20 de novembro de 2019

A TERNURA É A SEIVA DO AMOR

É comum nós teorizarmos sobre a felicidade que o amor nos traz. A maioria faz da busca pelo amor a meta de sua vida. Não é por acaso que se trata de um sentimento tão avassalador, capaz de tomar conta de nossa vida e de todos os momentos de nossos dias. Como argumenta o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860): “que não devemos nos culpar tanto pelo estado de desespero e obsessão em que entramos quando o amor fracassa”. Ficar surpreso com a dor da rejeição é ignorar o quanto de entrega a aceitação exigiria. No entanto, misteriosa é a travessia do coração de um homem e respectivamente do coração de uma mulher que se encontram e declaram seus mútuos afetos. Somos carimbados, marcados e flechados pelo cupido. Há um querer demorar e até eternizar no outro, pelo amor, pelo apreço desta companhia e pela valorização de uma vida de luta e esperança neste amor. Quando encontramos uma pessoa, pela qual nos apaixonamos, prontamente dizemos: “eu te amo, mas, não é porque és bela e sim és bela porque te amo”.

Entretanto, é neste vai e vem que nasce o estado mais gostoso da vida a dois. As pessoas se encontram inevitavelmente expostas para este evento imponderável, que é o estado amoroso. Mesmo no coração da atual crise social não podemos esquecer-nos que da ternura nasce o amor. A nossa própria existência não é fixada, vivemos em permanente dialogação com o meio. E nessa troca não deixa ninguém imune. Não raro o êxtase é seguido de decepção. Há voltas, perdões, renovação de promessas e reconciliações. Sempre sobram, no entanto, feridas que mesmo cicatrizadas, nos lembram que um dia sangraram.

O amor é uma chama viva que arde, mas que pode estar prestes a extinguir-se e lentamente se cobrir de cinzas e até se apagar. A indiferença é o maior veneno para o amor. Não é porque as pessoas se odeiam que esta chama se apaga. Quando as pessoas ficam indiferentes umas às outras, é que acontece a morte do amor. No verso 11 do Cântico Espiritual do místico São João da Cruz (1542-1591), que são versos de amor entre a alma e Deus, diz ele com fina observação: “a doença de amor não se cura sem a presença e a figura”. Por conseguinte, não basta o amor platônico ou o amor virtual. O amor exige a existência e a presença do outro. O amor quer a figura concreta que é mais que uma simples imaginação sutil de um poeta trovador. O amor quer sentir o palpitar dos corações dos amantes.

Para o filósofo e teólogo São João da Cruz: “o amor é uma doença que, nas minhas palavras, só se cura com aquilo que chamaria de ternura essencial”. Reiterando as palavras do místico poeta, vou um pouco mais além, citando outro grande filósofo e teólogo Leonardo Boff (1938): “a ternura é a seiva do amor”. Penso que se cada um quiser guardar, fortalecer, dar sustentabilidade ao amor, que “seja terno para com quem se ama”. Sem o azeite da ternura não se alimenta a chama sagrada do amor, certamente ela se apagará. Lembrando que ternura não é simplesmente uma emoção, excitação de sentimento face ao outro. Porém, se assim fosse seria sentimentalismo que é um produto da subjetividade mal integrada. O sujeito que se dobra sobre si mesmo e celebra as suas sensações que o outro provocou nele. Nunca sairá de sim mesmo, ao contrário, a ternura irrompe quando a pessoa se descentra de si mesma e sai na direção do outro, sente o outro como sendo parte da sua essência, participa de sua existência, se deixa tocar pela sua história de vida.

A ternura não é efeminação e renúncia de rigor. É um afeto que à sua maneira nos abre ao conhecimento do outro. Segundo o Papa Francisco (1936), falando para os bispos latinos americanos presentes, quando esteve no Rio de Janeiro, cobrou-lhes “a revolução da ternura” como condição para um encontro fraterno e verdadeiro. Só conhecemos bem o outro, quando nutrimos afeto e nos envolvemos com essa pessoa que queremos estabelecer laços de comunhão amorosa. É aqui que a ternura pode e deve conviver com o extremo empenho por essa causa.

