20 de janeiro de 2019

PEDAÇOS DE SONHOS E SOFRIMENTOS

O que ofereço de mim com aflição, no meu tear tecida, essa agonia que lanço nestas singelas linhas. Passam-se os dias e não passa ninguém que estenda a mão aos pedaços de sonhos e sofrimentos que o viver, com recursos de alquimia, transforma em iluminuras e vitrais. É dura a indiferença a estes inventos que nascem com força de sangria e arrebentam-me em gozos abissais.

Nem sempre somos compreendidos (às vezes não), bebeste o mundo e o caminhaste levando uma canção interminável como guia. Inevitável ardor de gelo e longa flor sem haste foi à sorte que me coube na vida. Foi comendo e bebendo a claridade do espírito do mundo, que continuei a escrever o amor em pentagramas. Sons da lida com os arcanjos do frio e da saudade, nas muitas solidões entre a terra e o azul celestial.






18 de janeiro de 2019

TRANSFORMANDO DESEJO EM VONTADE

O mundo como vontade foi tratado pela primeira vez pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), que foi um grande crítico da filosofia hegeliana, porque segundo ele o filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831), deu muito atenção para a razão e a subestimou, deixando totalmente de lado tanto a parte instintiva do ser humano quanto a sua vontade. Schopenhauer também teve muita influencia do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), assim como das religiões orientais: “o hinduísmo e o budismo”. A sua grande obra é: “O Mundo como Vontade e Representação”. Segundo ele argumenta que o mundo é constituído e regido por uma grande “vontade universal” e que nós também possuímos parte dessa vontade. Que é uma vontade individual e que a partir dela tomamos contato com esse mundo e que tudo que percebemos através dessa vontade é uma representação do mundo.

De modo que nós não conhecemos o mundo em si, não conhecemos as coisas, como elas são de fato. Como vai dizer Immanuel Kant, que só conhecemos as representações das coisas que chegam até nós, através da nossa vontade. Podemos perceber que Schopenhauer coloca o ser humano no centro do conhecimento. Tudo aquilo que conhecemos do mundo nada mais é do que uma representação das coisas que chegam até nós através dessa interação que temos com o mundo. Depois do desejo vem à vontade. Essa vontade que é uma energia universal, que constitui um mundo sem nenhuma finalidade, sem nenhum propósito, sem nenhum significado, essa energia é a “essência das coisas”. A vontade causa no homem sofrimento, pecado e a morte. E por ela ser irracional, esse sofrimento que existe no homem ele é inevitável e essencial para a vida.

De modo que Schopenhauer entende a vida, como uma cadeia de desejos não satisfeitos em que o prazer é pura ilusão. A questão é que sempre estamos desejando alguma coisa, o homem é um bicho desejante. Esse nosso desejo, não é nada racional, não existe nenhuma motivação por trás dele. E o prazer que era para a gente obter com a aquisição desse nosso objeto de desejo, ele é ilusório. Porque quando a gente consegue, logo vem o tédio. O ser humano está o tempo todo sofrendo, seja porque está desejando, ou seja, porque já conseguiu ter o objeto desejado e aí vem o tédio, aquele vazio, porque não era bem o que esperava. A vida é uma cadeia de desejos não satisfeitos, até porque não sabemos transformar desejo em vontade. Quando não estamos desejando, estamos mergulhados no tédio.

Portanto, para eliminar esse sofrimento Schopenhauer vai buscar essas respostas no budismo e no hinduísmo, entrando praticamente em estado de “nirvana”, ou seja, sublimando todas essas coisas terrenas e acabando assim com a vontade e os desejos sobre as coisas terrenas. Contudo, existem três níveis de purificação que desfaz esse desejo, que desfaz essa vontade que nos causa o sofrimento e a dor. Através da arte começamos a contemplar as grandes obras e passamos a não ver mais o objeto e sim as formas, ideias e essências. E quando chegamos a esse nível de contemplação não sentimos mais desejo pelos objetos, eles deixam de ser útil ou nocivo para nós. Enxergo agora as essências e as ideias. Agora entramos num processo de abstração e nos tornamos o “olho do mundo”. Como humanos somos um com os outros e essa consciência nos causa dor e sofrimento. Mas, ao mesmo tempo ela faz com que sentimos compaixão pelo nosso semelhante. Aqui nasce a ética, o cuidado e o zelo pelo meu próximo. Morre o “ter” e nasce o “ser”.

