28 de fevereiro de 2013

ESCONDE-ESCONDE DOS SENTIMENTOS

Há pouco tempo li um texto escrito pelo filósofo e jornalista Waldir Pedro, que é uma delicia, onde o autor brinca com as palavras, quero dividir aqui com vocês. Todavia, essa narrativa nos remete a uma reflexão profunda, pelo simples fato de mexer com os sentimentos e suas variações. Conta que certa vez reuniram todos os sentimentos e as qualidades do ser humano em algum lugar do planeta.

Entretanto, conta que quando o Aborrecimento havia reclamado pela terceira vez, a Loucura, como sempre tão louca, propôs-lhe: “vamos brincar de esconde-esconde?” A Intriga levantou a sobrancelha, intrigada e, a Curiosidade, sem poder conter-se, perguntou: “esconde-esconde? O que é isso?” "É um jogo, explicou a Loucura, em que eu fecho os olhos e começo a contar de um a um milhão enquanto vocês se escondem e, quando eu tiver terminado de contar, o primeiro de vocês que eu encontrar ocupará meu lugar para continuar o jogo".

O Entusiasmo dançou seguido pela Euforia. A Alegria deu saltos que acabou por convencer a Dúvida e até mesmo a Apatia, que nunca se interessava por nada. Mas nem todos quiseram participar. A Verdade preferiu não se esconder. Esconder por que, se no final todos a encontrariam? A Soberba opinou que era um jogo muito tonto (no fundo o que a incomodava era que a ideia não tinha sido dela) e a Covardia preferiu não se arriscar. Enfim, a Loucura começa a contar.

A primeira a esconder-se foi a Pressa que, como sempre, caiu atrás da primeira pedra do caminho. A Fé subiu ao céu, e a Inveja se escondeu atrás da sombra do Triunfo que, com seu próprio esforço, tinha conseguido subir na copa da árvore mais alta. A Generosidade quase não conseguiu esconder-se, pois cada local que encontrava parecia-lhe maravilhoso para algum de seus amigos. Se for cristalino, ideal para a Beleza, se for à copa de uma árvore, perfeito para a Timidez; se for o vôo de uma borboleta, o melhor era para a Volúpia. Se era uma rajada de vento, magnífico para a Liberdade. E assim acabou escondendo-se em um raio de sol.

O Egoísmo, ao contrário, encontrou um local muito bom desde o início, ventilado, cômodo, mas apenas para ele. A Mentira escondeu-se no fundo do oceano (mentira! Na realidade, escondeu-se atrás do arco-íris). A Paixão e o Desejo esconderam-se no centro do Vulcão. O Esquecimento não me recorda onde se escondeu, mas isso não é o mais importante. Quando a Loucura estava lá pelo 999.999, o Amor ainda não havia encontrado um local para esconder-se, pois todos já estavam ocupados, até que encontrou um roseiral e, carinhosamente, decidiu esconder-se entre as flores. Um milhão! Contou a Loucura e começou a busca.

A primeira a aparecer foi a Pressa, apenas a três passos de uma pedra. Depois se escutou a Fé discutindo com Deus, no céu, sobre zoologia. Vibraram a Paixão e o Desejo no Vulcão. Num descuido, encontrou a Inveja e, claro, pode deduzir onde estava o Triunfo. O Egoísmo não precisou ser procurado. Ele saiu sozinho disparado de seu esconderijo que, na verdade, era um ninho de vespas. De tanto caminhar, a Loucura sentiu sede e, ao aproximar-se do lago, descobriu a Beleza. A Dúvida foi mais fácil ainda, pois a encontrou sentada sobre um muro sem decidir de que lado se esconder. E assim foi encontrando todos. O Talento entre a erva fresca, a Angústia em uma cova escura, a Mentira atrás do arco-íris (mentira! Ela estava no fundo do oceano) e até o Esquecimento, que já havia esquecido que estava brincando de esconde-esconde.

Apenas o Amor não aparecia em lugar algum. A Loucura o procurou atrás de cada árvore, em baixo de cada rocha do planeta e em cima das montanhas. Quando estava a ponto de dar-se por vencida, encontrou um roseiral. Pegou uma forquilha e começou a mover os ramos, quando, no mesmo instante, escutou-se um doloroso grito. Os espinhos havia ferido o Amor nos olhos. A Loucura não sabia o que fazer para desculpar-se. Chorou, rezou, implorou, pediu perdão e até prometeu ser seu guia.

Moral da história! Desde então, desde que brincaram de esconde-esconde no planeta, ficou claro para todos os sentimentos, que o Amor é realmente cego e que a Loucura sempre o acompanha. Por conseguinte, só os loucos invertem a lógica do mundo. Muitos pensadores foram em, suas épocas, considerados loucos. A senhora razão tem prazer em tirar nossos momentos de delírio e nos diz que somos ridículos. Aprendi que se não houver paixão no que estamos fazendo, a gente surta. A única maneira de não ficarmos louco de uma vez, é embarcar nessa loucura que nos conduz ao Amor.


26 de fevereiro de 2013

A ARTE DO NAMORO TÂNTRICO

Quando se descobre a milenar arte do amor tântrico, o namoro ganha força e afinidade, o vinculo afetivo se estabelece. Os envolvidos estão sempre dispostos a sacrificar-se por esse amor de maneira espontânea e genuína. Os corpos parecem ser esculpidos um para o outro. Ambos acreditam tratar-se de almas gêmeas. Neste estado de graça as almas se completam harmoniosamente, formando uma unidade perfeita. Há uma grande concordância no campo da sexualidade, onde as almas reciprocamente se alimentam de carinho, ternura, beijos ardentes e amor romântico. Há uma inocência e uma pureza de sentimentos que brotam do fundo dessas almas.