Portanto, a relação de ternura não envolve angústia porque é livre de busca de vantagens e de dominação. O nascer do amor se da pela própria força do coração. É o desejo mais profundo de compartilhar carinhos. A angústia do outro é minha angústia, seu sucesso é o meu sucesso e sua salvação é a minha salvação. O amor e a vida são frágeis. Sua força invencível vem da ternura com a qual os cercamos e sempre os alimentamos. Encerro esta reflexão citando um grande bandeirante do amor, o educador e escritor ítalo-americano Leo Buscaglia (1924-1998). Ele foi idealizador de um curso sobre amor na Universidade da Califórnia nos Estados Unidos. Publicou um livro com o título “Amor”. Faleceu no dia dos namorados, 12 de junho de 1998 e nos deixou a seguinte mensagem: “O amor tem os braços abertos. Se você fechar os braços ao amor, verá que está apenas abraçando a si mesmo. Quando você ama uma pessoa, se transforma no espelho dela e ela no seu. O amor verdadeiro só cria, nunca destrói”. Toque sempre o coração e a alma de quem você ama. “Viva os amantes, que pelo o amor são atraídos”.   

16 de novembro de 2019

O SOCIAL INVARIAVELMENTE IGNORA O AMOR

Ninguém imagina o abalo ontológico provocado pela separação amorosa. Caracteriza-se pela descontinuidade afetiva nas relações amorosas, trazendo a experiência da morte dentro da vida dos apaixonados. No entanto, a sociedade parece já não conceder ao amor e à paixão o lugar de destaque outrora ocupado por esses sentimentos. Nossa sociedade consumista tornou-se indiferente ao amor. Cultivamos uma tendência quase que imperativa para matar o amor na sua essência, colocando todos os tipos de antidoto para neutralizar os efeitos desse sentimento tão nobre, como se ele fosse um veneno para a nossa alma.  Estudar a separação amorosa significa estudar a presença da morte em nossa vida. Se a união de dois amantes é o efeito da paixão, ela invoca a morte, o desejo de matar ou o suicídio. O que caracteriza a paixão é um “halo” de morte (halo é um anel de luz que rodeia um objeto).

Entretanto, o poder do dinheiro, que vem corroendo a liberdade de amar. Contudo, permite-se que a liberdade erótica seja confiscada pelos poderes do capital, do mercado e da publicidade. O corpo vem sofrendo a dessacralização e vem sendo utilizado a serviço da propaganda. Porém, a nossa sociedade capitalista e democrática, aplicou as leis impessoais do mercado e a técnica da produção em massa na vida erótica das pessoas. Assim a degradou, embora como negócio tenha sido um grande sucesso. O corpo como mercadoria, tornou o amor desnecessário. Quando o amor se declara, viramos as costas e mergulhamos na solidão do vazio.

As consequências apontadas em as chamas do amor e do erotismo é a de que o amor, que foi suporte moral e espiritual das sociedades durante milênios, está ferido de morte. De um lado, a promiscuidade traz uma pseudo-liberdade erótica que, subvertendo o afeto, transforma-o em passatempo. Do outro lado, o poder do dinheiro, o apego ao patrimônio e ao desejo de preservá-lo. Nesse contexto, o amor é impossível, não há espaço para ele. Ainda existe pessoa que acredita que estar só é um estado de paz e liberdade. Será? Não fomos feitos para viver a sós e isolados. Nem os animais irracionais suportam a solidão.

Portanto, podemos deduzir que as chamas, “amor” e “erotismo” em seu sentido mais puro e essencial, ligada à profundidade do prazer íntegro, espiritual e pleno, vêm sendo paulatinamente abafado. Contudo, nesse contexto de apagamento do afeto situa-se a experiência da dor amorosa, ainda reservada aos que, deixando-se envolver afetivamente, embarcam na utopia de alcançar o amor do outro. O problema é que na relação amorosa envolve um “Eu” que deseja o “Tu”, e com ele tem um período de encanto, de amor e de posse. Quando o amor está alicerçado e feliz, ambos se destroem por insegurança e fraqueza, querendo provar um ao outro, a importância do social e o que a sociedade pensa do amor. Imagina só! E o que vem depois para quem continua amando é a constatação da perda. Triste fim! Ocorre então, a resignação e a racionalização, tipo “foi melhor assim”. Foi melhor pra quem?   

15 de novembro de 2019

O AMOR É UM CAMINHAR SOBRE ESPINHOS

O que sentimos no fundo da alma por uma pessoa, está no desejo ou no amor? Será que desejo e amor se confundem? Para Platão (427-347), não importa, pois, esse deve ser o ponto de partida para um caminho ascendente de contemplação intelectual ou espiritual por essa pessoa. Argumenta ele que é como ir subindo vários degraus: A função do desejo e do amor na alma humana é impulsionar em direção ao alto, em direção à contemplação da beleza em si mesma, eterna e incorruptível.