16 de janeiro de 2019

AMIZADE É AMOR SEM CARÁTER BIOLÓGICO

Relacionar-se significa que estamos sempre começando, sempre tentando nos tornar conhecidos. A alegria da amizade está na exploração da consciência. Quando investigamos o outro, fazemos o mesmo conosco. Aprofundando-nos no outro, nos aprofundamos em nós mesmos. Tornamo-nos espelho para o outro e o amor torna-se meditação. Quanto mais descobrimos, mais misterioso o outro se torna: “o amor é uma aventura constante”. Pessoas iluminadas têm mais inimigos do que os não iluminados, pois os cegos não perdoam quem enxerga e os ignorantes não perdoam quem sabe mais. Ser amigável, amoroso, autêntico, inocente sem causa é suficiente para disparar muitos egos contra si. De modo que, relacionar-se é uma das maiores coisas da vida: “é amor compartilhado”.

De modo que, para amar é preciso transbordar de amor e para compartilhar é preciso ter o amor. Quem se relaciona respeita e não possui. A liberdade do outro não é invadida, ele permanece independente. Possuir é destruir todas as possibilidades de se relacionar. Compreendo o relacionar-se como um processo. Relacionamento é diferente de relacionar-se: "é completo, fixo, morto”. Antes devemos nos relacionar conosco mesmos e escutar o coração para a vida ir além do intelecto, da lógica, da dialética e das discriminações. É bom evitar substantivos e enfatizar os verbos. Como falei em outra reflexão, a vida é feita de verbos como: “amar, cantar, dançar, relacionar, viver, etc”.

Portanto, somos um fim em si mesmo. Ninguém existe para ser usado. Quem está no auge da solidão só se atrai por quem esteja só. Dois solitários olham um para o outro, mas dois que conheceram a solidão olham para algo mais elevado. Porque a felicidade simplesmente acontece. Para ser feliz é preciso deixar acontecer. O caminho do amor deve ser tomado com tremenda consciência e o da consciência, com tremendo amor. Depois de cada experiência profunda nos sentimos sós e tristes. Mas, a alegria traz a necessidade de compartilhar. A paixão é muito pequena diante da compaixão. Contudo, solidão é mover-se para dentro e amor é mover-se para fora. Ambos os movimentos são enriquecedores e aumenta cada vez mais o potencial do relacionar-se. Só quem é capaz de ser feliz sozinho, pode contribuir com a felicidade do outro.

12 de janeiro de 2019

A VIDA É FEITA DE VERBOS

Depois de algum tempo meditando cheguei a seguinte conclusão: “a vida é feita de verbos; como o verbo amar, cantar, dançar, relacionar, viver, etc.”. Isto é tudo que nos move e nos coloca para cima. Porém, nada machuca mais do que quando um sonho é esmagado, uma esperança morre, o futuro torna-se escuro. A frustração representa uma parte muito valiosa no crescimento espiritual. Como argumenta o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), que no ser humano há um enorme gigante chamado “vontade” que carrega em seu ombro um pequeno anãozinho chamado “razão”. Ele quer dizer que o mundo é regido por uma grande vontade universal e que nós também possuímos parte dessa vontade. E tudo aquilo que percebemos do mundo, através da nossa vontade, nada mais é do que uma representação das coisas que chegam até nós. Por isso é que somos como somos.

Entretanto, não se pode amar alguém não livre, pois o amor só existe se dado livremente, quando não é exigido, forçado ou tomado. Quando há atração sexual e o ciúme entra em cena é porque não há amor. Há medo, porque o sexo é uma exploração do corpo. O medo se torna ciúme. Quanto mais controlamos, mais “matamos” o outro. As causas do ciúme estão dentro de nós; fora estão sós as desculpas. O amor não pode ser ciumento. Ele é sempre confiante. Confiança não pode ser forçada. Se ela existir, segue-se por ela. Senão, é melhor separar, para evitar danos e destruição e poder amar outra pessoa. Todavia, quando amamos alguém, confiamos que não quererá outro. Se quiser, não há amor e nada pode ser feito. Só através do outro tornamo-nos consciente de nosso próprio ser. Só num profundo relacionar-se o amor de alguém ressoa e mostra sua profundidade: “assim nos descobrimos”. Outra forma de autodescoberta, sem o outro, é a meditação. Só há dois caminhos para chegar ao divino: “meditação e amor”.