Não há nada mais delicioso que a aventura do encontro, quando estamos encantados por uma pessoa. As almas falam por si mesmas. O namoro é a melhor fase da nossa vida. Como é bom e prazeroso namorar. O casamento poderia ser proibido, como preservação do namoro. Mas, infelizmente esse componente altamente estimulante que conduz ao encontro dos dois corpos, provocando o êxtase e convertendo-se numa grande celebração das almas e dos corpos, estão comprometidos, em plena extinção pelo ritmo alucinante da vida moderna, ou quem sabe, pelo processo decadente da humanidade.

Todavia, é irônico e paradoxal pensar que justamente agora que vivemos um clima de total liberdade sexual sem precedentes na história da humanidade, o sexo de uma forma geral está sendo absurdamente mecanizado e desfigurado com relação à sua origem sagrada. No mundo atual, viver momentos de êxtase prolongado com demonstração de amor, viver momentos de paz nos braços do ser amado, ou é coisa do passado ou no mínimo ocorre de maneira fugaz, sem profundidade, sem magia, e o pior de tudo isso, que é um sexo sem nenhuma conotação afetiva, vivido de maneira excessivamente fácil, primitiva e primaria. Os beijos e carinhos se banalizaram tanto que quase já não produzem mais nenhum assombro. O mundo virtual está ai para comprovar o que estou dizendo.

No namoro tântrico a excitação é um sentimento de preservação daquilo que possuo. É manter acesa a chama do erotismo o tempo máximo possível. Se quiser ter êxito no namoro e no amor tântrico, necessita-se de elevada sensibilidade física e psíquica, de capacidade de entrega total, muita renúncia, ausência de tensões e mascaras psicológicas que inibem e reduzem o prazer e impossibilitam a vivência do êxtase. A pergunta que se faz é: que intimidade pode existir numa relação sexual quando as luzes estão apagadas, ou quando os olhos estão fechados para o outro? Pois, este é um momento sublime, cuja a entrega é inevitável. É bom lembrar que, praticar sexo é uma escolha, ter prazer é uma possibilidade. Como obter prazer se não há entrega?

Entretanto, nesse momento o que vale é o conjunto todo, mente, corpo e espírito. O contato íntimo tântrico é uma crescente satisfação sexual no nível físico e emocional, bem como no nível espiritual. A essência deste momento ímpar é que o sexo que já se encontra em estado amoroso, pode ser muito mais do que uma simples experiência física. É um ato muito íntimo que envolve deliciosamente o prazer intenso e prolongado, levando ambos ao êxtase.

O filósofo inglês Bertrand Russel, prêmio Nobel de Literatura em 1950, escreveu um ensaio sobre as três grandes paixões de sua vida. Vou deter-me somente na primeira das suas paixões para fundamentar o significado máximo desse estado amoroso, que simboliza a nossa própria existência.  Argumenta Russel: “primeiro busquei o amor, que traz o êxtase tão grande que sacrificaria o resto de minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Procurei-o também, porque abranda a solidão, aquela terrível solidão em que uma consciência horrorizada observa da margem do mundo, o insondável e frio abismo sem vida. Procurei-o finalmente, porque na união do amor vi, em mística miniatura, a visão prefigurada do paraíso que santos e poetas imaginaram. Isso foi o que procurei e, embora pudesse parecer bom demais para a vida humana, foi o que finalmente encontrei”.

Portanto, para mergulhar nessa viagem descrita por Bertrand Russel, penso que é muito importante assinalar que na intimidade tântrica não existe começo, meio e fim, como estamos acostumados nas relações sociais onde envolve namoro e sexo amoroso. O que existe é o momento presente a cada etapa dessa viagem pelos corpos um do outro. Não existe tempo de duração, é o encontro com o meu Eu divino. Só é dado esse direito aos santos e poetas, os seres mais sensíveis e iluminados desse planeta. Contudo, quem pratica a arte milenar do namoro e do amor tântrico, aproxima-se dos iluminados e experimenta esse êxtase dos santos e poetas.   

17 de fevereiro de 2013

MATURIDADE OU ENVELHECIMENTO?

Vivemos uma grande transformação de costumes, são novos paradigmas surgindo como uma proposta de vida plena. O valor da espiritualidade, do autoconhecimento, do afeto, a alegria e a liberdade de ser e se exprimir é o que anuncia como qualidade para o viver bem e com dignidade. Mas, se não temos estudos profundos e suficientes sobre o próprio envelhecer, se a sexualidade somente nas últimas décadas deixou de ser negado, então, o que dizer da sexualidade e qualidade de vida na terceira idade? Muitas vezes nos atemos a costumes para dizer que é assim mesmo. Entretanto, são tantas as realidades que compõem a verdade que podemos observar no dia a dia. Pessoas explorando pessoas e as matando de todas as formas. Desde a indiferença até a morte física.

