sabedoria não deve estar entendendo.  Ele não deve entender, por exemplo, como é que os mesmos homens, que se cumprimentam de coração aberto, com um sorriso nos lábios agora, podem passar pelo encantamento do Natal, prontos para começar a batalha entre si novamente, completamente desprovido de generosidade, condescendência, afeto e até mesmo de bondade.

Ele o Homem que nasceu no dia vinte e cinco de dezembro do ano zero de nossa história, não pode entender porque o Natal funciona apenas como uma trégua, na imensa desigualdade social em que vivemos sem falar das discórdias familiares, a guerra que o homem trava todos os dias contra o seu semelhante e contra si mesmo. Mas Ele que viveu entre nós e é o símbolo da esperança ainda não perdeu a própria esperança. A esperança de que o homem um dia perceba que a trégua é o certo e o normal e, que a guerra é um grande equívoco.

Entretanto, a mensagem que Ele nos deixou foi a seguinte: Cumpra o projeto que Deus determinou que é de amar sempre o seu semelhante, demonstrando gestos de gentileza e respeito. Ser justo e não julgar o outro pelas suas fraquezas. Pensar muito sobre suas ações. Sentir o que realmente sente, pois você é um Ser de amor. Meditar muito sobre esse sentimento, meditar sobre suas inclinações e possibilidades de ser feliz nesse amor. Procure fazer o mais que puder para esse amor permanecer entre os seres humanos. Para então, aperfeiçoar-se nesse projeto de vida, até que possa devolver para Deus a imagem e o dom desse amor que Ele um dia estampou em nós quando aqui chegamos.

Portanto, não compreendo os mistérios da vida e nem suas razões. Só espero estar certo no que penso e sinto. Que é continuar a cultivar esse amor pelo meu próximo, que na verdade são muitos. Quero um mundo melhor para todos nós. Talvez, então nesse dia, o ser humano inverta os seus valores atuais e coloque ordem na casa. E daí possa, finalmente, todos viverem em Paz.  “Feliz Natal a todos, no verdadeiro sentido que essa palavra carrega”.

18 de dezembro de 2021

UMA VIDA DE CONHECIMENTO, POESIA E PROSA

A vida de Bertrand Russell (1872-1970), filósofo, matemático e lógico inglês, abrange um período enorme, quase um século, estendendo-se da Inglaterra Vitoriana à era Espacial. Ele era uma espécie de relíquia vitoriana. Morreu de gripe três meses antes de completar 98 anos, produzindo conhecimento. Defensor de ideais pacifistas, humanitário e da liberdade de pensamento, autor do livro: “O Casamento e a Moral”, argumentava ele que o fator primordial da moral sexual na civilização ocidental, desde os primórdios do cristianismo, consistiu na garantia da virtude feminina, indispensável à família patriarcal.

Entretanto, Bertrand Russell é considerado um pensador excepcional, particularmente pelas contribuições que deu à filosofia da matemática. Tem uma vasta obra de cerca de 40 volumes. A sua atividade como filósofo, como homem da ciência e como político fazem dele uma das figuras mais prestigiadas, admiráveis e discutidas de todos os tempos. Contudo, encerro essa reflexão com um delicioso texto de Bertrand Russell. Que é uma verdadeira obra de arte em prosa. Ofereço a todos que cultivam pelo menos uma dessas três paixões:

Três paixões, simples, mas irresistivelmente fortes, tem governado a minha vida: o desejo imenso de amar, a busca do conhecimento e uma insuportável compaixão pelo sofrimento da humanidade.

Essas paixões, como os fortes ventos, levaram-me de um lado para outro, em caminhos caprichosos, para além de um profundo oceano de angústias, chegando a beira do verdadeiro desespero.

Primeiro busquei o amor, porque ele traz o êxtases tão grande que sacrificaria todo o resto da minha vida em troca de umas poucas horas desse prazer. Procurei-o também, porque ele abranda a solidão, aquela terrível solidão na qual uma consciência em pedaço se paralisa nas margens do mundo, o insondável e frio abismo sem vida.

Procurei-o finalmente, porque na união do amor vislumbrei, em mistica miniatura, a suposta visão do paraíso que santos e poetas imaginaram. Isso foi o que procurei e, embora pudesse parecer demasiado bom para a vida humana, foi o que finalmente encontrei.

Com a mesma intensidade busquei o conhecimento. Desejei entender o coração dos homens. Desejei saber por que as estrelas brilham. E tentei apreender a força pitagórica pela qual o número se mantem acima do fluxo.

Um pouco disso, não muito, conquistei. Amor e conhecimento, até onde foram possíveis, conduziram-me aos caminhos do paraíso. Mas, a compaixão sempre me trouxe de volta à Terra. Ecos de gritos e de dor refletiram em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desassistidos como um odioso fardo para seus filhos, e o mundo inteiro de solidão, miséria e sofrimento, transformam em arremedo o que a vida humana deveria ser.

Portanto, anseio ardentemente aliviar o mal, mas não posso, e também sofro. Esta tem sido a minha vida. Achei-a digna de ser vivida, e prazerosamente a viveria outra vez se uma nova oportunidade me fosse oferecida”.

16 de dezembro de 2021

A FRAGILIDADE DOS LAÇOS HUMANOS

O sociólogo, filósofo e autor do livro: “Amor Liquido”, Zygmunt Bauman (1925-2017) procura investigar neste livro, porque as relações humanas estão cada vez mais flexíveis, gerando níveis de insegurança que aumentam a cada dia. Os seres humanos estão dando mais importância a relacionamentos em “redes” (pela internet através de bate-papo, e-mail ou celular através de mensagens de texto e whatsapp) que podem ser desmanchados a qualquer momento e muito facilmente, sendo este contato apenas virtual, as pessoas não sabem mais como manter um relacionamento duradouro em longo prazo. E isso não ocorre apenas nas relações amorosas e vínculos familiares, mas também entre os seres humanos de uma maneira geral.

Se um estranho cumprimenta outro na rua, o outro além de não responder o cumprimento, ainda sente-se estranho, talvez ofendido ou até pensa, “que pessoa esquisita”. As pessoas não se sentem à vontade na presença de um estranho, quanto mais cumprimentando alguém que não conhecem. Outro exemplo é o fato de quase ninguém ajudar um mendigo ou um estranho na rua. As pessoas têm medo, tanto por causa da violência, talvez sofrida por eles, quanto pela repercussão dos meios de comunicação que cada vez mais “apavoram” os seus usuários com notícias que envolvem apenas as coisas ruins feitas pelos próprios seres humanos. Então, como não ter medo?

Os relacionamentos em geral, estão sendo tratados como mercadorias. Se existe algum defeito, podem ser trocadas por outras, mas não há garantia de que gostem do novo produto ou que possam receber seu dinheiro de volta. Hoje em dia os automóveis, computadores ou telefones celulares em bom estado e em bom funcionamento, são trocados como um monte de lixo no momento em que aparecem versões mais atualizadas. E assim acontece com os relacionamentos, não gostou, pode trocar, assim ninguém sofre. Também existem os relacionamentos de bolso, do tipo que pode-se usar e dispor quando for necessário e depois tornar a guardar para ser utilizado numa outra ocasião.

Portanto, a sociedade atual está criando uma nova ética do relacionamento, os relacionamentos estão cada vez mais fragilizados e desumanos. A confiança no próximo está cada vez mais próxima de terminar definitivamente. Os seres humanos estão sendo usados por eles mesmos.

A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele m...