Portanto, o amor se relaciona, mas não é relacionamento, que é algo acabado. Ele é como um rio fluindo, interminavelmente. Há flores do amor que só desabrocham após uma longa intimidade. Relacionar-se significa que estamos sempre começando, sempre tentando nos tornar conhecidos. A alegria do amor está na exploração da consciência. Quando investigamos o outro, fazemos o mesmo conosco. Aprofundando-nos no outro, nos aprofundamos em nós mesmos. Tornamo-nos espelho para o outro e o amor torna-se meditação. Quanto mais descobrimos, mais misterioso o outro se torna: “o amor é uma aventura constante”. Quando estamos apaixonados, a linguagem não é necessária. A gente se comunica por telepatia. O amor não escraviza, não é possessivo nem exigente. Ele liberta, permitindo aos amantes voarem alto, em direção a Deus. Quando apreciamos nossa solidão, nos tornamos meditadores. Só quem é capaz de ser feliz sozinho pode contribuir com a felicidade de outro. Contudo, o amor é mais verdadeiro e autêntico do que nós. Todo caso de amor é um novo nascimento. O ego é como a escuridão, mas quando chega à luz do amor, a escuridão se vai.

9 de janeiro de 2019

DA PAIXÃO PODE NASCER O AMOR

Na filosofia quando levanta a questão do amor platônico, mexe em outro mais pertinente ainda, que é a paixão. Existe algo mais apaixonante em si, do que a paixão? Ao julgar se a paixão vale ou não a pena ser vivida é responder a questão fundamental da filosofia: “amor e paixão se confundem”. As pessoas confundem o amor com paixão. Quando estão apaixonadas, julgam estar amando. O amor, porém, é uma vivência mais ampla, é um modo de ser, de viver, que se conquista gradualmente, à medida que se desenvolve a sensibilidade para com a outra pessoa, isto é, através de uma amizade constituída, estreita. É a capacidade de descentra-se, sair de si, ir ao encontro do outro, em uma atitude de zelo e respeito, que nada quer em troca.

Amar demanda cuidado com o outro, preservar a identidade e as diferenças do outro, sem perder a sua evidentemente. É o mesmo que estar comprometido com a realização do outro, é um querer bem ao seu próximo. A capacidade de amar pode expandir-se e atingir um envolvimento e um compromisso com todos os seres vivos e até mesmo com os seres inanimados. Os movimentos ecológicos atestam gestos de amor de pessoas que lutam pela preservação da fauna, da flora, das águas e do ar, na questão da poluição. Muita gente boa cuidando da nossa casa, o planeta terra.

De modo que, ao contrário do amor está a paixão. Para o filósofo holandês Baruch Spinoza (1632-1677), compreendia que toda a nossa felicidade e toda a nossa miséria residem num só ponto: “a que tipo de objeto está preso pelo amor?” Se este suposto amor estiver centrado no egoísmo do sujeito que se diz amar de paixão, fuja desse amor. Ele só ama a si próprio. É a carência dele que grita mais alto. Para Platão (427-347 a.C.) o amor perfeito só existe no mundo das ideias, ou seja, idealizamos o amor e projetamos no outro. É um gostar de mim no outro. A partir do momento que não for correspondido nas suas expectativas sobre o outro, deixo de amá-lo. Esse amor centrado no egoísmo é a paixão. A idealização projetada no objeto de desejo.

Portanto, muitas vezes pensamos que gostamos de uma determinada pessoa só porque ela nos entende. No entanto, o que mais precisamos naquele momento é ser compreendido por alguém que nos olhe com admiração e nada mais. Ser amoroso é uma característica da nossa personalidade e pressupõe toda a vivência desde o seio materno. Só quem recebeu o amor é capaz de atitudes amorosas. Ninguém da o que não tem. Se nunca se sentiu amado, é pouco provável que irá se entregar totalmente a um grande amor. Vai estar sempre com uma duvida quanto ao que o outro sente. Buscamos no outro aquilo que não temos, buscamos aquilo que nos faltam e acreditamos encontrar no outro. Contudo, se um dia tiver que escolher entre o mundo e o amor lembre-se: “se escolher o mundo ficará sem o amor, mas se escolher o amor com ele conquistará o mundo”.

4 de janeiro de 2019

OLHAR NOS OLHOS DE QUEM ME OLHA

Desde que me lembro, vivo buscando com o olhar o que ver. Pois, poeta é aquele camarada que olha para uma coisa e vê outra. Percebo então, o quanto é preciso estar vigilante, a cada segundo, para que o olhar não escape e não me traia. Nada em teus olhos que eu não queira olhar para sempre. O chá e o perfume ainda ecoam os meus sentidos. Cercado pela natureza e ainda no coração o encantamento pelo teu olhar profundo, dizendo alguma coisa, que ainda não decifrei.

Na nossa vida a beleza da tua pele entre os pelos, o dorido dourado nos adoça. Delicia dos macios abrindo-se ao duro do meu transfigurado desejo. Nem bem nasceu uma estrela, o olhar queria ver o que havia dentro dela. Tudo tão claro em toda parte. O frio intenso deixava transparecer o arrepio que sua pela relutava esconder. Deitado numa nuvem enquanto escutava o som melodioso na dança dos olhares.