Para melhor entendermos essa nomenclatura vamos conceituar o que quer dizer terceira idade, maturidade e envelhecimento. A terceira idade é um termo simpático, comumente usado como sucedâneo de velho e muito próximo do termo idoso. Refere-se a uma categoria social de pessoas, cujo estado funcional é o da aposentadoria. Na verdade, não tem sido muito bem aceito ou entendido pelas classes populares na sua maioria. O mais usado é o termo melhor idade. Como fica a situação da primeira idade, assim como da segunda idade? O prazer de viver só acontece na melhor idade? Quem pode afirmar isso?  As pessoas não juntam idéias. Todas as etapas da vida valem a pena viver, só depende da grandeza da nossa alma naquela fase da vida. Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente. Só envelhece quem morre no espírito. Prefiro ser uma pessoa menos jovem, mas com espírito de garoto, do que um adolescente com espírito cansado.

O termo terceira idade como afirma a psicoterapeuta e educadora Ana Perwin Fraiman, mestre em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo): “chegou ao Brasil importado pelos países do chamado primeiro mundo, de economia e política social progressiva, inclusive com apoio e amplo projeto social para a terceira idade”. Ora, o que não é o caso do nosso país que trata mal os seus idosos. É lamentável constatar que em 2025 seremos mais de 62% de idosos, tendo em vista, que 2050 de cada três pessoas uma é idosa. O país está preparado para receber esses idosos?  Aqui começa a fazer sentido o porque do termo melhor idade. O Estado Federativo e a Previdência são os grandes responsáveis por esse desprezo e descaso ao idoso. A melhor idade é uma falácia que usam, para camuflar a falta de zelo e respeito com o idoso.

Por outro lado, os estudos mais recentes são animadores para essa geração da terceira idade. Não é necessário envelhecer como estamos fazendo, evidentemente, considerando naturais as doenças próprias da maturidade e mudanças fisiológicas que ocorrem em nosso corpo com o passar dos anos. Tendo em vista, que o mundo ocidental não reconhece o sexo como modo experiencial de evolução da própria espiritualidade quando afirmamos que é nos braços do ser amado que encontramos o paraíso, que os beijos dos amantes nos conduzem às esferas celestiais e que a perda da pessoa amada nos faz conhecer a condição de alma penada. E para sentir isso não tem idade. A epiderme, ou seja, o contato com a pele é gostosa em qualquer idade. O corpo humano é um complexo laboratório de reações química, sem falar do DNA que se une ao outro DNA, em função de um terceiro DNA. Mas também pode ter como finalidade o crescimento e a prosperidade no amor que surge dessa união. É bom lembrar, que é o DNA que escolhe o nosso par. A chamada química. Somos movidos e atraídos por essa força.   

Entretanto, as vantagens da terceira idade estão no campo afetivo. É na experiência do amor que ascendemos igualmente ao sublime e ao medonho. E é no sexo amoroso, em qualquer idade, mas, principalmente na terceira idade que conhecemos a eternidade, dentro da própria temporalidade. O sabor da vida, o prazer verdadeiro, o encontro do meu Eu divino no outro, a troca de corações, cada um se apossa do coração do outro, numa atitude de cuidar e preservar o amor. Como dizia os antigos: “se você quer ser feliz, não se case. Se você quer fazer o outro feliz, então se case”.

Na terceira idade dispensa as preocupações que teria um jovem quanto a sua sexualidade. Na maturidade o sexo é a própria vivência da alegria e da beleza e o encontro é na sua totalidade uma grande caricia que envolve o corpo, o psiquismo e a alma. Neste encontro ambos vivem a certeza do amor pleno. Nesse estagio de maturidade, passa a pensar com o coração, a fazer sexo amoroso com o corpo todo e com a mente possuída pela divindade. Pois na plenitude do prazer de se encontrar, experimentar o paradoxo e o milagre da vida, do nascimento e da morte. Cada encontro é um renascer. Cada orgasmo é um morrer. Quem sabe a respeito dessa maturidade, pouco fala, só quer sentir.

Portanto, é com a experiência e com a maturidade, que passamos do processo jovem da segunda idade, onde somos criativos e produtivos, para o processo maduro de introspecção e sabedoria existencial. Com a maturidade também vem à serenidade, a paciência histórica e o bom humor. Contudo, a relação madura é marcada pela alegria e felicidade a cada encontro, onde os gestos dizem mais que as palavras. A experiência sexual amorosa na terceira idade é consciente e madura, integrada e ao mesmo tempo sensorial e biológica, mental e psicológica, sensual e espiritual, carregada de generosidade e de muita sabedoria. Estado pleno de crescimento, que vai do físico ao espiritual. Há um provérbio oriental que diz: “Se mergulhas e não encontras pérolas no fundo do rio, não pensem que elas não existem”. Tal é a arte de viver e de morrer. Que o sexo amoroso e o amor pleno, na maturidade por si só, parecem saber do poder de cumplicidade que domina.           

11 de fevereiro de 2013

MEDITAR É MERGULHAR NA ESSÊNCIA DA VIDA

A meditação é uma prática milenar que milhares de pessoas de todas as condições de vida praticam. Mesmo as pessoas tidas como inteiramente profanas fazem ou tentam fazer a sua hora de meditação, de manhã cedo ou à noite. E muitas pessoas descobriram que há, nos profundos redutos dessa prática, algo que não tem nome, mas que tem sabor de tranquilidade, de paz e felicidade. A meditação é muito praticada pelos orientais, assim como também, pelos religiosos de modo geral, em retiros espirituais.