No entanto, o que Platão nos mostra é, que o amor é um caminhar sobre espinhos, uma loucura e um arrebatamento, mas não deve servir apenas à satisfação dos desejos inferiores da alma. Ele pode e deve envolver jogos eróticos, como carícias, beijos, toques, mas tudo isso no campo das ideias. Como muito bem ensina o Tantra Hindu. Os rituais desses encontros envolvem a aproximação muito lenta do homem com a mulher, aproveitando cada passo, sentindo cada pequeno gesto, olhar, sorriso e contato físico. Uma forma sábia de prolongar estes momentos prazenteiros é viver em eterna delícia. Esta é a essência da mensagem Tântrica, que Platão afirma no mundo das ideias.

Procurar por esse amor estará sujeito quase sempre a encontrar prazer e dor como diz nos diálogos de Platão sobre o amor. É nas relações afetivas que essa combinação paradoxal surpreende e fere, acima de qualquer sensação física. Nesse envolvimento passional as impressões subjetivas sutilmente superam a racionalidade, igualando paixão e amor. Sentimentos que se confundem no coração, mas distinguem-se no cérebro. Pode-se dizer que no porquê e no apesar estão as diferenças semânticas que a emotividade não explica. Só as almas conhecem e conversam telepaticamente, ultrapassando a temporalidade.

Apaixonamo-nos porque o ser amado parece ter virtudes só visíveis aos nossos olhos. Amamos quando descobrimos que, apesar de aparentes as virtudes e ostensivos os defeitos, predominam a confiança e a compreensão. Tendo em vista que na paixão, está o princípio da dor e no amor está o princípio do prazer. Confundir a natureza desses sentimentos é misturar prazer e dor. Com a paixão vem à posse, o ciúme e a cobrança. Com o amor ficam a admiração, o respeito e a lealdade, formas de amar que poucos reconhecem. Nenhum relacionamento sobrevive sem esses ingredientes que decorrem não do arrebatamento – atributo da passionalidade insensata – mas da razão, atributo da maturidade racional.

Entretanto, nos desdobramentos da paixão, o amor e o ódio encontram-se e repelem-se, para negar e consentir no trânsito entre o amor e o não amor à simpatia; entre o ódio e o não ódio, a antipatia; entre o não amor e o não ódio, a insegurança. Regidos por essas forças, os relacionamentos pessoais, familiares ou sociais, aproximam-se ou distanciam-se num oscilar contínuo, mediados pela sinceridade, pelo carinho, pela solidariedade, tanto quanto pela mentira, pelo desprezo ou pelo egoísmo.

Portanto, enquanto houver uma alma apaixonada, o cérebro e o coração dividirão a soberania das emoções, confundindo paixão e amor. Não existe outra forma de descobrir o amor e, sem ele a vida não tem significado. Contudo, desejo aos jovens que não amadureça depressa demais e sendo maduro, não insista em rejuvenescer, e que sendo velho não se dedique ao desespero. Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que eles escorram por entre nós. Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança; do mal ficam as mágoas na lembrança e do bem, se algum houve, as saudades. 

10 de novembro de 2019

O DIÁLOGO É UMA FORMA DE RESPEITO MUTUO

O diálogo se constrói de forma ética e solidária. A palavra, substrato do diálogo, é o instrumento mais eficaz para a democratização dos saberes, para a resolução de conflitos, para a interação entre os povos e para consolidação do desenvolvimento cultural, técnico e científico que impulsiona o processo civilizatório. Só ao ser humano foi dada a capacidade de dialogar, o que faz do diálogo uma característica única na comunicação humana. Pressupõe a reciprocidade existencial e ao mesmo tempo as diferenças e as semelhanças, que nos tornam pessoas mais interessantes. O diálogo é a base e o ponto de partida para compreendermos o outro. É que torna viável o entendimento entre duas ou mais pessoas. Denota respeito e capacidade de compreensão dos problemas, sobretudo, porque o dialogo é racional e consciente. Por outro lado, o respeito além de racional está no plano do espiritual e, é até mais importante que o amor.