Amo as nuvens que passam lá longe. Por que me olhas assim, sorrateiramente? Nada é igual depois do teu olhar. Novos raios e sóis pelo meu corpo, inovam de repente o olhar do amor. Quero tua fome sobre mim. O quente gemido no fundo da minha alma, pesa leve e me aquieta surdamente. No querido olhar sustento a esfera girando em giro na sua perfeição. Quando a morte montar nosso corpo, vier vestir-nos para a jornada, talvez não nos encontre triste.

Tuas mãos, os pelos do peito, olhar ancorado em mim, mordidas de santo amor. Ah! Quanta coisa meu olhar enxergou no seu jardim. Fomos para cama dos nossos dias, pela estrada inteira, neste olhar sem fim. Portanto, dos olhos que aguardam, abrirei tuas carnes para tocar o mais aquecido e nela naufragar meu tenso desespero. Sempre teus olhos, estações de clima bom, cantam o sonho que sou na espera desse olhar penetrante.

31 de dezembro de 2018

AGRADEÇO POR MAIS UM ANO QUE SE FINDA

Ser especial é ser sensível e olhar fundo nos olhos daqueles que nos tocam o coração. Só tenho a agradecer por mais um ano que se encerra, pela vida concedida como um dom, um presente de Deus. Digo de coração aberto, as três grandes paixões que me moveram todos esses anos - parafraseando o filósofo, matemático e lógico inglês Bertrand Russell (1872-1970) - foram: “o desejo imenso de amar, a busca do conhecimento e uma insuportável compaixão pelo sofrimento humano”. São 555 textos publicados até agora em mais de sete anos de Blog. Escrever é uma arte, mesmo porque a plataforma é o afeto e, sendo a superfície amorosa, acredito que escrevo por entender que tenho algo a dizer. Só espero ser compreendido e perdoado pelo que digo.

Para justificar o que vou dizer e agradecer nesta reflexão. Até hoje, tudo que escrevi, nasceu do meu cérebro e passaram pelo filtro do meu coração. Em cada reflexão procurei apreciar e enxergar a alma de cada pessoa que conheci e cruzou o meu caminho, principalmente, neste ano que se finda. Foram tantas pessoas que conheci, mas que cada uma trouxe algo de muito especial, que assimilei como ensinamento para vida e levo na lembrança a sua existência. Cada pessoa é a linguagem de Deus falando através delas. Quero agradecê-las com esse belo texto, que para mim tornou-se uma oração. Declaro a essas pessoas ilustres, com todo o meu carinho, de coração para coração:

Pai, já está terminando o ano de 2018 e agradeço pela vida que me confiou. Nesse momento recolho para o meu descanso merecido. Obrigado Pai por tudo, obrigado pela esperança que nesse ano animou os meus passos, pela alegria que senti juntamente com os meus filhos e os meus amigos, que caminharam ao meu lado e continuam pelo ano vindouro. Obrigado pela alegria que vi no rosto das crianças e dos idosos. Obrigado Pai pelo dom de amar, mesmo sem ser compreendido. Obrigado pela luz, pela noite, pela brisa que sopra o meu rosto, pela comida em minha mesa, obrigado por permitir-me viver em 2018, pelo meu esforço e desejo de superação. Pai desculpe o meu rosto carrancudo. Desculpe ter esquecido que não sou o filho único, mas irmão de muitos. Perdoa-me também por não ter evitado aquela lágrima, aquele desgosto que lhe dei. Desculpa ter aprisionado em mim aquela mensagem de amor. Contudo, estou pedindo força, energia para os meus propósitos, no ano que está nascendo, a nossa vida não para nunca, só com a morte pode cessar. Em quanto isso, espero que neste novo ano que está surgindo, domine um novo sentimento em cada coração, dessas ilustres pessoas que se divertiram e se alegraram com a nossa presença.”

Portanto, não sou de abandonar ninguém. Só me afasto quando percebo, que não faz mais sentido estar na vida de uma pessoa, se ela não me enxerga. Que culpa eu tenho se ela não me ama? Mesmo assim desejo a todos que: “a cada novo dia seja um continuo sim numa vida consciente. Pois, tudo que vive não vive sozinho, nem para si mesmo. Porque tudo que vive é o nosso próximo”. O mundo precisa conversar, para se entender melhor. Deus me deu o poder de saber e aprender o quanto sou pequeno diante do meu semelhante. Muitas vezes nos achamos filho de Deus, mas não agimos como tal. Porém, o amor é maior que a dor que sinto.

Um Feliz e Prospero 2019 para todos nós.       


A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele m...