O radical filológico de meditar é med-, que constitui também o elemento básico de medir, mediador, medianeiro, intermediário, (Filologia é a ciência que estuda a civilização de um povo, num dado momento da sua história, através de documentos literários, escritos e por eles deixados). O verdadeiro sentido de meditar designa algo que medeia, como uma ponte que liga duas coisas, uma espécie de união entre dois pontos. Assim como a palavra sânscrita yoga tem o mesmo sentido, ligar a algo. O vocábulo latino religio também coincide com o sentido de yoga ou meditação, pois meditar é estabelecer ligação, união, contato com a essência Divina. Contudo, meditar quer dizer medear, servir de intermediário, de traço de união entre dois estados de consciência. O meu ego humano com o meu Eu divino.  

No entanto, existe uma premissa falsa na prática da meditação. Um erro em que quase todas as pessoas baseiam a sua meditação, que é acreditar que essa prática consiste em pensar, analisar e estudar o sentido exato, muito comum nos encontros para casais e jovens em retiros espirituais nos finais de semana. Esmiuçar tópicos de trechos bíblicos, sobretudo do evangelho, por vezes também à vida dos santos e aplicando-o à sua vida pessoal.

É inegável que esse processo de concentração é muito útil para os estudos e a compreensão profunda de um texto, seja ele qual for. Se essa luz de compreensão profunda melhorasse realmente a vida de quem pratica a meditação, seria o meio ideal para a autorrealização e a santificação do ser humano. Mas infelizmente não é bem assim. É inaceitável que o indivíduo se torne melhor pela simples compreensão intelectual de uma verdade. Ele pode ter cem por cento de compreensão analítica de todos os textos, inclusive do evangelho ou até da Bíblia inteira e continuar a ser um individuo cem por cento medíocre e profano.

Entretanto, não se trata absolutamente de entender, de analisar o sentido das palavras, como dizia Paulo de Tarso: “a inteligência da letra mata o espírito se além dessa letra mortífera não vier o espírito vivificante e o despertar desse espírito não vem pela letra”. Tendo em vista que a palavra é ambígua, porque ela limita o pensamento. Não negamos que o estudo da letra possa servir de condição preliminar sobre a qual se possa projetar a espiritualidade. O que negamos é que essa análise mental possa ser a causa do advento do espírito. Na verdade, são verdadeiros empecilhos que dificultam o encontro com o Eu divino. Pois não permitem ouvir a voz da Consciência Cósmica. Não permitem que o Eu divino lhes fale, porque não se calam. Diz a sabedoria cristã: “onde o homem fala, Deus se cala”.

Como argumenta o filósofo e educador Huberto Rohden: “nada recebem das águas vivas do espírito de Deus os que de antemão obstruíram todos os canais pelos quais as águas da fonte poderiam fluir”. Por conseguinte, muitos fazem da meditação uma interminável ladainha de pedidos. Outros chegam ao ponto de fazer negociata com Deus. Usam palavras do Divino Mestre para as suas meditações: “tudo aquilo que pedir ao Pai em meu nome e Ele vos darás”. Esqueceram das outras palavras do Mestre: “Vosso Pai celeste sabe da sua angústia e da sua necessidade, mesmo antes de pedir”.       

Entretanto, o indivíduo que pratica a arte de não pensar em nada, que suspende toda e qualquer atividade do seu ego humano, mas fica plenamente consciente do seu Eu divino, essa pessoa sim, sabe o que significa a palavra meditar. Por conseguinte, reduzir a zero tudo o que é do seu ego humano e elevar cem por cento tudo o que é do seu Eu divino, isto é realmente meditar. Ou seja, morrer espontaneamente, antes de ser morto compulsoriamente, como afirmava todos os que praticavam essa arte divina do cosmo meditação. Foram essas pessoas que presumivelmente, trouxeram bonitas e profundas mensagens como: Jesus, Paulo de Tarso, Francisco de Assis, entre outros grandes líderes que a humanidade já conheceu.

Todavia, o transe que muitos praticam, de nada resolve já que é de total passividade, mesmo quando a meditação é a de mais alta atividade. O chamado estado de samadhi, uma espécie de êxtase, a unidade plena com o espírito, é o estado mais elevado no qual se consegue através da meditação prolongada e profunda, (Samadhi é uma palavra de origem árabe, que significa meditação completa, estado em que a consciência está em concentração e é iluminada pela luz Divina). É a expansão da alma no espírito. Nesse estado, a pessoa alcança a supraconsciência e presencia a Verdade Única que cria e sustenta a Ordem Universal, onde inclui o conhecimento sobre a natureza da mente e da matéria. A pequena consciência humana comunga com a grande Consciência do Universo e com ela se identifica, e juntos podem afirmar que: “eu e o Pai somos um.

É neste estado passivo-ativo que Deus fala ao homem, que a alma do Universo fala à alma do nosso ego, que o homem morre e o Cristo vive, que a semente morre e a planta produz muitos frutos. Primeiro o homem é um ego pensante, para depois tornar-se um Cosmo pensado e por fim um Cosmo pensante. Neste estado de espírito, o homem sabe e sente o que quer dizer “eu e o Pai somos um”. As obras que faço não sou eu que as faço e sim o Pai que em mim está que as faz. Porque em mim mesmo nada posso fazer.