O diálogo é a ponte que une as pessoas e, em especial os casais. Quando um casal aprende a demonstrar através do diálogo o que espera um do outro, o que gosta e o que não agrada, a relação fica mais verdadeira e tende a durar. Entretanto, o medo de conversar é uma semente que vai crescendo na relação e, com o passar dos anos, vai corroendo os sentimentos e essa união supostamente estável. Muitas vezes, quando um dos dois resolve falar, terminam descobrindo que já estão vivendo em mundos tão distantes e tão diferentes que às vezes é tarde demais para reativar o encanto. Pois a semente do amor foi sufocada pelo veneno das mentiras, da hipocrisia e até da omissão. Tendo em vista, que o diálogo pode acontecer de diversas maneiras, até mesmo através dos olhares, palavras e atitudes, são formas de dialogar.

Entretanto, o diálogo é capaz de unir pessoas de tal forma que elas se sentem valorizadas e aptas para viver o respeito e a solidariedade. Todavia, quando o relacionamento começa a perder esse alicerce do diálogo, as pessoas vão se distanciando e, o mais grave, vão criando uma espécie de alucinação mental. Começa a pensar que o outro não gosta mais dela. Muitas vezes chegam a pensar que a sua relação foi pautada em um amontoado de mentiras. Quando na verdade, o que marcou o fim da relação foi à falta de dialogo e respeito. Quanto menor for à comunicação e a falta de respeito dentro de um relacionamento, maior é a distância entre as pessoas.

Por conseguinte, amar é dialogar, é saber falar ao outro das coisas que não estão indo bem e ter a humildade de se mostrar ferido, quando sua conduta não agrada, no momento em que essas coisas estão acontecendo e antes que elas se transformem em sentimentos amargos. É saber valorizar tanto o outro, a ponto de não deixar que nenhuma desconfiança paire sobre ambos. Sentimentos que no futuro podem vir a prejudicar a relação amorosa. Como argumenta Platão, o pensamento é um dialogo da alma consigo mesmo.

É bom lembrar, que não há razão de ser qualquer situação nessa vida que não esteja baseada na verdade. E a ponte para se chegar a verdade é o dialogo. De nada adianta viver ou tentar qualquer atitude se a verdade não for à chave para essa experiência. Se você realmente quer viver e cultivar um grande amor, comprometa-se com a verdade. Não pense que isso o torna um ser humano proibido de cometer erros. Todos nós tomamos atitudes muitas vezes equivocadas.

Portanto, estamos num processo de crescimento e evolução, cada qual no seu nível, na sua tentativa. No entanto, quando estamos comprometidos com o dialogo e com o respeito, tudo vale à pena, tudo pode ser superado e tudo pode ser perdoado. Contudo, o respeito é o maior segredo, o mais precioso tesouro, o mais nobre das ferramentas humana. Saiba que, por mais difícil e doloroso que possa parecer esta experiência, é somente assim que nós podemos estar certos de ter passado por esse mundo sendo autênticos e preservado o respeito. Enfim, uma relação solida se constrói a custa de muito diálogo e pautado na verdade e no respeito. Vamos pensar nisso!

5 de novembro de 2019

O DESCARTISMO DO AMOR CONTAMINOU OS SENTIMENTOS


Na sociedade atual, com a facilidade ao acesso a comunicação através da internet e do celular, fala-se e escreve-se muito sobre sexo e quase nada sobre o amor. Talvez porque o amor, sendo um enigma, não se deixa decifrar, repelindo toda tentativa de classificação ou definição. Ao contrário, a literatura nunca deixou de falar do amor, principalmente, nas poesias, é nesse campo mítico por excelência que aparece a metáfora como possibilidade de compreender melhor o amor. Todavia, não há como negar que esse vazio conceitual se deva à dificuldade de expressar o amor no mundo contemporâneo. Tendo em vista, o desaparecimento das sociedades tradicionais, cujos costumes envolviam fortes relações entre as pessoas. Entretanto, nossas cidades com o aumento de suas populações, com seus arranha-céus, estão criando espaços para a solidão, o chamado fenômeno da “multidão solitária”. As famílias desintegrando-se e dispersando-se em busca de emprego. Por outro lado, as pessoas caminham lado a lado, mas suas relações são territoriais e não sociais. Seus contatos dificilmente se aprofundam, tornando-se mais raro os encontros verdadeiros e amizades duradouras.

O jovem de hoje tem muito mais possibilidade de contatos prazenteiros, mas totalmente descompromissados de intimidades afetivas. Com essa facilidade de ficarem com vários numa única noite, ao mesmo tempo não estabelecem relações intimas duradouras, porque suas relações são muito inconsistentes. Os ditos apaixonados se juntam e separam com a mesma facilidade. Não há amor, não há envolvimento, porque não criam vínculo. Ficam somente no campo do desejo e do epidérmico. Na verdade, isto não é namoro e sim encontro casual, puramente físico e sem compromisso. Agradável a principio, excitante, uma espécie de tiroteio cerrado de desejo, de busca de troca e carência instintiva. Mas cansativo a longo prazo porque se espera mais do que só a relação física, portanto, torna-se desapontador para ambos.  

Para a jornalista e escritora ítalo-brasileira Marina Colasanti (1937): “pertencemos à geração do descartável, desinventamos o duradouro. À navalha, que durava a vida inteira, hoje preferimos o barbeador que se utiliza só por algumas vezes e se joga fora. Trocamos o bom e sóbrio tecido que usaríamos durante anos, pela alucinante cor da moda que durará apenas uma estação. Resistência e boa qualidade tornaram-se palavras sem sentido, o máximo que admitimos é obsolescência planejada. Parece que o amor ficou fora de moda e o sexo tornou-se mais atraente. Esse descartismo do amor contaminou os sentimentos, sem, entretanto, mudá-los por completo”.

Todavia, não é só nas relações entre duas pessoas, que os encontros afetivos estão empobrecidos. A nossa organização social de efeito capitalista tem modos de convívio social baseados na competição e rivalidade. Essa sociedade vê no amor o seu pior inimigo. Fala-se tanto em cristianismo, onde se prega o amor ao próximo. Foi à classe dominante que inventou essa história de igualdade, que espalhou esse veneno pelo mundo afora. E hoje tentam nos mostrar que o amor não é absolutamente a força maior que fomenta a humanidade. Por conseguinte, vivemos dentro de uma sociedade onde tratam as relações como superficiais e descartáveis. Estamos às vésperas do prazo de vencimento das relações afetivas. Os relacionamentos estão cada vez mais fragilizados e desumanos. A confiança no próximo está cada vez mais perto de terminar definitivamente. Os seres humanos estão sendo usados por eles mesmos.

Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), os avanços tecnológicos influenciaram muito o ser humano em suas relações de um modo geral, que o amor líquido (que mal começa e já termina), representa justamente esta fragilidade dos laços humanos, a flexibilidade com que são substituídos. É um amor criado pela sociedade atual, a chamada modernidade líquida, para tirar-lhes a responsabilidade de relacionamentos sérios e duradouros, já que nada permanece nesta sociedade, o amor não tem mais o mesmo significado, foi alterado como algo flexível, totalmente diferente do seu verdadeiro significado de durabilidade e perenidade.

Portanto, para muitos o amor romântico está fora de moda. O amor verdadeiro em sua definição romântica foi rebaixado a diversos conjuntos de experiências vividas pelas pessoas, nas quais se referem utilizando a palavra amor. Principalmente no sexo casual, hoje praticado por uma parcela significativa, na tentativa de camuflar os impulsos instintivos e biológicos do ser humano a ser satisfeito, enganando aos seus parceiros, dizendo “vamos fazer amor”. Entre essas pessoas é muito fácil ouvir “eu te amo”, pois não existe mais a responsabilidade de estar mesmo amando. A palavra amor foi rotulada de uma forma, em que as pessoas nem sabem direito o que sentem, não conseguem definir a diferença entre amor e paixão e mesmo assim utilizam incorretamente esta palavra, que perdeu sua importância. Contudo, as pessoas preferem o encontro pela internet, no campo do virtual, porque sendo assim, quando quiserem podem apagar o que haviam escrito, ou simplesmente apagar um contato e facilmente dizer adeus. Enfim, ter o sexo é fácil, contudo, tornou-se difícil ter o amor e com isso estamos matamos um sentimento que poderia salvar a humanidade.