Por conseguinte, a natureza toda se acha em estado permanente de meditação cósmica e por se achar nesse estado a natureza é permanentemente bela, perfeita e feliz. Tanto no mundo mineral, vegetal e animal, tudo é harmonioso e belo, porque seu estado é totalmente dominado pela Inteligência Cósmica, pela consciência do Pai e Criador, onde não existe desarmonia, deformidade, infelicidade. A menos que o homem na sua ganância e egoísmo interfira, invertendo os valores naturais da natureza física.

Entretanto, a humanidade é pelo menos noventa por cento deformada, desarmonizada, infeliz, porque o pequeno grau de liberdade não conseguiu ainda equilibrar a falta de segurança. Tendo em vista, que segurança e liberdade humana são mutuamente exclusivas. Quanto maior for a liberdade tanto menor é a segurança. No entanto, na natureza a segurança é cem por cento e a liberdade é zero por cento. Nós com os nossos dez por cento de liberdade conseguimos destruir os cem por cento de segurança e, contudo, com a inversão dos valores, criamos esse desequilíbrio entre o ego humano e o Eu divino.

Portanto, nesse projeto de humanidade, categoria essa da qual fazemos parte. Se um dia houver perfeita segurança com perfeita liberdade, haverá uma humanidade cheia de beleza e felicidade, muito superior ao estado que hoje observamos na natureza. A verdadeira democracia de um povo está no livre desenvolvimento de cada um, para que se criem condições do livre desenvolvimento de todos. Será o grande salto do reino da necessidade para o reino da liberdade, em que, depois de ter dominado a natureza, o homem em sua humanidade tomará as rédeas de seu próprio destino. O pensamento bíblico que nos ensina que “assim como o homem pensa no seu coração, assim ele é”. O grande pensador e médico Paracelso, expoente da medicina na Idade Média e um dos pais da medicina, dizia: “as doenças vêm da natureza, mas a cura vem do espírito”. Contudo, a felicidade não está em acabar com os meus ofensores, mas em acabar com o ofendido, que é o meu pobre ego humano e não o nosso Eu divino. Assim veremos o mundo dos humanos que passou do ego consciência para o Cosmo Consciência, através desse profundo mergulho milenar que é o meu encontro com a Essência da Vida.

29 de janeiro de 2013

A MORTE É ONDE MORA A SAUDADE

Entendemos como morte tudo aquilo que não temos mais. A morte que para nós existe visível é a do outro que já não existe mais. Penso que se fossemos Brás Cuba, aquele do romance escrito por Machado de Assis (1839-1908), com certeza este trabalho de nossas memórias póstumas, talvez pudéssemos adiantar algo de concreto sobre a morte, por isso somos eternos inconformados, pois, o que nós não podemos conceber é não ter memória da nossa morte. Passamos a vida inteira morrendo aos pouco e, quando a morte vem nos buscar, não podemos assisti-la.

A morte está onde menos esperamos que ela estivesse. Tanto naquelas fotos que guardo dos meus filhos quando eles tinham aproximadamente entre três e quatro anos de idade, como naquela música da época que nos traz lindas recordações de momentos que vivemos, que a morte levou e nos deixou saudades. Como diz a música de Nelson Cavaquinho e Jair Costa, Eu e as Flores: “Quando eu passo perto das flores quase elas dizem assim: Vai, que amanhã enfeitarei o seu fim”. Entretanto, ao olhar hoje para as fotos dos meus filhos quando eram pequenos, sinto um aperto no coração e prontamente sou tomado por um saudosismo incomensurável, sinto que aquelas crianças da foto não existem mais, como jamais voltarão a existir. É aqui onde mora a nossa saudade.

Como argumenta o escritor irlandês James Joyce (1882-1941): “A nossa história é um pesadelo do qual estamos tentando acordar”. O final das coisas é sempre doloroso para quem fica. Sinto que a dor faz parte do simples fato de que o mundo existe. A dor é o preço que pagamos por estar vivos. Para o filósofo Karl Marx (1818-1883), “a alienação cria o descompasso entre a nossa existência e a nossa essência. Não vivemos o que somos e nem podemos ser o que gostaríamos de viver”. Entretanto, a meu ver essa adequação entre a essência e a existência, está a nossa santidade. Contudo, a dor pelos vivos às vezes dói muito mais, arranca de nós um pedaço, ou seja, a metade adorada e querida de mim que vai junto.

Certa vez li uma crônica de Millôr Fernandes, que trazia como título: “A morte da tartaruga”. Conta a história de um garoto que foi ao quintal de sua casa e voltou chorando. A tartaruga de sua estimação tinha morrido. O menino não se conformava com a cena do bichinho morto. A mãe foi ao quintal com ele, mexeu na tartaruga com um pau e constatou que a tartaruga tinha morrido mesmo. Diante da confirmação da mãe, o garoto pôs-se a chorar ainda com mais força. A mãe, a princípio, ficou penalizada, mas logo começou a ficar aborrecida com o choro do menino. “Cuidado, senão você acorda o seu pai”. Mas o garoto não se conformava. Pegou a tartaruga no colo e pôs-se a acariciar-lhe o casco duro. A mãe disse que comprava outra, mas ele respondeu que não queria, só interessava aquela, viva! A mãe lhe prometeu um carrinho velocípede e lhe prometeu uma surra, caso não parasse com aquela choradeira, mas o pobre menino parecia estar mesmo profundamente abalado com a morte do seu animalzinho de estimação.
                                                                                         
Entretanto, com tanto choro, o pai que estava descansando depois de uma longa noite de trabalho, acordou com o barulho. Levantou para certificar o que estava acontecendo. O garoto prontamente mostrou-lhe a tartaruga morta. A mãe disse: “Já conversei com ele e até prometi outra tartaruga, mas não adianta ele continua berrando desse jeito”.

O pai examinou a situação e propôs o seguinte: “Se a tartaruga está morta não adianta mesmo você chorar filho. Deixe-a e venha aqui com o pai, pois tive uma ideia”. O garoto colocou cuidadosamente a tartaruga junto ao tanque de água e seguiu o pai, pela mão. O pai serenamente sentou-se na poltrona, botou o garoto no colo e disse: “Eu sei que você sente muito a morte da tartaruguinha. Eu também gostava muito dela. Mas nós vamos fazer para ela um grande funeral”. O menininho parou imediatamente de chorar. “O que é funeral?” O pai lhe explicou que era um enterro. “Olha, nós vamos à rua, compramos uma caixa bem bonita, com bastante bala, bombons, doces e voltamos para casa. Depois botamos a tartaruga na caixa, em cima da mesa da cozinha, e rodeamos de velinhas de aniversário. Convidamos os seus amiguinhos, acendemos as velinhas, cantamos o Feliz Aniversário pra tartaruguinha morta e você assopra as velinhas. Depois pegamos a caixa, abrimos um buraco no fundo do quintal, enterramos a tartaruguinha e botamos uma pedra em cima com o nome dela e o dia em que morreu. Isso é funeral! Vamos fazer isso?”

Depois de ouvir o pai, o garoto já estava com uma carinha melhor. “Vamos papai, vamos! A tartaruguinha vai ficar contente lá no céu, não vai? Olha, vou buscá-la”. E saiu correndo. Enquanto o pai trocava de roupa, ouviu um grito no quintal. “Papai, papai, vem ver, ela está viva!” O pai correu para o quintal e constatou que era verdade. A tartaruga estava andando de novo, sem nenhum problema. “Que bom, hein?” Disse o pai. “Ela está viva! Não vamos ter que fazer o funeral”. “Vamos sim, papai”, disse o menino ansioso, pegando uma pedra “Eu mato ela com uma pedrada”.

Portanto, como toda história tem a sua moral e com essa não poderia ser diferente. Ou seja, o mais importante não é a morte, mas o que ela nos tira. Seja uma pessoa, seja um animalzinho de estimação ou mesmo a morte de um grande amor que não temos mais e que hoje nos faz muita falta. Como dizia Dorival Caymmi: “É tão triste ver partir alguém que a gente quer com tanto amor”. Contudo, o que fica na memória são saudades e lembranças de algo que nos foi tirado.
        

28 de janeiro de 2013

O QUE É A VERDADE?

Quando perguntamos o que é a verdade, está implícito que seja tudo aquilo que posso comprovar ou verificar. Isto é, a verdade é a representação fiel de alguma coisa existente na natureza. É a qualidade pela qual as coisas se apresentam como são. Para o filósofo grego Aristóteles, a verdade é a harmonia total ou parcial, entre o meu pensamento subjetivo e a realidade objetiva, existe uma completa identificação do sujeito com o objeto.

Segundo a filósofa Marilena Chauí, a idéia de verdade foi construída ao logo dos séculos, com base em três concepções diferentes, vindas da língua grega, do latim e do hebraico. A palavra verdade do grego alétheia, quer dizer: “o não esquecido, não escondido, não dissimulado”. Todavia, a verdade é o que vemos numa contemplação ou o que se mostra aos nossos olhos. Verdade em latim, veritas quer dizer: “precisão ao rigor e à exatidão de um relato, no qual se diz com detalhes pormenores e fidelidade o que realmente aconteceu”. Em hebraico, verdade quer dizer emunah, que significa: “confiança” está ligado à pessoa que cumpre o que promete e que é fiel a palavra dada ao pacto feito, que não traem a confiança. Por conseguinte, palavras como averiguar e verificar indica buscar a verdade; veredicto é pronunciar um julgamento verdadeiro.

Por outro lado, pergunta-se se a verdade tem valor objetivo e autônomo, ou se não passa de uma opinião subjetiva e heterônoma. A verdade, dizem os relativistas, não é uma norma fixa, espécie de monopólio, pelo qual eu deva orientar o meu espírito e a minha ética, mas é, antes de tudo, como um boneco ou fantoche que eu mesmo fabrico e manipulo como bem entendo, segundo as conveniências do momento. Se minha verdade for desfavorável aos meus interesses individuais, modifico-a até que se amolde aos meus gostos pessoais, aos interesses do meu grupo, da minha pátria ou da minha igreja.

Neste último caso, a verdade deixa de ser livre e soberana, para se tornar escrava e servidora dos meus interesses. Deixa de ser uma verdade libertadora, pois ela mesma não é livre. O conhecimento é uma relação entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. O conhecimento para ser verdadeiro, tem que corresponder ao objeto existente na realidade exterior, neste caso o conteúdo do conhecimento é verdadeiro, não depende de nossa consciência, de nossa vontade ou preferência. Por conseguinte, está implícito que estamos diante de duas categorias de verdade.