2 de novembro de 2019

O AMOR EXIGE CUIDADOS RECÍPROCOS

Invariavelmente, as juras de amor são acompanhadas do desejo e da exigência dos cuidados recíprocos dos amantes. De modo que o amor pressupõe reciprocidade. O amor exige um cuidado recíproco, que muitos não compreende. Claro, há o amor não correspondido, mas, ainda que sobreviva à ausência do ser amado, mesmo que seja chamado de amor, o nome mais propício é sofrimento. Na paixão, de fato, também há sempre um sofrer. Como afirma meu amigo filósofo e educador, Antônio Ozaí da Silva (Universidade Estadual de Maringá): “posso continuar a amar, e neste sentido é incondicional”. Mas a recusa do amor ou a impossibilidade de realizar-se o transforma em sofrer, angústia e dor. Pois o amor exige materializar-se reciprocamente.

Por outro lado, o amor condicional é possessivo. É típico daquele amor que quer sempre mais, aspirar a uma fusão total que lhe escapa. Esse amor caminha mergulhado no egoísmo, impulsionado pelo ciúme, o desejo de exclusividade. Um sentimento exacerbado de posse, desconfia de tudo, fruto da insegurança. Daí a necessidade de controle. Como argumenta Ozaí: “há amores possessivos, amores angustiados, que se reduz quase que exclusivamente ao controle físico e mental do outro. Há amores-ódio, amores-poder em que o amante é o carcereiro do amado, preocupado apenas com que ele possa evadir-se da prisão. O carcereiro teme os amigos porque estes são janelas por onde o prisioneiro vê a liberdade, e por onde pode escapar”.

Todavia, começa aqui uma sutil luta contra a amizade. O amor-paixão é êxtase, mas também pode ser cárcere. O amor condicional requer algum tipo de troca, é finito. O amor é dado apenas com base em determinadas condições satisfeitas pelo parceiro, ao contrário do amor incondicional. Que ama simplesmente sem nada esperar em troca. No relacionamento entre um casal, quem tem amor incondicional ama sem ter razões ou pré-requisitos. Dedica-se totalmente à relação, transformando o amor em uma ação praticada a todo instante, de variadas formas. O conceito é semelhante ao amor verdadeiro. Cuide para que não queiras receber mais do que tens a oferecer, por que há coisas que exigem extrema reciprocidade para que sejam possíveis. Esse sentimento é pautado na confiança e no respeito.

Para que um litro de água preencha um vaso, é preciso que este vaso tenha espaço para aquele um litro de água, pois se ele não tiver espaço suficiente, ele transbordará e a água sofrerá. De modo semelhante, a água precisa estar na medida certa que o vaso comporta, ou deixará espaço vazio, e aí será o vaso que sofrerá. No amor é preciso proceder da mesma forma; se quer viver um imenso amor, é preciso que cultive um espaço imenso em teu coração. E, se mais que isso, deseja um amor incondicional, o teu amor precisa ser incondicional primeiro – sempre, e sobre todas as coisas, ou ele deixará de ser incondicional.

Portanto, o amor verdadeiro, maduro, é livre, é incondicional, sabe ceder e perder com serenidade para o bem da pessoa amada; sabe viver quando tem o bem e também quando não tem; sabe dialogar e chegar a conclusões maduras e sensatas. O amor não nasce pronto, de uma vez, tem que haver vibração tem que ser harmônico. Amar é comprometer-se, como um amigo, companheiro, nas horas felizes e tristes, é ser honesto, sincero, confiante, verdadeiro em palavras e atitudes. O amor é como uma rosa, mas para que essa rosa exista, é preciso que exista também os espinhos. Mas, mesmo assim, o amor ainda é a maior força que existe em nós. O amor nos transforma e nos amadurece. Se não aceitarmos de coração aberto à dinâmica transformadora do amor, estaremos definitivamente negando a crescer e permanecer sempre infantil. Hoje posso dizer: “o que eu sou é o que me faz viver.

30 de outubro de 2019

AS RELAÇÕES AMOROSAS PARALELA AO CASAMENTO

A transparência total no casamento aliada à liberdade de ter amores paralelos, não são aceitas por muitas pessoas e parecem difíceis demais de serem vividas, para aqueles que decidem ser livres, mesmo depois de casados, como no caso dos  filósofos Jean-Paul Sartre (1905-1980)  e Simone de Beauvoir (1908-1986). Não é fácil enfrentar, com distanciamento, uma relação amorosa paralela ao parceiro. Quantas pessoas são capazes de saber que o companheiro ou a companheira está envolvido em outro relacionamento afetivo, sem que isso leve à separação? Na realidade, é mais fácil permanecer num casamento quando a fidelidade não é posta em jogo.

No caso dos dois filósofos franceses, não se pode nem mesmo falar de infidelidade na relação, uma vez que as relações chamadas por eles de “contingentes”, relações casuais, que pode ou não ocorrer entre ambos. Chamado por muitos de “relacionamento aberto”, previstas no pacto não escrito e, sim, combinado pelo casal. Na relação de Sartre e Simone de Beauvoir só existia uma moral, de ambos viverem em total transparência, fidelidade dos espíritos e liberdade dos corpos. Juntos, porém, cada um vivendo a sua vida da forma como melhor lhe aprouver.

Segundo a jornalista e pesquisadora Leneide Duarte-Plon que relata em seu livro: “Por que elas são infiéis?” o caso de uma de suas pesquisadas, que tentou viver no casamento uma relação livre e transparente, durante muitos anos. O chamado casamento aberto. Diz ela: “No início, o marido pedia a ela para que contasse sobre os seus casos, falar sobre os encontros, descrevendo se possível em detalhes, como se isso o estimulasse em seu próprio desejo em relação à esposa e a outras mulheres. Depois de terem dito tudo um ao outro com franqueza total, essa mulher e o marido se separaram”.

A teoria da liberdade do casamento aberto ou da transparência é tentadora. Mas na prática mostra que poucos casais conseguem ser transparentes. Essa liberdade no casamento é combatida pela moral vigente em quase todas as sociedades. Mas algumas aceitam, com certa indulgência, a infidelidade masculina. Ao passo que a mulher é mais controlada pela sociedade. É como se fosse um direito só do homem de ter uma amante ou um caso extraconjugal. Gosto mais da palavra “extraconjugal” por ser menos preconceituosa.

O filósofo inglês Bertrand Russell, prêmio Nobel de Literatura em 1950, defensor de ideais pacifistas, humanitário e da liberdade de pensamento, autor do livro “O Casamento e a Moral”, argumenta que o fator primordial da moral sexual na civilização ocidental desde os primórdios do cristianismo, consistiu na garantia da virtude feminina, indispensável à família patriarcal. Analisava os fundamentos sociais, econômicos, religiosos e culturais da instituição do casamento. Russell não via razão, por exemplo, para condenar duas pessoas que se amam apenas porque tiveram relação sexual fora do casamento. Além disso, afirmava para o horror dos moralistas de sua época, que uma aventura extraconjugal não deveria ser motivo de escândalo e ruptura.

Para Russell quanto mais civilizado é um povo, menos o indivíduo é capaz de obter felicidade durável com o mesmo parceiro a vida inteira. Quem vê nos laços do casamento um valor definitivo e irrevogável não permite que a imaginação se deixe estimular, passear e procurar a possibilidade de uma felicidade idealizada. Entretanto, a chave da compreensão das relações extraconjugais passa primeiro pela imaginação do objeto desejado que é transformado pelos amantes na idealização da felicidade.

O nosso sonho, tanto do homem como da mulher, é a poligamia. Os chamados civilizados em geral são polígamos. Contudo, é possível apaixonar-se e ficar durante anos com esse parceiro. Mas, cedo ou tarde, a rotina e os maus hábitos do casamento apagam essa paixão e é preciso procurar novas emoções, se quiserem continuar vivos nessa relação. Naturalmente, é possível dominar esse instinto, os desejos de viverem novas emoções, mas é difícil impedir sua existência, negar que eles existem. Vira e mexe ele aparece, mesmo dentro de um casamento estável. Pessoas dizendo o tempo todo que são felizes e vivendo uma relação infeliz. A história do limão doce!

Portanto, com o progresso da emancipação da mulher, as oportunidades de casos extraconjugais multiplicaram-se. A ocasião faz nascer a ideia, que faz nascer o desejo, que finalmente propicia o encontro que todos desejam, principalmente quando as amarras da religião estiverem ausentes. Penso que a fantasia masculina básica é possuir todas as mulheres. Ao passo que a fantasia feminina básica, é manter o homem ideal só para ela devorá-lo num sublime amor canibal. Assim como na crença do homem pela fidelidade de sua mulher, seja uma ilusão puramente masculina. Enfim, onde está o modelo de casal ideal?  

ESSE DEUS PERSONIFICADO PELA RELIGIÃO NÃO EXISTE

A religião sempre desempenhou o papel fundamental na história das pessoas. Na verdade as pessoas de modo geral desejam acreditar em Deus, co...