Tendo como verdade objetiva, as leis naturais descobertas pelo homem, que não depende de nós, elas simplesmente existem, que não dependem da nossa vontade, são as chamadas ciências naturais como: Astronomia, Física, Química, Biologia, Antropologia, Sociologia, Psicologia, etc. Por outro lado, estão as verdades convencionais, relativas e subjetivas. Criadas pelo homem para regular a convivência humana em sociedade. As chamadas verdades axiológicas ou normativas, que são as leis jurídicas, éticas e religiosas. Embora sejam também ditadas por determinadas condições objetivas da nossa existência social, mas essas leis normativas podem ser revogadas pelos homens, pois foram feitas por eles, assim como: Direito, Política, Ética, Religião, Regras de Trânsitos, etc. São verdades subjetivas, relativas, que posso adulterar de acordo com os meus interesses.  

No entanto, o que existe na realidade, no mundo dos fatos, não pode ser verdadeiro ou falso. Simplesmente existe. Verdadeiro ou falso só podem ser os nossos conhecimentos, nossas percepções, nossas opiniões, nossos conceitos ou juízos a respeito do objeto. Para muitos filósofos céticos e idealistas, afirma que a verdade não tem caráter objetivo, que a verdade é relativa, múltipla, o que é verdade para uma pessoa, pode não ser para outra, isto é, cada sujeito tem a sua verdade.

Para o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre (1905-1980), a palavra verdade ao longo do tempo, perdeu todo o seu sentido. Cada um coloca arbitrariamente as normas do verdadeiro e do falso, por uma decisão não menos arbitrária de escolher normas totalmente diferentes. Acontece que o raciocínio desses filósofos é errôneo. Eles confundem os sentidos diferentes dos conceitos de objetivos e subjetivos.

Todavia, para essas pessoas, os objetos e suas propriedades só existem dentro do sujeito que conhece, isto é, tem caráter subjetivo. Por outro lado, consideram a verdade como subjetiva, uma opinião toda pessoal que não tem correspondência adequada no mundo objetivo, exterior. Eles acham que a verdade é uma construção subjetiva que depende da nossa consciência, de nossa vontade, desejo e gosto.

O escritor francês Saint-Exupery, relata no seu livro “O Pequeno Príncipe”, o personagem principal é um subjetivista típico. Tudo que ele quer ou sonha, pensa que é real. A realidade e a fantasia se confundem não há distinção entre o real e o irreal, entre o verdadeiro e o falso. Quando o Pequeno Príncipe pediu ao rei que “ordenasse ao Sol que se ponha”, o rei muito sensatamente replicou: “É preciso exigir de cada um, o que cada um pode dar. A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares ao teu povo que ele se lance ao mar, certamente esse povo fará uma revolução.”

Entretanto, o conteúdo da verdade não depende da nossa mente e nem da nossa vontade. Sendo um reflexo fiel da realidade, a verdade só pode ser uma só. Por conseguinte, estão redondamente enganados aqueles que afirmam que cada um tem a sua verdade, que existem tantas verdades quantos sujeitos e que não existem verdades objetivas, validas para todos. Há um grande equivoco em torno da verdade. O fato do daltônico sentir erradamente como verde a cor vermelha, isso não significa que seja assim na realidade, significa apenas que os sentidos dessa pessoa não refletem corretamente as ondas luminosas. O fato de termos a impressão de que a Terra é plana e imóvel e que o Sol gira em torno dela não significa que seja assim na realidade. Alias, durante muito tempo a humanidade toda pensava assim. A afirmação estabelecida pela ciência, de que a Terra é redonda e que ela gira em torno do seu próprio eixo e em torno do Sol é uma verdade objetiva, que não depende de nossa opinião ou vontade subjetiva. Contudo, quantas pessoas foram queimadas em praças publicas na época da Inquisição por causa dessa afirmação verdadeira.

Podemos citar outros tantos exemplos para constatar a verdade objetiva. Assim, como o fogo queima a mão, de que certas substâncias são venenosas e não são invenções do homem. É preciso ser muito infantil para não acreditar na objetividade dessas verdades estabelecidas pela mente humana no decorrer de sua longa experiência. Alias é o que fazem as crianças enquanto não põem a mão no fogo não se convencem disso.    

Por outro lado, a aceitação de uma verdade absoluta, como acontece na religião, tem consequências graves. Todavia, existe uma adesão a uma verdade relativa, mais complexa ainda. Esse conflito em torno da verdade cavou um abismo invisível entre esses dois grupos em que se divide a humanidade em todos os tempos. Portanto, todos os bens e todos os males, no plano da moral e da ética, derivam da aceitação prática desta ou daquela filosofia sobre o caráter e a função da verdade.
Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. Nesta frase lapidar contém uma profunda filosofia de vida, que pode amenizar esse conflito entre os povos. Ninguém tem a verdade, mas, todos buscam a verdade. Como argumenta o filósofo e escritor turco, de origem armênia Jacob Bazariam, no seu livro “O Problema da Verdade”: “sem o sujeito cognoscente não há verdades. Mas isso não significa que a verdade seja subjetiva, pois o conteúdo dessa verdade não depende de nós, de nossa vontade. O que nós podemos é estudar os objetos e fenômenos e descobrir as verdades e as leis naturais pelas quais elas se regem, refletindo corretamente na nossa mente aquilo que existe na realidade objetiva”. Para o pensador indiano Mahatma Gandhi (1869-1948): “A verdade é dura como diamante e delicada como a flor de pessegueiro”.

Portanto, está mais que claro, que o conteúdo da verdade não depende de nós ou de nossa vontade, porque a verdade não é subjetiva. Nós não podemos criar, fabricar, inventar verdades e leis naturais. Elas estão ai para serem descobertas. O que nós podemos é estudar com profundidade os objetos e fenômenos e através deles descobrir a verdade e as leis naturais que estão implícitas. Mesmo o amor que sentimos um pelo outro, só pode sobreviver alicerçado na verdade. A grande verdade está em “amai-vos uns aos outros”. Todo mundo como irmão, uma vida de fraternidade, ligados pelo amor divino, substituindo o egoísmo estúpido e estreito de hoje, pelo respeito e o amor inteligente e altruístico ao meu semelhante.  Como disse Mahatma Gandhi: “Tudo o que vive é o teu próximo”.      

14 de janeiro de 2013

O TRABALHO DO FILÓSOFO

O papel social do filósofo é por pensamento no mundo, isto é, colocar as pessoas para pensarem, estimular o senso crítico, despertando-os para o mundo do saber. Diariamente precisamos tomar decisões rápidas, sem perder muito tempo com reflexões e questionamentos. Todavia, quando alguma coisa não da certo em nossa vida, nós e a sociedade como um todo entramos em crise. É nesse momento que necessitamos de uma reflexão mais apurada dos fatos.

Entretanto, o filósofo faz interpretações e construções calcadas no saber filosófico, mas, principalmente, usa de sua sensibilidade, criatividade e, sobretudo sua intuição, o mesmo que comparado a uma manifestação artística. Ele, assim como o artista, vive emoções multicoloridas quando realiza seu trabalho. O artista, bem como o filósofo, cria. Criar é tirar algo do nada, mas esse nada é algo que não é perceptível num olhar superficial, requer um olhar profundo, um olhar crítico e apurado.

O filósofo vai desbravando arduamente, como um arqueólogo, esse universo simbólico da nossa inteligência, trabalhando profundamente e descobre que nesse universo não há somente escuridão, monstros, demônios, perseguidores ou bruxos. Há, sobretudo, claridade, anjos, um tesouro rico em qualidades, bondades e capacidade de conhecer. Há obras de arte preciosas adormecidas que podem ser acordadas.

O objetivo do filósofo é ajudar os seus discípulos a conceberem suas próprias ideias. Essa pratica ficou conhecida como maiêutica, termo grego usado pelo filósofo ateniense Sócrates (469-399 a.C.) que significa a arte de trazer a luz, em homenagem a sua mãe que era parteira. Sócrates interrogava seus interlocutores sobre aquilo que pensavam saber. Usava a ironia, palavra grega que quer dizer interrogação. Na linguagem cotidiana, a ironia tem um significado depreciativo, sarcástico ou de zombaria.     

O filósofo capta o sofrimento dos seres humanos com seu coração paterno, amoroso, acolhedor e paciencioso. Ele vai caminhando lado a lado com os seus discípulos por dentro desse universo simbólico, viajando pelas paisagens multicoloridas, sem memórias e sem pressa. Semeando o saber com provas. Conheça-te a ti mesmo, é o ponto de partida e o principal fundamento da filosofia de Sócrates. 

O filósofo, permitindo-se tocar pelo seu sentimento, comunica aos seus discípulos sua compreensão desta relação, com a proposta de facilitar mudanças de pensamentos diante do mundo em que vivemos. O que o filósofo põe em palavras, faz eco para muitos e o assegura de que seus discípulos estão em sintonia emocional e racional com ele.

No seu trabalho o filósofo estuda o significado mais profundo da existência humana. Contribui para a discussão e interpretação dos principais problemas da realidade histórica de uma sociedade. É abrindo esse espaço de reflexão que leva o filósofo a ser um artista em seu trabalho, assim como o pintor quando pinta, o escultor quando esculpe e o músico quando compõe.

O filósofo, interagindo com seus discípulos permite que a razão entre nesse universo simbólico e se espalhe como tintas que vão deslizando e colorindo seu espaço interior. Juntos, filósofo e discípulos vão lapidando o diamante bruto que já existe dentro de cada um de nós, talvez, até então, despercebido. A cada encontro com os seus discípulos é um novo encontro artístico, onde produzem obras de arte belíssimas.

À medida que esses encontros vão evoluindo, principalmente com a supervisão e orientação do filósofo, cada vez mais, vai abrindo espaço para que se torne criativo, verdadeiro e amoroso o seu trabalho. Provocando mais discernimento na percepção e, principalmente, o autoconhecimento, que é fundamental para o senso crítico e, sobretudo, criar um terceiro olho, para um olhar analítico e racional.

Portanto, ambos, artista e filósofo, desenvolvem um trabalho artesanal, em que, por meio de um mergulho profundo para dentro de si, resgatam as suas próprias riquezas internas, e as oferece, por sua vez, o artista, aos seus expectadores, e o outro, neste caso o filósofo, aos seus discípulos. É discutindo a vida, que compartilhamos com a arte de pensar diferente. Como diz o filósofo e educador Eduardo Prado de Mendonça (1924-1978): “Os homens que julgam não afastar-se da vida, estes, por não se ocuparem da filosofia, estes sim podem estar afastados da realidade, pois deixam, por deficiência de concepção, de viver como poderiam e deveriam viver”.               

A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA E SOCIABILIDADE

Em um trecho da palestra para a TV Feira do Livro, Leandro Karnal fala sobre a relação entre inteligência e sociabilidade, em sua fala ele m...